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        <title><![CDATA[Stories by Rodrigo Goldacker on Medium]]></title>
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            <title>Stories by Rodrigo Goldacker on Medium</title>
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            <dc:creator><![CDATA[Rodrigo Goldacker]]></dc:creator>
            <pubDate>Sat, 21 Feb 2026 16:44:24 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-02-25T15:44:26.156Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/642/1*x3Seruw0CkSSDcq_g4ZO5A.jpeg" /></figure><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*vb9gl6nt_ktf8tLdTkHxfQ.jpeg" /></figure><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*mdtD-yhwbZOPwdEwrUlv2Q.jpeg" /></figure><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*gtW1ATzwPmCw2gPFmxXmOQ.jpeg" /></figure><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*k1zrpTHKwHIsx0667OzPng.jpeg" /></figure><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*7eSTlc0hT-3eivKaSLptQQ.jpeg" /></figure><p>Hoje fiz trinta e um anos.</p><p>Nunca vivi tanto. Nunca foi tão difícil viver.</p><p>Na passagem de 31 de dezembro para 01 de janeiro, logo quando fogos de artifício começaram a estourar no céu e meus familiares começaram a abraçar uns aos outros, a primeira constatação que veio na minha cabeça foi um verbo simples, conjulgado no pretérito: “<em>sobrevivi</em>”.</p><p>Agora, dois meses depois e na passagem de idades, posso repetir a mesma coisa, com o mesmo assombro e surpresa:</p><p>Sobrevivi.</p><p>Não se trata de uma sobrevivência que comemoro como se fosse um triunfo, porque se sobrevivi foi arduamente, precariamente.</p><p>Entre os outros motivos todos, foi uma das idades mais importantes da minha vida porque foi aquela em que estive mais vezes próximo de um colapso emocional.</p><p>A estratégia que eu tinha para lidar com as crises anteriormente, que funcionou durante toda minha vida, era mais ou menos a seguinte: cortar mais fundo na própria carne; segurar a onda e arranjar energia e resiliência de qualquer depósito mágico das minhas profundezas, independentemente da violência e apagamento envolvidos no processo.</p><p>Era uma estratégia em que eu constantemente me sacrificava para resolver algo porque, entre os meus poucos recursos, aquele que parecia mais infinito para se explorar de forma insustentável era justamente meu bem-estar, eu mesmo.</p><p>Dessa vez, eu não tinha mais de onde tirar. Não tinha mais carne a cortar, não tinha mais depósito mágico de onde sacar, não tinha mais o que sacrificar de mim.</p><p>Pela primeira vez, talvez na minha vida inteira, eu me deparei com a realidade da minha finitude enquanto recurso.</p><p>Pela primeira vez, fui confrontado com os meus limites da forma mais crua.</p><p>O ano inteiro foi uma sucessão de crises horríveis, grandiosas, que precisei enfrentar de novas maneiras diante dos meus limites. Limites agora expostos em carne-viva. Fui obrigado pelas circunstâncias a fazer comigo algo que nunca tinha feito antes, na vida toda: priorizar minha saúde, meu bem-estar, minha qualidade de vida, minha situação mental e emocional. E só fiz isso porque sabia que ou fazia, ou era o colapso. Isso já estava bem visível para mim poucos dias depois dos trinta anos e foi se tornando mais evidente conforme os meses foram passando e as crises foram se acumulando.</p><p>Reli o texto que fiz no meu último aniversário antes de escrever esse. Sorri pensando na ironia de algo que eu disse naquela ocasião. Faço esses textos de aniversário há mais de uma década, é uma tradição, e essas ironias e coincidências sempre estiveram presentes. Mas essa foi talvez a maior de todas.</p><p>Há exatamente um ano, escrevi o seguinte:</p><blockquote>Ter alcançado os 30 em mar calmo me fez feliz, mas ansioso.</blockquote><blockquote>Persiste a mentalidade do modo de sobrevivente, forjada no ferro e fogo das minhas tragédias passadas. Quando o mar está calmo, fico com medo de desaprender a manha para lidar com tempestades. Quando novamente as águas embravecerem, vou ter condições ainda para lidar com o revés das marés? Às vezes, sinto que já não tenho a mesma energia que tive mais jovem para conseguir enfrentar qualquer monstro marinho. Dependendo do que vier, talvez eu me afogue.</blockquote><p>E hoje, um ano mais tarde, sorrio da ingenuidade. A tempestade veio. Foi uma das piores que eu já vivi. E eu não me afoguei.</p><p>Fiquei anos sem me exercitar direito. Poucos dias depois do aniversário dos trinta anos, voltei a ter uma rotina de exercícios físicos bastante disciplinada. De partida, sabia que estava fazendo isso como uma espécie de terapia. Estruturar uma rotina e aproveitar dos hormônios de bem-estar vindos dos exercícios me ajudaria a passar pelas crises que já se desenhavam. Era uma solução barata, a mais barata possível, e uma das minhas vontades era justamente a de angariar o máximo de benefícios com o mínimo possível de recursos.</p><p>Meus caminhos possíveis eram poucos e meu horizonte de possibilidades era limitadíssimo. Acho que fiz milagre diante do pouco que tinha. Espremi o máximo a partir das contingências.</p><p>Apesar dos anos de sedentarismo (praticamente uma década parado, engordando pouco a pouco), fiquei surpreso ao reparar que voltar à academia e voltar a me exercitar foi mais prazeiroso e fácil do que eu imaginava que seria. Pareceu que a relação que eu tinha com meu corpo e minha saúde só se manteve adormecida durante esse tempo todo e despertou tão logo eu dei as condições para que despertasse.</p><p>Acho que o mesmo pode ser dito sobre as condições de sobrevivente, de navegar tempestades. Foi algo que despertou em mim, tão logo foi necessário, como se nunca tivesse ido embora. Os anos de mar calmo não me atrofiaram.</p><p>Se logo no começo do ano eu não tivesse dado esses pontapés iniciais rumo a uma nova rotina e um mínimo de respeito comigo, acho que não teria suportado o que veio em seguida.</p><p>Penso no Rodrigo que fui quando, lá nos finais de fevereiro de 2025, apostei e me comprometi a me exercitar. Fiz isso pensando em economizar dinheiro, voltando a caber no meu guarda-roupas para não ter que comprar nada novo para me vestir quando voltasse a dar aulas alguns meses mais tarde.</p><p>Emagrecer por querer economizar com roupas, por ficar desconfortável de repetir camisas toda a semana diante dos alunos… Uma decisão tão pequena e boba, tão fútil, salvou-me de um colapso.</p><p>Começou-se assim um processo de corporificação em que até minha poesia tornou-se mais somática. Sinto coisas hoje com a caixa toráxica. Penso em metáforas sobre as batatas das pernas. O bem-estar físico e a presença simples estão em mim no sentido mais material. Esta é a principal residência em que encontrei felicidade durante fases terríveis. O hiperfoco e a disciplina obssessiva, traços meus em tempos de crise, voltados à urgência de não colapsar. Pela primeira vez, esse hiperfoco focado particularmente em mim. O locus da urgência sendo, pela primeira vez, eu mesmo. Porque nunca antes o risco de meu colapso esteve tão presente.</p><p>Nunca antes eu estive diante de uma situação de tamanha escassez, em que eu não tinha mais de onde tirar. Sem ter como cortar na própria carne para os outros. Não sobrava mais o que cortar. Dos recursos finitos, das rotinas assumidas religiosamente, deu para sustentar o peso do caos psíquico.</p><p>Caminhadas diárias de alguns quilômetros, o sol, o bairro, o retorno aos exercícios físicos na academia. A escrita, como um exercício mais disciplinado também.</p><p>Era com essas poucas coisas que eu já estava me mantendo quando as crises começaram a escalonar.</p><p>Era frágil (e reitero, precário), mas era o que tinha.</p><p>E daí minha avó entrou em um estado gravíssimo de saúde e, poucos meses depois, morreu.</p><p>Há um ano, ela ligou para me dar parabéns quando fiz aniversário. Foi uma ligação de poucos minutos. Ela nunca mais vai me dar feliz aniversário de novo. Os anos vão passando e vão somando-se os vazios, os silêncios.</p><p>Envelhecer é colecionar silêncios e ausências onde antes existiam palavras e pessoas.</p><p>Não tenho como colocar direito a ênfase do quanto a doença e a morte de minha avó me destruíram. No meu cenário mais pessimista, eu não imaginava que fosse me afetar tanto. Minha avó sabia que eu a amava muito e mesmo ela, imagino, não teria como supor o quanto sua partida me faria sofrer.</p><p>É difícil comparar sofrimentos, porque já vivi sofrimentos intensos e diversos, mas fico tentado a dizer que foi um dos meus três maiores. E acompanhado dos outros na tríade, confundem-se as posições do que foi pior. Foi um sofrimento diferente de outros que sofri mais jovem, mas isso não quer dizer que foi mais fácil. Na verdade, arrisco a pensar que foi mais difícil.</p><p>A solução dessa vez não podia ser a de me desrespeitar. Isso foi inédito. Porque essa morte chegou num momento em que eu já estava há meses num estado de exaustão e limite, eu não tive como lidar da maneira como normalmente lido (ignorando-me, desrespeitando-me, apagando-me).</p><p>Eu sobrevivi a algo que não imaginava que seria capaz de sobreviver. E tive que fazer isso de um novo jeito.</p><p>Quando mais novo, especialmente nas épocas em que minhas circunstâncias e sofrimentos eram muito ruins, eu tirava algum prazer orgulhoso prepotente pelo menos nisso. Num triunfalismo de sobrevivência. Hoje, ter sobrevivido me causa assombro, misturado com alívio. Como consegui? Por quê? E ufa, ainda tenho o jeito. Se o céu se romper sobre mim de novo, eu acho que consigo pelo menos tentar.</p><p>Sinto que foi por pouco.</p><p>Mais do que em qualquer outra época ou momento da minha vida, mais do que diante de qualquer outra das crises que vivi (e foram muitas), sinto que <em>quase</em> não consegui dessa vez. Quase mesmo. Tivessem alguns detalhes mínimos sido diferentes, eu não teria dado conta.</p><p>Não tivesse estruturado um certo papel para a leitura e a escrita nos anos anteriores, teria sucumbido. A escrita foi parte do que me fez sobreviver e, mais especificamente, foi uma modalidade de escrita que passei anos desenvolvendo e na qual só alcancei maturidade logo antes da tempestade começar. E se eu não tivesse passado os últimos anos chegando até esse ponto? Teria colapsado.</p><p>Passei anos tendo questões com o trabalho. Trabalhar muito (e sofrer com isso) para fazer um montão de dinheiro? Flertei com burnouts em várias ocasiões, inclusive porque nas crises anteriores eu dobrava a aposta trabalhando mais para tentar resolver aspectos financeiros do caos (de novo, cortanto na própria carne para tentar resolver tudo). Ficar nessa empresa, ou naquela? E fico assombrado ao pensar na sorte que dei por ter resolvido esses dilemas antes da tempestade chegar. Se eu não tivesse investido os últimos anos até chegar nese ponto de conforto profissional (em que trabalho com a liberdade que preciso e com pessoas de quem gosto), se eu não tivesse me estruturado até aqui? Teria colapsado.</p><p>Resolver a situação profissional envolveu também a estrutura de alguma rotina de bem-estar ao redor do trabalho. Aproveitar do remoto, da flexibilidade dos horários, para montar rotinas pequenas como tomar café da manhã direito todo dia, sair todos os dias para caminhar com a cachorra, diariamente ler e estudar um tantinho. Nessa base de rotina que já vinha montando, ficou mais fácil adicionar a academia como um complemento. Se eu não tivesse estruturado essa rotina toda? Teria colapsado.</p><p>Voltei à terapia quando minha avó morreu. Mandei um áudio pedindo para marcar um horário com meu psicólogo logo na saída do velório. Se eu não tivesse estudado e me familiarizado tanto com essa ferramenta de auxílio, se eu não tivesse essa prática terapêutica já estabelecida como algo que me esforcei para fazer em diferentes fases durante mais de uma década? Teria colapsado.</p><p>A tecnologia mais barata e eficiente que me salvou foi a dos cuidados comuns e das pequenas rotinas. Dos rituais diários. De fazer café para mim e minha esposa logo ao acordar. Do bem-estar ao caminhar com a cachorra no fim da tarde, depois de limpar a pauta de entregar do trabalho do dia. O bem-estar de sair suado da academia à noite e olhar as luzes da cidade.</p><p>Nessa última semana aos trinta anos, sonhei pela primeira vez com minha avó. Estávamos sentados juntos numa sala branca e eu me lamentava, reclamando preguiçoso das burocracias envolvidas na morte dela. Ela ria, dizia que isso não era mais problema dela e que eram coisas que ficavam pra mim, ainda vivo, resolver.</p><p>Nos últimos dias aos trinta anos, carnaval e festividades. Fui fantasiado de vaca e todo sujo de glíter para passar calor em bloquinhos. Fui feliz.</p><p>Pensei, e sorri do pensamento, que minha avó ficaria feliz por saber que para mim ela importava tanto, mas tanto, que eu quase quebrei completamente de sofrimento com a partida dela. Que a morte dela teve esse efeito indireto de desestruturar toda minha vida, toda minha pecepção a meu próprio respeito, todos os meus planos, comportamentos. Uma versão minha morreu junto com ela. Tudo que eu tinha sido na minha vida até então estava morto.</p><p>A carne-viva da crise, a impossibilidade de cortar mais fundo na própria carne para resolver, ter chegado ao osso dos meus limites. Isso me obrigou a fazer algo novo.</p><p>Pensei também que minha avó ficaria mais feliz ainda, e aliviada inclusive, de saber não só que sofri tanto, mas que não quebrei. Que sobrevivi. Que estou novamente tendo momentos felizes. Que me diverti no carnaval. Que sigo estudando e escrevendo. Que estou caminhando com a Sunna, minha cachorrinha. Que emagreci quinze quilos desde meu aniversário passado. Que agora sinto prazer ao movimentar meu corpo. Que tenho tomado sol. Que tenho chorado feliz ouvindo boas músicas. Que tenho cuidado dos meus dentes. Que sorrio ao lembrar dela.</p><p>O que aconteceu comigo neste ano foi intenso, profundo e irreversível. Foi uma das mudanças mais drásticas que já vivi na vida.</p><p>Não faço a menor ideia de para onde a vida vai me encaminhar daqui em diante. Simplesmente não sei. Talvez o mundo dobre a aposta e eu tenha uma nova idade tão calamitosa quanto foi a última. Se for o caso, talvez eu sobreviva de novo, talvez eu quebre de vez. O que sei é que, independente do resultado, tentarei com unhas e dentes. Mais agora do que nunca antes eu entendo o quão vívida, profunda e indomável é a vontade de viver que me guia. Foi ela que direcionou todos os meus esforços durante esse ano pra não colapsar.</p><p>Eu só sobrevivi com muito, muito esforço e vontade. É uma vontade enterrada no fundo de mim que mesmo eu não entendo muito bem como pode resistir a tanto. Quando penso racionalmente, percebo que eu já deveria ter quebrado. Várias vezes, desde criança, desde adolescente, desde jovem adulto. E nessa de agora, já mais velho e exausto, especialmente.</p><p>Talvez a idade nova seja mais tranquila (e espero que seja o caso). Se assim for, vou seguir construindo em cima do fundamento que tive que cavucar das ruínas. Nunca antes estive tão ciente dos meus limites e, em paralelo a isso, de como posso e devo bancar meus desejos.</p><p>Eu quero, antes de qualquer outra coisa, viver do meu jeito. Ser feliz do meu jeito. E sem prestar satisfações a quem quer que seja que minha maneira de viver e ser feliz incomode.</p><p>Nunca antes estive tão consciente dos meus riscos de autodestruição (da tentação de me apagar, de me silenciar, de me autossabotar, e uma pulsão de morte por trás disso tudo). E também nunca estive tão ciente de que só sigo aqui apesar disso tudo porque contenho também (misteriosamente, milagrosamente) uma pulsão de vida que é, no mínimo, tão forte quanto.</p><p>Estou vivo.</p><p>Sinto nas entranhas a vibração pulsante de viver. Sinto o sangue quente nas veias dos meus braços. Sinto o ar descendo até os pulmões.</p><p>Meu aniversário acontece dessa vez num sábado. Ontem à tarde, sexta-feira, saí com a cachorra para caminhar. Estava sol, céu bonito e azul. Voltei, trabalhei mais um pouco e limpei minha pauta de demandas. Daí, fui para a academia. Fiquei ouvindo uma rádio de música pop (estou, e acho isso bastante irônico, ouvindo muito pop; a música de onde que mais ouvi era Folded, da Kehlani). Terminei meu treino, voltei para casa (o mesmo prazer de sempre pela endorfina ao sair da academia para a noite da cidade enquanto descia a rua até nosso prédio). Dei janta à cachorra, conversei rapidinho com minha esposa que assistia qualquer coisa na televisão. Tomei um banho e li dois contos do livro que estamos lendo para um clube do livro. Dormi.</p><p>Acordei cedo hoje, lavei a louça, preparei café da manhã pra mim, para a Jaque e para a Sunna. Depois, sentei para escrever. Terminado isso, vou para a tarde de sábado aproveitar meu fim de semana. Temos compromissos sociais hoje. Também vamos ao parque levar a cachorra para brincar. À academia, se der tempo. O céu está nublado. Espero que não chova.</p><p>O silêncio permite projeção. Diante do silêncio dos meus mortos, projeto que eles sorririam. Sorrio dessa ilusão. Sou ateu demais para ser uma imagem religiosa. Mas é algo que entendo como poético. Minha espiritualidade é a poesia.</p><p>Hoje sei mais do que sabia antes sobre quem sou, sobre o que me sustenta e sobre o que pode me quebrar. Sei e vivo mais a carne-viva da dor e da alegria. A raiz viva de ambas é a base de tudo em mim. Minha alma quer cantar, gritar, chorar e gargalhar, ficar quieta e escrever poesia.</p><p>Como nunca antes, tenho agora atos convictos, não porque estou assegurado que são certeiros (abençoada a Incerteza!), mas porque assegurado e convicto de que são os atos incertos que quero cometer. Nunca mais vou cortar na minha carne por nada, nem ninguém. Não só porque não posso (de mim só sobrou o osso), mas porque não quero. Não quero mais me apagar para resolver crises. Mesmo se quisesse, tentar fazer isso me arruinaria. Não quero me arruinar.</p><p>Quero viver.</p><p>Vejamos para onde este <em>querer viver </em>me encaminha daqui em diante.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=21da5d9ff292" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[autossabotagem]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Rodrigo Goldacker]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 17 Feb 2026 12:01:01 GMT</pubDate>
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            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*JiMDTv9HJdin8cOT" /><figcaption>Photo by <a href="https://unsplash.com/@aminzabardast?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">Amin Zabardast</a> on <a href="https://unsplash.com?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">Unsplash</a></figcaption></figure><p>não quero<br>nada,<br>quero o não querer,<br>se já de princípio<br>a tudo rejeito,<br>não há quem possa<br>me rejeitar;</p><p>não busco<br>nada, <br>busco o não buscar,<br>se já de partida<br>de tudo desisto,<br>não há quem possa<br>desistir de mim;</p><p>querer <br>sumir</p><p>enquanto insegurança,<br>complexo de inferioridade meu,<br>porque nada mereço,<br>roubo do mundo o ar que processo;</p><p>querer<br>sumir</p><p>enquanto prepotência,<br>complexo de superioridade meu,<br>porque não mereço me render<br>às regras do jogo para tentar ganhar;</p><p>não jogar<br>porque as regras arbitrárias<br>me reduzem,<br>tornam indigno<br>o centro de verdade autêntica meu,</p><p>não jogar<br>por medo<br>de perder<br>se me esforçar e apostar;</p><p>é quando<br>mais frágil<br>e decadente<br>que me esforço,</p><p>é quando<br>conformista<br>que me curvo<br>para tentar agradar;</p><p>quando forte,<br>resisto,<br>alienado e liberto</p><p>(teimoso)…</p><p>ambição<br>é<br>maldição</p><p>e só o que eu queria<br>mesmo<br>(mesmo)<br>é me apagar;</p><p>ou fico<br>sujeito<br>ao sucesso<br>nos gostos<br>dos outros</p><p>ou fico<br>no fracasso<br>liberto,<br>mas sozinho<br>em mim</p><p>…</p><p>dos dois projetos<br>não me agrada<br>nenhum, <br>por isso<br>com um, nem com outro<br>totalmente<br>me comprometo,</p><p>saboto assim<br>a ambos,</p><p>autossaboto assim<br>também<br>a mim;</p><p>autossabotagem artística<br>da corda bamba<br>para meticulosamente<br>me delimitar<br>num não-lugar;</p><p>desconstruo a crítica<br>à mediocridade<br>e sinto que mereço<br>e talvez inclusive deseje<br>colocar no meu caminho<br>empecilhos</p><p>(o valor parece maior na trajetória<br>quanto mais pedras e espinhos<br>invento<br>para pisar e calejar meu pé<br>até “<em>chegar lá</em>”<br>e se não chego<br>talvez seja de propósito<br>pelos espinhos e pedras que eu mesmo<br>inventei de colocar…);</p><p>&amp;<br>invento<br>invencionices mil<br>só para tentar<br>escapar<br>do sabor<br>do salivar<br>na gula/desejar<br>das carências:</p><p>intrincada técnica<br>acostumando a boca<br>ao amargo seco<br>de se frustrar;</p><p>eu só queria mesmo<br>(mesmo, mesmo)<br>era me<br>apagar;</p><p>não morrer, destruir, nem sumir,<br>mais fundo, amplo e sutil que isso:</p><p>apagar…</p><p>mas existo</p><p>e este existir me foi<br>imposto<br>com as circunstâncias e contingências<br>e inseguranças e medos e ansiedades e faltas/ausências<br>e inferioridades e superioridades e soberbas<br>e desejos e vontades e sonhos e cansaços<br>e com a curva das costas sujeitas<br>e o estufado do peito indomável</p><p>e não sei como conciliar tudo isso ainda<br>e na revolta à exigência<br>de tudo isso resolver,<br>e no rejeitar<br>das historinhas bobas de ascensão,</p><p>no que insisto<br>em desejar ambicioso mesmo assim,</p><p>decido que vou no meu tempo<br>(no meu tempo, lento tempo, vou)</p><p>&amp; decido sair<br>do piloto automático…<br>melhor imagem: do ponto morto<br>que me arrastava abaixo<br>na ladeira,</p><p>decido sair<br>para parar<br>&amp; contemplar antes de tudo<br>a vista</p><p>(o que importa mesmo, <br>que existe no fim e ao redor de tudo:<br>a vista)</p><p>&amp; para parar,<br>para contemplar, <br>puxo o freio de mão</p><p>&amp; paro e penso<br>pra onde vou?</p><p>antes da ladeira<br>eu autossaboto<br>como freio;</p><p>travo <br>&amp; finjo<br>que travei de propósito<br>para refletir e considerar</p><p>(melhor que correr<br>sem saber<br>aonde se quer chegar?<br>ou só outra desculpa<br>tentando justificar<br>estagnar?)</p><p>que um dia alguém me abrace,<br>que o mundo me resgate,</p><p>que me amem sem exigirem que me conforme,<br>por favor,</p><p>(ou que eu seja amado por realmente vencer na partida,<br>por ser um bom atleta de alta performance no esporte de ser)</p><p>sonho com não ter que escolher<br>para firmar/ter conexão<br>entre fracassar<br>ou ceder,</p><p>oito, oitenta, oitocentos,<br>autossaboto meu maniqueísmo<br>para conjecturar<br>outro<br>meio;</p><p>sendo menos<br>exijo mais<br>com só poucos<br>(alguns diversos)<br>arrependimentos,</p><p>e quando me saboto<br>exijo<br>do mundo<br>uma certa dignidade<br>que, porque em colapso,<br>o mundo<br>não me entregará;</p><p>talvez fique parado aqui mesmo</p><p>(autossabotar do privilégio<br>aristocrata a procrastinar,<br>quem cede prático<br>para sobreviver no corre<br>não tem tempo pro dilema/capricho<br>&amp;<br>o vencimento do boleto <br>não vai acompanhar<br>a agonia particular,<br>o lenga-lenga, o contemplar<br>de quem tem loucura falida de<br>poesia<br>e deseja se paralisar<br>pra sonhar…)</p><p>sabotar a mim em<br>greve de mim, <br>comigo,<br>sem risco<br>(infelizmente)<br>de receber de mim<br>por justa-causa<br>demissão;</p><p>(&amp;<br>ao mesmo tempo<br>sonhar, direito de todos,<br>autossabotagem, estratégia de muitos,<br>talvez<br>o único luxo no lixo<br>seja a arte de até no ônibus lotado<br>arranjar jeitos de se autossabotar)</p><p>talvez<br>fique aqui<br>vendo a vista, <br>sonhando meios, <br>exigindo o que não me darão,<br>até o tempo de anos, de fato<br>dar pra mim<br>o possível,<br>o que eu tanto queria<br>mesmo, mesmo<br>(mesmo):</p><p>me _p_g__, <br>me a_a_ar</p><p>______;</p><p>apagar<br>livre<br>sem<br>as algemas douradas<br>do mérito<br>sem<br>o cabresto chique<br>da ambição,<br>sem <br>chibata gourmet<br>da validação;</p><p>ato, <br>ato firme,<br>convicto,<br>invejo quem faz<br>tudo aquilo que não tenho<br>submisso-pragmático<br>peito cheio, curvadas costas<br>para narcísico<br>por meu próprio benefício<br>&amp; desesperado<br>por esmola dos terceiros<br>realizar;</p><p>(não realizo porque covarde,<br>ou prepotente? <br>os dois, talvez?<br>não sei, de novo, mas acho que sim,<br>os dois)</p><p>sem conformidade, <br>sem rendição…</p><p>sonho digno<br>de freio <br>&amp; de meio,</p><p>no gabarito, a resposta<br>daquilo que ningém perguntou:</p><p>autossabotagem, questão:<br>a) ceder<br>b) insistir</p><p>alternativa<br>c) humildade<br>que logo mais<br>me dobra <br>(me cura, me dilui)<br>para fora<br>da armadilha toda<br>que tola<br>armei;</p><p>(antes fica o poema,<br>para fincar no meu mapa/exame<br>mais esta posição)</p><p>até<br>lá,</p><p>até a dobra a dobrar,<br>admiro a vista <br>do alto desta minha<br>tragicômica boba melodramática<br>(poética, <br>de artista)<br>autossabotagem equilibrista</p><p>sem sim, <br>nem não…</p><p>(autossaboto<br>meu<br>autossabotar<br>&amp; de sapatos<br>desamarrados<br>na corda<br>a bambear,<br>piso<br>no meu próprio pé,<br>tropeço pelos cadarços <br>&amp;<br>caio/apago<br>mesmo, mesmo)</p><p>(ou<br>de outro modo<br>o mesmo<br>dito:</p><p>logo, logo<br>da corda <br>desdobrar,<br>dar<br>pirueta<br>&amp;<br>de volta à <br>aposta <br>me<br>lançar;)</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/35/0*OogzyqWr6x-8zC-v.png" /><figcaption>Ei, gostou do poema?<br>Logo abaixo você pode interagir com nossa equipe de poetas<br>através de claps (que vão de 1 a 50) e comentários.<br>Continue lendo a <a href="http://faziapoesia.com.br/">Fazia Poesia</a>.</figcaption></figure><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=4652467fde8b" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://faziapoesia.com.br/autossabotagem-4652467fde8b">autossabotagem</a> was originally published in <a href="https://faziapoesia.com.br">Fazia Poesia</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[pactos (3x)]]></title>
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            <category><![CDATA[poesia]]></category>
            <category><![CDATA[tempo]]></category>
            <category><![CDATA[literatura]]></category>
            <category><![CDATA[fazia-poesia]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Rodrigo Goldacker]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 23 Jan 2026 12:02:03 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-01-23T12:02:03.410Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*RUzHYoSb5Mf4ALPT" /><figcaption>Photo by <a href="https://unsplash.com/@pawel_czerwinski?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">Pawel Czerwinski</a> on <a href="https://unsplash.com?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">Unsplash</a></figcaption></figure><blockquote>(À poeta Conceição Evaristo, pelo poema “Estrelas desérticas”.)</blockquote><p>anistia,<br>primeiro ato:<br>presente e futuro<br>num pacto<br>pra apagar<br>o passado;</p><p>transição,<br>segundo ato:<br>futuro e passado<br>num pacto<br>pra neutralizar<br>o presente;</p><p>dívida,<br>terceiro ato:<br>presente e passado<br>num pacto<br>pra sacrificar<br>o futuro;</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/35/0*OogzyqWr6x-8zC-v.png" /><figcaption>Ei, gostou do poema?<br>Logo abaixo você pode interagir com nossa equipe de poetas<br>através de claps (que vão de 1 a 50) e comentários.<br>Continue lendo a <a href="http://faziapoesia.com.br/">Fazia Poesia</a>.</figcaption></figure><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=a7593e4e049a" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://faziapoesia.com.br/pactos-3x-a7593e4e049a">pactos (3x)</a> was originally published in <a href="https://faziapoesia.com.br">Fazia Poesia</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[ladainha de alento (missão, 15x)]]></title>
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            <category><![CDATA[religiao]]></category>
            <category><![CDATA[literatura]]></category>
            <category><![CDATA[poesia]]></category>
            <category><![CDATA[poema]]></category>
            <category><![CDATA[fazia-poesia]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Rodrigo Goldacker]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 08 Jan 2026 12:02:50 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-01-08T12:02:50.111Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*dOXSKf5IhgeQ8Vuy" /><figcaption>Photo by <a href="https://unsplash.com/@richardworks?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">Richard Burlton</a> on <a href="https://unsplash.com?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">Unsplash</a></figcaption></figure><p>(ao Jesus secular<br>dos poetas)</p><p>diante<br>da tua crua<br>dúvida<br>na cruz, <br>Jesus,</p><p>diante<br>da cólera<br>no berro alto<br>do pranto<br>da Maria,</p><p>diante<br>de ambos,</p><p>nós</p><p>choramos,<br>lamentamos,<br>respondemos, aprendemos</p><p>e<br>confortamos;</p><p>mesmo<br>se nos matar,<br>a beleza<br>e a poesia<br>contra o poder da bota</p><p>protegeremos;</p><p>a dignidade de todos<br>foi interesse fundo<br>de Jesus</p><p>agora a dignidade de Jesus<br>é interesse fundo<br>de todos;</p><p>resgatá-lo <br>das distorções, <br>recuperá-lo<br>e fazer justiça<br>à força poética<br>de seu legado:</p><p><strong>missão de nós todos;</strong></p><p>seguir na vida buscando<br>(encontrando)<br>beleza, <br>mesmo diante<br>das ameaças<br>que erguem<br>cruzes<br>para nos ameaçar<br>a desistir:</p><p><strong>missão<br>de<br>nós todos;</strong></p><p>estar disposto<br>a carregar<br>o som da própria voz,<br>mesmo no caminho <br>em que isso puder levar<br>à censura,</p><p>insistir<br>pelo comprometimento<br>impenetrável<br>com a<br>verdade<br>mais lírica:</p><p><strong>missão<br>de nós todos;</strong></p><p>ter<br>empatia<br>pelos irmãos esmigalhados<br>sob o peso da bota,<br>recusar-se<br>a participar<br>de qualquer dinâmica<br>perversa<br>que repita a dor cruel<br>a terceiros,</p><p>acreditar<br>que arte pode resistir, <br>ou renascer,</p><p>falar<br>de poesia<br>com<br>modéstia humilde<br>&amp; paixão intensa,</p><p>sem medo,</p><p>com</p><p>urgente<br>gentileza,</p><p>(urgentileza)</p><p>como se o mundo estivesse acabando</p><p>(porque está):</p><p><strong>missão de nós todos,<br>missão de nós todos,</strong></p><p><strong>missão<br>de<br>nós<br>todos;</strong></p><p>professar<br>dúvidas<br>vulneráveis<br>para convocar<br>o conforto<br>coletivo<br>de quem nos puder<br>responder,</p><p>dar<br>retornos<br>com conforto<br>às dúvidas<br>professadas<br>pelo vulnerável<br>ao lado:</p><p><strong>missão de nós todos,<br>missão de nós todos;</strong></p><p>ouvir<br>e acreditar<br>nas esperanças do povo, <br>na promessa<br>de existir algum dia<br>dignidade<br>aos pobres:</p><p><strong>missão de nós todos;</strong></p><p>ouvir<br>o apocalíptico<br>fogo<br>no eco bonito,<br>mesmo escondido<br>pela suavização<br>de milênios:</p><p><strong>missão de nós todos;</strong></p><p>sonhar<br>alguma utopia, <br>alguma revolução<br>otimista<br>da qual se possa<br>versar,<br>para a qual se possa <br>caminhar,<br>levanto<br>junto<br>tanta gente<br>quanto for possível<br>da feira, da rua, <br>do ônibus, do mercado,<br>do bar;</p><p>quando<br>o próximo arrocho<br>vier</p><p>(hoje),</p><p>resistir ao apagamento<br>como Jesus resistiu;</p><p>sentir-se<br>digno o suficiente<br>para merecer<br>viver<br>&amp;<br>morrer<br>sendo quem é:</p><p><strong>missão de nós todos;</strong></p><p>legados de todos nós<br>por Jesus,</p><p>de Jesus<br>por nós todos,</p><p>insistir<br>no grito,<br>feito poeta<br>convicto,</p><p>cantar<br>“<em>no próximo apocalipse<br>Roma vai cair de novo!</em>”</p><p>(de vez!)</p><p>e<br>ouvir,<br>sentir,<br>acreditar<br>na verdade<br>funda<br>das histórias<br>fantásticas <br>dos pescadores:</p><p><strong>missão<br>de nós<br>todos;</strong></p><p>Jesus, não abandoná-lo na dúvida<br>é <strong>missão de nós todos</strong>;</p><p>virá terreno<br>a nós<br>o vosso<br>Reino!</p><p>é <strong>missão de nós todos</strong><br>retrucar<br>ao<br>amém.</p><blockquote>Este é o segundo poema que faço associado a um grande ensaio literário/poético (o anterior sendo <a href="https://faziapoesia.com.br/que-se-saiba-15x-3ffc0bf68711">este aqui</a>, relacionado a Enheduanna). O mesmo dilema da vez anterior se repete aqui: é um poema que sinto ser muito importante para minha produção, portanto “merece” uma publicação para ser lido, ao mesmo tempo em que fica incompleto sem o ensaio enorme que o contextualiza. E diante do mesmo dilema, insisti na mesma solução: publicar o poema em separado porque nem todo mundo lê ensaios enormes. Ainda assim, deixo o aviso de que o ensaio existe e é contexto e aprofundamento para uma ideia secular de um “Jesus dos ateus”, literário e poético. Deixo o link com o pedido para que qualquer um leia, se tiver algum interesse no assunto:</blockquote><p><a href="https://rodrigoldacker.medium.com/jesus-poeta-a5f1bead73bf">Jesus poeta</a></p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/35/0*OogzyqWr6x-8zC-v.png" /><figcaption>Ei, gostou do poema?<br>Logo abaixo você pode interagir com nossa equipe de poetas<br>através de claps (que vão de 1 a 50) e comentários.<br>Continue lendo a <a href="http://faziapoesia.com.br/">Fazia Poesia</a>.</figcaption></figure><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=6047623fa81b" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://faziapoesia.com.br/ladainha-de-alento-miss%C3%A3o-15x-6047623fa81b">ladainha de alento (missão, 15x)</a> was originally published in <a href="https://faziapoesia.com.br">Fazia Poesia</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[ainda (65x) / sonho (75x)]]></title>
            <link>https://faziapoesia.com.br/ainda-65x-sonho-75x-c5cf3c3661a8?source=rss-e5fd76ba678a------2</link>
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            <category><![CDATA[poesia]]></category>
            <category><![CDATA[literatura]]></category>
            <category><![CDATA[poesia-brasileira]]></category>
            <category><![CDATA[poema]]></category>
            <category><![CDATA[fazia-poesia]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Rodrigo Goldacker]]></dc:creator>
            <pubDate>Wed, 10 Dec 2025 12:02:14 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-12-16T02:17:40.878Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*7ZXHzXD-a2DOzzTQOTYFQw.jpeg" /><figcaption>Foto do acervo pessoal do autor.</figcaption></figure><p>aos trinta anos ainda sonho</p><p>eu sonho ainda,<br>aos trinta anos,<br>depois da vida sofrida,<br>da semana de trabalho,<br>do cansaço,<br>da lucidez sobre injustiças,<br>do comedimento dos equívocos,<br>das guerras do mundo,<br>dos boletos<br>e das dívidas,<br>depois duma tarde fria<br>e dos escombros, das ruínas,<br>ainda sonho,</p><p>meu grande fracasso<br>ou minha maior conquista,<br>ainda sonho,</p><p>apesar das opiniões, das misérias,<br>dos ressentimentos terceiros,<br>dos pragmatismos,<br>da falta de imaginação da classe média,<br>da mesquinharia da gente paulista,<br>do conformismo superficial, <br>da plataforma que tenta me aprisionar o espírito,<br>do dinheiro, do status, <br>do extermínio local dos favelados,<br>da cobertura dada ao genocídio dos palestinos<br>pela hipocrisia acovardada dos países ricos,<br>fosse pela promessa de conquistas<br>se me rendesse a ir por outras vias mais cínicas,<br>ou fosse ainda pela promessa de punição ao insistir,<br>nada me quebrou de verdade,<br>nada,<br>nenhum discurso/produto foi capaz de me esvaziar,<br>ainda sonho,</p><p>a mesma esperança feral de quando criança,<br>o mesmo otimismo cheio de expectativa infantil,<br>aos trinta, exausto e curvado, olheiras e choro,<br>e por vitória mais íntima que subjetiva brilha<br>ou mais por obsessão enquanto minha maldição<br>que me derrota e me machuca mais e mais a cada dia,<br>independente do juiz declarar isto<br>como gol ou como falta que merece cartão,<br>independente da consequência<br>ser de benefício ou de vício,<br>ainda, ainda sonho,<br>um sonho <em>produtivo</em>,<br><em>destrutivo</em>?<br>tanto faz,<br>ainda sonho,</p><p>as bombas estouram, os prédios sobem,<br>as pessoas morrem, as árvores são derrubadas,<br>conselheiros envelhecem e se calam diante da entropia,<br>o que antes diziam convictos agora parece tolo<br>e eles sabem bem que a consequência os contradisse,<br>a humildade é pela humanidade humilhada,<br>lançada pra fora do banquete dos bacanas, espancada,<br>e todo dia sou lacerado<br>pelas circunstâncias globais do arrocho,<br>e ainda sonho, mas que merda,<br>desgraça, infelicidade, puta que pariu,<br>ainda sonho, ainda sonho,<br>vejo tudo no processo de ir se desmembrando,<br>fungo do rançoso cheiro<br>da minha própria carne na fogueira queimando,<br>meus órgãos abertos, expostos nas mãos, pulsando, <br>das entranhas, inversas vísceras, <br>o sangue quente no chão pingando<br>e febril, <br>agonizando,<br>ainda sonho, ainda assim,<br>pasmem-se, ainda<br>sonho,</p><p>ainda sonho, ainda sonho,<br>ainda, ainda sonho,<br>ainda sonho, ainda sonho,<br>ainda, ainda, ainda sonho,<br>sonho, sonho, sonho,<br>ainda, ainda, ainda,<br>ainda sonho, sim, sonho ainda,</p><p>morte, tragédia, infelicidade, perdição,<br>da chaminé do crematório ao lado do parque sai <br>fumaça,<br>a<br>carcaça<br>podre da galinha que largaram como oferenda na<br>praça<br>carcomida durante as tardes secas por vermes, ratos e <br>baratas,<br>o mendigo expulso com sua tendinha da esquina<br>que se mudou para uma caçamba de cinzas de lixo<br>no muro pixado e sujo da rua embaixo do viaduto,<br>minha avó que amo muito inconsciente na UTI, <br>entubada,<br>o anedótico concreto junto ao abstrato da sugestão, <br>da ordem, do conflito, do risco, da consequência,<br>da<br>ameaça,<br>e ainda sonho, ainda sonho,</p><p>tirem tudo de mim,<br>tirem de mim o pouco que me resta<br>e<br>(sujo)<br>eu ainda sonho, sonho ainda,<br>deixem-me tombado ajoelhado, estropiado na sarjeta,<br>vulnerável de tudo, sem auxílio nem muleta,<br>e ainda sonho, ainda sonho, sim,<br>sonho, sonho, sonho,</p><p>vai melhorar, vai melhorar, vai,<br>minha avó vai se curar e acordar para conversar comigo de novo,</p><blockquote><em>(ela morreu antes deste poema ser publicado; <br>em seu funeral, li uma carta e agradeci<br>pela força de criança, que em muito herdei dela,<br>e pela esperança;</em></blockquote><blockquote><em>também por ela, <br>para manter além o sonhar dela (vivo agora em mim),<br>para que o meu próprio sonhar seja algum dia<br>mantido vivo ao meu além,</em></blockquote><blockquote><em>ainda sonho, ainda sonho!)</em></blockquote><p>a justiça certa com que sonhei pequeno chegará,<br>as pessoas serão boas como quando ingênuo pensei que seriam,<br>a presente situação<br>é só exceção, <br>este tempo em que se corromperam tanto<br>(sempre)<br>vai passar,<br>o cinismo vai cair,<br>a poesia vai ganhar,<br>ainda sonho, ainda sonho,<br>o tempo há de rimar,</p><p>poesia da vida,<br>beleza das pessoas e do mundo,<br>acredito em ti,</p><p>ainda vamos salvar tudo que resta, vamos sim,<br>vamos restaurar o que já se degradou,<br>ainda sonho, por hoje sonho, <br>a vida só pode ser digna assim,<br>ainda sonho, ainda sonho,<br>sonhar é pontapé de tudo que posso,<br>é todo combustível que resta pra mim;</p><p>sonho, gasolina na garrafa,<br>embebido de sonho fica o pano/tela da palavra,<br>isqueiro de verbo, de sonho/fato fogaréu,<br>vidro estourando, <br>cacos no chão, faíscas no céu,<br>sonho, sonho, sonho,<br>teimoso é meu fogo<br>de sonho,</p><p>sonho inútil e estúpido de hoje<br>feito radical ignição pré-revolução,<br>da<br>vindoura ampla violenta enorme doce amarga<br><em>mudança</em>,</p><p>o forte sonhar/cantar dos sobreviventes poetas<br>(loucos, lascados, delirantes)<br>é<br>meu<em><br>samba</em>,</p><p>é<br>meu <em><br>mantra</em><br>de sonho insone<br>que do mais alto do urro<br>sonha com sono tranquilo,</p><p>sonho ainda, sempre,<br>sim,<br>desistir do sonho, nunca,<br>não;</p><p>ainda<br>sonho, sonho, sonho,<br>ainda sonho, ainda sonho,<br>sonho ainda, sonho ainda,</p><p>o texto cansa,<br>a repetição do ato satura o que digo<br>e foda-se,<br>não ligo, <br>continuo porque sem isso…</p><p>sem isso<br>não sobrevivo,</p><p>repito<br>como respiro<br>e insisto<br>portanto,</p><p>persisto<br>na<br>fúria<br>&amp; no pranto,</p><p>sonho ainda<br>&amp; resisto<br>no canto,</p><p>sonho<br>ainda, ainda, ainda,<br>sonho ainda, sonho ainda,</p><p>ainda sonho, sonho ainda,</p><p>ainda<br>sonho, sonho, sonho,<br>ainda sonho, ainda sonho,</p><p>sonho<br>ainda,</p><p>esperança<br>no líquido rubro borbulha fervida,<br>voz<br>rendida e entregue à própria força,<br>por si mesma possuída,</p><p>sonhado é o punhal que sobe,<br>lateja e rasga o véu</p><p>e<br>que se faça<br>do pulso a pulsar do sonho ainda vivo,<br>de todo coitado,<br>de cada fodido,<br>atos, coros, fôlegos, cânticos,<br>vapor das lágrimas,<br>tom dos gritos,<br>rituais<br>de sacrifícios,<br>incêndios, encantos, espíritos,<br>revoltas, poesias, comícios;</p><p>ainda<br>sonho;</p><p>ainda sonho!</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/35/0*OogzyqWr6x-8zC-v.png" /><figcaption>Ei, gostou do poema?<br>Logo abaixo você pode interagir com nossa equipe de poetas<br>através de claps (que vão de 1 a 50) e comentários.<br>Continue lendo a <a href="http://faziapoesia.com.br/">Fazia Poesia</a>.</figcaption></figure><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=c5cf3c3661a8" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://faziapoesia.com.br/ainda-65x-sonho-75x-c5cf3c3661a8">ainda (65x) / sonho (75x)</a> was originally published in <a href="https://faziapoesia.com.br">Fazia Poesia</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Jesus, the Poet]]></title>
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            <category><![CDATA[history]]></category>
            <category><![CDATA[literature]]></category>
            <category><![CDATA[religion]]></category>
            <category><![CDATA[essay]]></category>
            <category><![CDATA[poetry]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Rodrigo Goldacker]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 04 Nov 2025 15:15:53 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-11-24T16:52:47.178Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<blockquote><strong><em>TL;DR:</em></strong><em> A lyrical, secular road trip from Bronze Age gods to a Galilean street-poet whose gentle comma survives crosses, Roman PR, and cathedral paperwork — all of it told by a Brazilian kid (aka me) once put on a warehouse-church stage to fake “</em>possessions<em>,” now an atheist trying to steal Jesus back from the ruins of decadent empires. </em><strong><em>Long, tender, feral</em></strong><em>… if that hums, it’s probably your kind of read.</em></blockquote><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*YTLYHL5N0f1b8PYkJaA3TQ.png" /></figure><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*j98MBVHuOr2YjUCEp-C3cQ.png" /></figure><h3>One day, on the outskirts of an empire, an ordinary man made himself into a poem so beautiful that no one and nothing could kill it.</h3><p>This modest peasant became a dignified apocalyptic poet, deeply attuned to beauty and endings.</p><p>He was made, by the crowds, into a spiritual leader through the inspired words he shared with his fellow humans.</p><p>Even in death — <strong>as a symbol</strong> — he refused to let even the worst threats and tortures erase the gentleness of his verse.</p><p>In death, and in the thousand distortions that followed, people tried to silence or twist him. No one succeeded for long.</p><p><strong>This is his story in a poetic, secular retelling.</strong></p><p>Here, I want to recover him from yet another layer of historical erasure and make him, again, free, present, and alive. Free of the monopolizing claims of any institution that pretends to own him.</p><p>Jesus belongs to everyone and is for everyone.</p><p>And in that sense, he is also mine, and no one has the right to steal him from me, nor to silence him within me.</p><p>Therefore, I will write about him as I please, and I owe no apology to anyone.</p><p>Still — given the subject — I begin with two important notes.</p><p><strong>First</strong>: this text is a poetic essay, an <strong>artistic manifesto </strong>exploring literary perspectives. It does so by taking <strong>inspiration from the historical Jesus</strong> (from what little can be known with certainty about him, from his historical context, and from what the lives of people like him were like then). But even while drawing on all of that, <strong>this text is not, strictly speaking, history itself</strong>.</p><p>It is a romanticized retelling based on specific historical readings. At the end, I will include a list of books and references from which my views sprang. Many of them are academic, and anyone who reads the text will notice that I drew more on them than on theology or on the versions upheld by famous religious institutions.</p><p>As for technical details, I will take the liberty of simplifying (and even distorting) various elements for narrative or aesthetic reasons. This text is already quite long, and doing justice to all the research would destroy its rhythm, smother its spirit in bureaucratic detail, and quintuple its already immodest length.</p><p><strong>Second</strong>: it’s very important to make clear that <strong>this is not a text written by a religious believer</strong>. I am an atheist, and I am starting from the historical Jesus precisely because of that.</p><p>For someone religious, it may be interesting to read something written by an atheist who admires Jesus deeply as an artistic and historical figure.</p><p>But the fact that I am an atheist affects exactly which Jesus I’m talking about and admire so much.</p><p>It’s a Jesus different from the one held by believers.</p><p>To begin with, it is the Jesus constructed and informed by historical research, archaeology, and comparative academic literature, much more than by theology, dogma, or faith.</p><p>Furthermore, it is a pragmatic Jesus, for whom everything impossible is read as metaphor and symbol.</p><p>It is, therefore, a Jesus who is not born of a virgin. Nor does he multiply fish, heal the blind, or rise from the dead and ascend to heaven three days after being crucified.</p><p>But he is a Jesus whom I find even more beautiful for doing none of those things.</p><p>One who is, in his own way, still a beautiful miracle.</p><p>Perhaps the most beautiful miracle of all.</p><p>As an atheist, this is my favorite Jesus. He is the Jesus I love.</p><p>And I want to present him with dignity, in the beautiful and just way I believe he deserves.</p><h3>1. Before Jesus</h3><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/800/1*XPmnOjh-xhcG4k0FGbkSqA.png" /><figcaption>Bull statue found in the region of Palestine, produced around the 12th century BCE. Because at that time two similar warrior gods (Yahweh and Baal) shared the bull as a symbol, it’s uncertain whether this was a representation associated with either one in particular. <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Yahwism#/media/File:Bull_site_statuette.png">Image from here</a>.</figcaption></figure><p>This beginning will be dense — fair warning.</p><p>If I’m going to spend an entire chapter later to cover Jesus’s whole life in thirty years, this chapter will cover millennia in the same amount of space.</p><p>Millennia of many people from many civilizations doing many things.</p><p>Until all those things they did, whether they worked or failed, changed over time, gestated and birthed consequences, which then birthed other consequences, which then established a linear chain of causes and consequences.</p><p>The last of all these consequences we’re going to look at is Jesus.</p><p>Who, in turn, will cease to be a consequence and become the cause of so many other things.</p><p><strong>Yay!</strong></p><h4>Gods and peoples bubbling in a little bronze cauldron</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/602/1*Gbprq8CFtNDiWSdBOnRLBg.png" /><figcaption>Image of the goddess Asherah, around 1300 BCE. This ancient figure of Canaanite polytheism was part of the pantheon that was the ancestor of Jewish monotheism. <a href="https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Pyxis_lid_goddess_feeding_goats-AO_11601-IMG_1145-white.jpg#/media/File:D%C3%A9esse_nourissant_des_caprins_-_Mus%C3%A9e_du_Louvre_Antiquit%C3%A9s_orientales_AO_11601.jpg">Image from here</a>.</figcaption></figure><p>The first cities developed. As they connected with (or were dominated by) one another, they formed the first empires.</p><p>At the civilizational height of the Bronze Age, there was a mind-boggling diversity of everything.</p><p>Of peoples, languages, scripts, cities, ways of existing, bureaucracies, nascent technologies, mythologies, cultures, gods and goddesses, goods being exchanged, versions of stories, different kinds of art, alliances, regional conflicts.</p><p>Among all these diverse peoples, these interlinked and conflict-ridden peoples, you could trade amiably with your wall-sharing neighbor while militarily invading the next-door neighbor on the other side. And the wall of trade and the wall of war could swap places tomorrow.</p><p>Or the two could join forces to invade your house together…</p><p>There was a particularly effervescent basin of people, cultures, and conflicts that covered much of the Middle East and some nearby regions.</p><p>There lived the Semitic peoples.</p><p>All of them similar in some ways — hence “<em>Semitic</em>”.</p><p>Languages with connections and cross-influences.</p><p>Similar scripts.</p><p>Similar mythologies, when not outright syncretized under a broader pantheon. Sometimes they unified. Sometimes one split into two, or several.</p><p>The Jews were one of those peoples in the region that would later correspond to Palestine. At the time, they managed to stabilize a handful of cities, then a handful of kingdoms.</p><p>When the biblical texts began to be written (within the courts of these kingdoms, from oral traditions that probably existed since long before the shift to agriculture), no one had unified the region yet.</p><p>The Jews held these different kingdoms instead of a single great one because they felt linked by language and culture, but not identical.</p><p>The story of the twelve tribes, symbolic in the ancient biblical texts, springs from this autonomous variety.</p><p>Through their many ancient cycles of ups and downs, the Jews shifted roles.</p><p>In that, from the start they were more resilient than many neighbors. The common fate of a conquered people wasn’t to spend some time marginalized and then stage a comeback. The most common fate was to disappear forever.</p><p>The Carthaginians, for example, didn’t forge a myth that survived the end of their empire, nor did they remain even minimally cohesive in cultural identity when dispersed around the world. They simply vanished. One day, calling anyone “Carthaginian” just stopped making sense.</p><p>Calling someone “Jewish” made as much sense in the Bronze Age as it does today. Among the peoples and identities of that time, few still exist in any number today to say the same.</p><p>The Jews, therefore, weathered change. They rigidly carried certain fundamentals that structured their belonging while adapting and making pragmatic concessions around that core.</p><p>Depending on the period, they were always one thing or another. With success or failure in conflicts and wars, they shifted in class; they alternated between having aristocratic courts with scribes composing mythic texts and being a people of slaves sleeping piled on the floor.</p><p>Over the course of history, Jews could go from scribes to slaves, passing through being soldiers, or farmers, shepherds, or bureaucrat-priests.</p><p>Culturally, little distinguished them from their neighbors. The religions were the same. The system of cities built around temples (thus tied to the deity of their principal temple) was similar. The relations between temples and the economy, politics, and even tourism were likewise similar.</p><p>What varied just a bit was their way of having gods in the plural. In a region of so many polytheisms, ancient Jews seem to have moved earlier toward a henotheistic religion.</p><p>One could argue whether that’s quite right, given that every city tended to have its favorite gods as the most important anyway. Perhaps the Jews simply learned to consolidate certain franchises of faith more effectively.</p><p>Their religion also differed in that its system was more rigid in hierarchies, more closely linked to writing as an important mechanism.</p><p>All peoples produced religious texts.</p><p>For the Jews, however, religion was not merely a written endorsement of the pragmatic powers of a king whom their scribes would fear not to praise.</p><p>At a certain point, probably after being knocked from the saddle by the fall of David’s kingdom, Judaism made its religious writing cease to be merely a ruse to justify a king’s divinity. If it were only that, it would be disposable and of little use once the king died.</p><p>For the Jews, then, religion was perhaps more frequent, more useful, more woven into day-to-day bureaucracies. It served not only moments of power but also the maintenance of cultural identity even under periods of domination.</p><p>Their texts in general and their religion in particular (because they were the same library, with no clear separation of scrolls or tablets by genre) were made to be useful not only to leaders.</p><p>They were designed to resist erasure even under pressure from conquering peoples.</p><p>Beyond the (debatable) particulars, it’s relatively safe to assume a few more things about the Jews of that time.</p><p>Even if the pantheon was leaner, at the very beginning they resembled their neighbors as a people with more than one god. They resembled them in having a mythology that rhymed quite a lot with that of all their regional neighbors.</p><p>It makes sense. Neighbors gossip. They end up influencing each other’s ideas. Religious exchanges accompanied the trade networks of goods.</p><p>Prominent cities composed variations of mythic origins that gave a bigger role to the gods of their cities’ temples.</p><p>In the city of Baal’s temple, perhaps the storm god had been the one who defeated a great monster to save the world.</p><p>The same story could be told with Baal as secondary and Yahweh as protagonist if told in the city where Yahweh’s temple stood.</p><p>These disputes remained open for generations and then closed as if they had never existed when a city fell and a library burned.</p><p>For posterity, what remained was the story of the city (and its temple) that lasted longer. And of those that did not last, it eventually became almost as if they had never existed.</p><p>In everyday life, in these disputes and variations over the “lore,” paganism was as a rule a looser system, in which different interpretations could be made under the same mythic story for political reasons.</p><p>Over time and depending on the place, a god could go from hero to villain, or change names, or blend their trove of tales with that of a similar god from a nearby conquered empire.</p><p>All this dynamic, these exchanges and flows, these variations in who is or isn’t part of the “official” family, was no different in the earlier mythology from which Semitic monotheism would soon emerge.</p><p>The same pantheons of dysfunctional families. The same associations of gods with elements of nature.</p><p>The same interweavings with entities from elsewhere — influences from other gods deemed similar enough to suggest syncretism in the case of cultural rapprochement (or conquest), etc. Inanna, Astarte, Aphrodite. That whole thing. Yahweh, Zeus, and… God?</p><p>Being henotheists — perhaps because they didn’t like carrying such heavy backpacks, or to reduce the number of different little figurines they needed to manufacture to sell in front of their temples — the Canaanites stood out mainly for having fewer gods, as noted.</p><p>It may have been due to a series of small regional conflicts, perhaps also due to a cultural preference, that the Canaanites already here began moving toward that minimalism.</p><p>In a region of religiosities made up of pantheons of many, many gods, the gods the Canaanites kept were few, very few.</p><p>And soon they would keep only one.</p><h4>A Babylonian monotheism of exiles</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*n2CBpPfmp8cQ72CJ4VPCng.jpeg" /><figcaption>An 1851 painting by John Martin of a Last Judgment associated, according to the artist himself, with the destruction of Babylon. The city in which monotheism arose kept an important symbolic place in the imagination of the culture of Jews who lived there as a minority among the Babylonians long enough to watch the empire fall. <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/The_Great_Day_of_His_Wrath#/media/File:John_Martin_-_The_Great_Day_of_His_Wrath_-_Google_Art_Project.jpg">Image from here</a>.</figcaption></figure><p>The most likely version of the story says that the Jews were still polytheists when they became a conquered people, migrating in search of less hostile places among nearby empires.</p><p>With the Babylonian Empire, the Jews found themselves in a situation much like the one they would later have under the Romans —</p><p>that is, a disproportion in military power, domination, hostilities.</p><p>But it was an exchange that nevertheless stabilized into long-term dynamics.</p><p>Stable enough to endure.</p><p>It was while they were subject to the Babylonians, in one of the periods of exile after the fall of one of their kingdoms, that Jewish polytheism transmuted into a monotheism that became the origin of what we know today.</p><p>A situation influenced, yes, by cultural and religious preferences themselves — but also by historical circumstances and bureaucracy.</p><p>It came about through many small decisions made by lots of ordinary people over many, many years.</p><p>It was a chaotic, long, complex process.</p><p>But to simplify, I like to imagine it like this: in a somewhat underground Jewish temple in a remote Babylonian corner, there was probably a very cynical, pragmatic priest who saw monotheism as a good choice because it simplified the organization and management of cultural identity in exile. And, in the same temple, there must have been another priest totally detached from earthly reality, who was in love with the monotheism idea in the most poetic and fervent way possible. The two probably argued about everything. Only on this did they agree.</p><p>Whatever the reason, it was that very standardized homogenization of monotheistic minimalism — raised like an ethereal siege around traditional texts, forged in fire and iron in the times and places where they lived under domination — that allowed Jewish identity to remain alive for so long.</p><p>This is how the idea of “being Jewish” could survive without being dissolved, passed along — hidden when necessary — through all the empires across which the Jews were dispersed.</p><p>And because the surrounding pressure was massive, and this was the only tool strong enough to contain it, the Jews who were not assimilated and erased by the history of their rulers tended to be among the most rigidly attached to their traditional identities.</p><p>(Which means — and this is an irony we’ll return to — that they were also the most resistant to change, including and especially to any stance of open, critical questioning of the ancient bases of their identity. To preserve everything, they kept what remained strong along with what was ramshackle.)</p><p>Stubbornly, the Jews insisted on being Jews even when they were tossed into a civilizational ping-pong of changes back and forth across the historical stage of the region’s empires.</p><p>Empires rose and vanished.</p><p>The Jews arose and never disappeared…</p><h4>Iliad, Old Testament, Gilgamesh: how to write bestsellers in antiquity</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*SZMxABsJSsrQ1WH8tNiy5Q.jpeg" /><figcaption>The Famine in Samaria, painting by Gustave Doré, 1866. The Old Testament is, quintessentially, a text of its time. It loses nothing to any Sumerian or Greek epic in violence, conviction, and succession of calamities. <a href="https://commons.wikimedia.org/wiki/File:096.A_Famine_in_Samaria.jpg">Image from here.</a></figcaption></figure><p>Successive generations of biased, exacting editors kept giving little pats to millennia-old texts to make them fit their wishes.</p><p>Every biblical text was like a Google Doc with edit access for hundreds of people over different generations.</p><p>Even more chaotic than that, because it didn’t even have a prior version history.</p><p>Texts were edited to erase gods and goddesses.</p><p>Pagan stories were abandoned.</p><p>The consort-goddess Asherah, for example, disappeared. She had a rich record of cultural exchanges that linked her to the neighboring goddess Astarte.</p><p>Up to a certain point, before that muffled divorce, she was the companion of that storm god (akin to a Zeus) who would soon become the single God of the monotheists.</p><p>Why this god in particular?</p><p>The story involves political disagreements and coincidences in a long chain of cultural and historical accidents.</p><p>The Jews’ polytheistic pantheon was the only one in the region that irreversibly became monotheistic. The brief Egyptian experiment is the only near example of something similar, and even that was far less significant for having been reversed so quickly.</p><p>There are a number of theories that try to explain which particular features of the Jews led to this strange development that didn’t repeat in the same way with anyone else’s pantheon.</p><p>The small starting pantheon we mentioned is already a clue.</p><p>It’s easier to go from the plural to the singular when your plural is already reduced.</p><p>And exile and life among the Babylonians are also usually read as important factors.</p><p>Some of the texts older than what became the Old Testament were written even before monotheism.</p><p>They were edited later. Some contextual hints slipped through. Older versions of the texts, from when they were still polytheistic, have been found in the last few centuries.</p><p>Because the development of the academic world made possible enough freedom of research and thought, we know today far more about the transition from polytheism to monotheism than at any other time in history.</p><p>Researchers around the world can pore over comparative analysis to propose a wide range of influences among different ancient texts that are more or less “related” to each other.</p><p>Comparative mythology does the same, seeking possible symbolic links among stories and myths of gods that are close in traits, space, or time. Slices of study like: all the gods in the Levant. Or all the storm gods in the Bronze Age.</p><p>A whole genealogy can be proposed for the gods and religious developments of the Bronze Age religions.</p><p>And every now and then, when new stories are unearthed from some ruin, we recover context that strengthens some theories while weakening others.</p><p>The region is particularly favorable to this, as are the oldest materials.</p><p>Things keep well in the desert.</p><p>Especially clay tablets.</p><p>The history of the world is usually written through erasures by institutions that win.</p><p>For institutions in history, winning meant controlling some flow of information and rewriting history by defining their own role.</p><p>So for millennia, everything we could hear about ancient religions was what had survived.</p><p>And what had survived had been curated and selected in a biased way by generations of more-or-less lucid choices on the part of the official doctrine of established religious monopolies.</p><p>If some bishop in 750 BCE decided to rewrite a manuscript, swapping “<em>gods</em>” for “<em>god</em>,” that would affect the entire future stream of interpretations of that text —</p><p>until all those millennia of efforts became futile in the face of the discovery, in ruins, of the original text by some inconvenient archaeologist.</p><p>Two thousand years of institutions trying to edit and consolidate the “<em>correct</em>” version of a text, or of a curated set of texts.</p><p>And then <strong><em>boom</em></strong>, someone digs up from some backwater something like the Dead Sea Scrolls.</p><p>And you discover entire libraries of apocryphal texts that, for one reason or another, someone at some point thought better left behind. Silenced. Erased from the record.</p><p>The history of the losers in some conflict for hegemony and symbolic monopoly millennia ago: erased, until the archaeologists.</p><p>The uncomfortable history of different variations of texts (sometimes in the details, sometimes drastically different) buried, by accidents mixed with deliberate acts, until dug up by archaeologists.</p><p>And with that, millennia of censorship and narrative control crumble.</p><p>Thanks to the doggedness (and, yes, the peskiness) of archaeologists poking around caves and ruins.</p><p>All the major biblical texts of the Old Testament have complicated genealogies with countless versions changing from copy to copy.</p><p>There are hypotheses (articulated in dense academese) about likely authors at specific historical moments, to explain different versions depending on which city or period.</p><p>To give an example I find amusing: a now-discredited theory circulated sotto voce in academic corridors for a few generations (mainly thanks to Harold Bloom, the pop literary critic who spread it).</p><p>In it, one argued that one of the first people to write the monotheistic god might have been a woman — an author the theory labels “J.”</p><p>It’s hard to know, not least because she may have written a polytheistic text later turned monotheistic. But that there are several authors for certain ancient biblical books — each anonymous author represented by a letter — that is academic consensus to this day.</p><p>Sometimes what distinguishes one author from another is calling their god El or Yahweh. The theory is that the texts were written when these may still have been different gods. The terms became synonyms once the divinity became a single one.</p><p>When the J-author theory lost steam, the power of gossip kept it running anyway — just because it sounded cool.</p><p>I like the gossip and don’t mind if it’s wrong. I think it’s fair to mention this symbolic idea, describing this possible priestess who lived in the palace of one of the Jewish kingdoms. Since we can’t know for sure, either way. So everything’s possible.</p><p>What we do know is that, for a hierarchical and patriarchal Semitic people, there are a lot of women in the Old Testament. Miriam, Esther, Ruth. For each of those who remained, many others must have been erased. J may not be real, but some woman author of some biblical passage certainly is — she just wasn’t properly credited.</p><p>So one of the first authors of God, then, may have been a woman — a priestess at Solomon’s court. At court, women sometimes read and wrote.</p><p>That wouldn’t prevent much else in this religion’s story with women over the centuries to come.</p><p>Theories (the more plausible or the more outlandish) exist because scholars never stop prodding the texts with every possible methodology from every possible angle.</p><p>For each paragraph of the Old Testament, for each scene and each comma, there’s a question about authorship, about editing, distortion, origin, influence, inspiration.</p><p>Anyone reading the Old Testament as a secular scholar is hunting for seams and stitches.</p><p>Or for echoes of similar myths (the famous likeness between the Jews’ flood and the floods in the mythologies of several nearby peoples).</p><p>Or else the “<em>from/to</em>” mapping between a text’s final version and the early versions we find in ruins.</p><p>Scholars discovered that Old Testament texts were adapted from earlier polytheisms because they found traces of those earlier texts in ruins. Prayers later sedimented as traditionally monotheistic were found on polytheistic amulets older than the One God.</p><p>By the time of Jesus, Jewish civilizations had already arisen, developed, reached their height, and fallen.</p><p>More than once.</p><p>More than twice.</p><p>More than three times.</p><p>And each had developed entire libraries that they carried forward, as best they could, to hand on to the next.</p><p>The Jewish people, now without a place of their own, lugged around this legacy of their vanished kingdoms, even as servants of new empires that kept them under domination.</p><p>At least once they must have thought something like what I think when I look at all the books on my shelf every time I move: <em>is there anything here that can be left behind?</em></p><p>What remained through so many moves, what was always deemed essential to take along when they asked that question: this is the legacy of earlier kingdoms, kept in text.</p><p>This is the library that over time consolidated into the Torah.</p><p>The Old Testament of the Bible.</p><p>The Jews’ mythological and cultural library, developed and adapted from an earlier polytheistic mythology.</p><p>What had once been the religion of kingdoms , filling whole libraries in great temples…</p><p>Was now the religion of a conquered people, carried in pocket editions to the most random places where Jews would try to live and work.</p><p>At the time of Jesus’s birth, it was the pocket library and religion of a people conquered by the Romans.</p><p>The voice-in-text of a Bronze Age civilization, with all the fury, intensity, violence, and conviction that life in that world carried.</p><p>The only kind of intensity capable of surviving the fall of empires (more than one).</p><p>A stubborn resilience, even in its most expansionist and imperial promises — proud as a court of warrior princes, like Solomon’s excesses — even in its lowest moments of subjugation.</p><p>The Old Testament, then, stands to the Jews much as the classic mythological texts — perhaps the Odyssey and the Iliad in particular — stand to the Greeks; as Gilgamesh, Enuma Elish, and the poems of Enheduanna stand to the Sumerians.</p><p>With the difference, perhaps, that these other peoples over time let their mythologies drift into a more purely artistic place of literature.</p><p>And that in those other classics, even when there was religious reading of the texts, it was always decentralized.</p><p>Homer established a reading of Zeus that must have guided much of Greek religion. But no caste of Homeric priests was instituted to enforce fidelity to Homer’s portrayal of Zeus. It wasn’t even necessary, since that was the Zeus of common sense anyway.</p><p>But for the Jews’ hierarchical and diasporic society, no amount of control was too much.</p><p>Only thus could they avoid dissolving . Avoid disappearing.</p><p>An oral tradition from millennia earlier, converted to text when writing developed.</p><p>A text that survived wars, fires, domination, because a sufficiently large group of people chose to become a minority anywhere in the world, just to remain — both in identity and in spiritual and poetic appreciation — bound to those stories and words.</p><p>For me, as an atheist, what makes a text sacred is not some whimsical breath from above.</p><p>It’s the miraculous inspiration that, somewhere in the backlands of history, leads someone to write something beautiful.</p><p>And the miraculous choice of readers, also in the backlands of history, determined to be inspired by that beautiful thing that was written and to make — against all odds — that written beauty endure and thrive.</p><p>And in that sense, what reached Jesus was already a beautiful tradition around sacred texts.</p><p>A tradition that, as a Jew of his time — as an indignant man left on the outskirts of an empire — he would engage both passionately and critically.</p><p>And to which he would make a new contribution.</p><p>A contribution that would inspire an entire new library.</p><h4>The millennia-old world into which a gentle Jesus was born</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*JFR7-1aiYK7Vs_3aT00KVA.jpeg" /><figcaption>Galilean mountains. Jesus was born and lived in the region of Galilee when it was conquered and peripheral to the Roman Empire. The landscapes he must have seen while growing up were made of deserts, mountains, pastures, beaches, small stone towns, fields. He would have grown used to seeing sheep, horses, olive trees, fish. And Romans, and Jews, and slaves, and merchants from all over the Mediterranean moving in every direction across the empire. <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Upper_Galilee#/media/File:AmudHorses.JPG">Image from here</a>.</figcaption></figure><p>Right out of the gate, the poor Jesus born in this ‘third world’ of Antiquity comes with contradictions.</p><p>This boy was born under the shadow of a giant empire — an empire that, though still powerful at the time, already bore the signs and sores of its decay.</p><p>The sickness and the rot were already there; they just hadn’t started to blot the skin so much yet. That it was sick was clear. No one knew how long it would agonize before dying.</p><p>The Jesus under the Romans carries the lowly conditions of a subjugated people with nostalgic memories of having once been the dominator.</p><p>In the sunlight, the humiliation and the yoke of the Roman whip.</p><p>Behind closed doors and in their temples, in the priests’ whispers in Hebrew (the high language of the religious tradition) and the people’s whispers in Aramaic in the streets: they bore the ancient inheritance that no one had managed to kill.</p><p>The Romans tried hard. They religiously assimilated peoples through openness. They claimed the pantheon had expanded to take in the newcomers. The newcomers were syncretized with the older, more popular, more institutionally endorsed gods. End of problem.</p><p>Any conciliatory measure that seemed sensible in the short term would have been disastrous for Jewish identity in the long term. Those who yielded were erased. But enough of them were too radical to make peace.</p><p>Some were too attached to a book/cultural library, with the forceful conviction of a pulsing, visceral kingdom of David. And they were in no mood to dissolve that force into the Roman web of thousands of divinities.</p><p>The Jesus born under the Romans also lived under a whispered-from-below myth promising — against all circumstances — to rule again.</p><p>One day, before cities existed, before the Jews were Jews, or the Hebrews were Hebrews, or the Canaanites were Canaanites, there was a hunter-gatherer and his son.</p><p>The hunter told his child a story about the moon being divine to explain the world. He had heard the same story from his father, who in turn had heard a similar version from his grandfather.</p><p>Fifteen generations later, this story was oral tradition among farmers and goatherds — families descended from what had once been that hunter’s clan.</p><p>A few generations after that, when writing arrived, they decided to make a fair copy of the telephone game of so many stories.</p><p>And from then on, they kept making editorial adjustments here and there for pragmatic reasons.</p><p>The threat of one king.</p><p>The sycophancy toward a different king.</p><p>A scribe’s aesthetic preference.</p><p>The fall of a city.</p><p>The rise of another city.</p><p>A new temple being raised.</p><p>One more temple being torn down.</p><p>By the time the boy Jesus was first introduced, in childhood, to his religious context, he already had all of this behind it.</p><p>Jesus was born already a child of millennia.</p><p>And he would become father to an entirely new story that would last millennia more.</p><p>(Perhaps unintentionally. Perhaps only because he inspired followers who were far too inspired, passionate, articulate, and competent.)</p><p>Among all the characters in this story — kings, military leaders, erudite scribes, poets, miracle workers…</p><p>It was Jesus, a nobody, who defined all that as having happened “before” him.</p><p>We, in countries marked by Christendom, do not date our calendar by a king’s birth or by some great general’s victory.</p><p>We date the world from the birth of a poor man.</p><p>What’s even funnier is that the same context that produced this particular poor man also produced several others practically identical to him.</p><p>In the time Jesus lived, you could lift a stone in any city in the Roman-ruled region and find under it a dozen-odd apocalyptic prophets crawling about and professing feverish hallucinations about the end of the world (and of Rome).</p><p>There are traces of the historical Jesus scattered through Jewish and Roman records, and it’s impossible to be sure they were speaking about the same guy — because it could just as well have been another similar apocalyptic prophet, equally poor, equally inconsequential, who also ended up on a cross.</p><p>There was no shortage of Roman crosses raising up prophets, rebels, dissidents, or just people meant to send a message by being crucified.</p><p>Among them all, why Jesus? Why Christianity and not “<em>some other crucified-prophet-ism</em>”?</p><p>No one knows for sure.</p><p>My opinion is that it wasn’t only because what Jesus did on arrival turned everything and everyone before him into mere prefaces to his reformist radicalism.</p><p>He was more a symptom of his time than such an exceptional revolutionary.</p><p>But perhaps his radicalism was of something other than words. Of worldview. Of the first impression he made on anyone who stopped to hear him in a marketplace. Of principles. Of poetic timbre.</p><p>Maybe it was just a <em>vibe </em>he never fully articulated.</p><p>Maybe he simply had disproportionately “<em>nice guy</em>” energy.</p><p>Maybe the truly good ones were the dramatic, over-the-top writers and poets of a later generation of Hellenistic Jews — the passionate ones who realized what a blockbuster story they had on their hands, ripe to go viral.</p><p>Or perhaps, rather than merely representative or merely reformer, he was truly revolutionary. Revolutionary-revolutionary. Stirring up commotion in the streets. Disrupting the foot traffic of people just trying to get to work.</p><p>Maybe he inflamed the masses to the brink of a slave revolt, a civil war, or something of the sort.</p><p>Maybe it was because of this risk of political instability that the Romans got rid of him so quickly — and so publicly and cruelly.</p><p>(Though, it’s worth saying, that was the same public, cruel treatment they meted out to any random nobody who annoyed them, which makes it hard even to say Jesus was in any way exceptional at the moment he was crucified. The Romans were so cruel in their tortures that I once read an academic theory suggesting the water they drank might have been polluted in a way that reduced empathy. Yes, that theory exists — you can look it up.)</p><p>Maybe, maybe, maybe.</p><p>Hard to say, hard to say.</p><p>Hard to say because later generations decided to make these certainties harder.</p><p>If Jesus was too peaceful, in the soft, “<em>turn-the-other-cheek</em>” register, someone more bellicose (probably some revolutionary apocalyptic Jew) thought it was overdone and decided to edit the text to give him a more active edge with his “<em>I come not to bring peace, but a sword</em>.”</p><p>And if Jesus was fierce and unsubmissive, someone (probably some worried ruler) decided to make him more “<em>peace and love</em>,” docile and domesticated, bringing in forgiveness, the parable of the prodigal son, etc.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/490/1*NLP_Cm4hYBSd5LIt96X4jg.png" /><figcaption>Painting from Saint Catherine’s Monastery in Egypt. It is the oldest (and most famous) representation of a tradition of portraying Jesus known as “Pantocrator,” Greek for “in dominion over all things.” It is famous for trying to synthesize into a single face Jesus’s “turn the other cheek” and “I bring the sword” sides. <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Christ_Pantocrator_(Sinai)#/media/File:Spas_vsederzhitel_sinay.jpg">Image from here</a>.</figcaption></figure><p>It’s hard to reconcile the anti-punitive Jesus who says we cannot judge a woman and stone her — who invites only whoever has not sinned (no one) to punish her…</p><p>…with this other Jesus who is very sharply judging the stall-keepers whose booths he goes around smashing in the streets.</p><p>But what is certain is this: what Jesus proposed amounted to a threefold project of politics, religion, and poetry.</p><p>It was a project of these three things because those three things were not at all separate at the time.</p><p>No one could say, “<em>I’ll do just politics without getting involved in culture</em>,” or “<em>I’ll write pretty poetry that has nothing to do with religion</em>,” or “<em>I’ll be a secular politician</em>.”</p><p>None of that. It was all the same thing.</p><p>Jesus was <strong>political </strong>because he proposed a not-very-pragmatic utopia after the fall of the decadent Roman Empire.</p><p>And he was <strong>religious </strong>because he suggested an “<em>update to the terms of use</em>” for the tradition of Jewish sacred texts which, however impressive they already were, Jesus thought needed a makeover.</p><p>And he was also the author of a <strong>poetic </strong>project, because his method consisted in existing and communicating through parables —</p><p>parables crafted as beautifully as possible, as cryptic and hermetic as possible, and, paradoxically, as comprehensible and accessible as possible.</p><p>It consisted in speaking about compassion and the internalization of virtues —</p><p>and he spoke about all these virtues in explicit contrast to the bureaucratic, complacent conformism then in vogue among the Jewish “<em>Pharisees</em>,” and sedimented for centuries by the Romans, of merely performing empty rituals for others to see.</p><p>(The truth is the Pharisees were actually quite modern. Jesus’s impatience with them is more a consequence of his own radicalism. Against the Pharisees, Jesus functions more or less like a radical, far-left anarchist frustrated with the concessions and hesitations of a moderate left. Editors of later generations — especially once Gentiles entered the picture — also liked to unfairly emphasize the Pharisees as antagonists, so we don’t know how much of the quarrel was exaggerated in later gossip.)</p><p>The project advocated ideas of compassion as alien as possible to his context, while being absolutely possessed by a vision (anachronistically classifiable as perhaps psychotic) of himself as part of the last living generation before a coming apocalypse.</p><p>But if it was psychosis, it wasn’t just his. It was a collective delusion.</p><p>Jesus wasn’t the first or the last to believe that. And he made people who hadn’t believed it on their own start believing when they were around him.</p><p>But what he had that was perhaps most different — what was truly uniquely his beyond any comparison — I think may have been his proposal in the face of the end.</p><p>In the face of the apocalypse, for Jesus only gentleness remained.</p><p>It was this gentle comma that Jesus would add to the story about the world.</p><p>This comma would come into a story that one of his ancestors began to sketch millennia earlier, before the first cities were even raised.</p><p>The Jews had built and lost cities and civilizations before this gentle addendum arrived.</p><p>Carrying the resilience of that people’s ideas to a new unstoppable, immortal, expansionist potency, this gentle addendum would survive any attempt to trouble it. It became a generational landmark. The tone of this entire text — our expectation about how much dignity ordinary people deserve — wouldn’t make sense before Jesus. The one who finally lodged in history the idea that ordinary people deserve dignity was, above all, him.</p><p>It survived all the whims, the urges to erase him or distort him, that may have seized more imperial, impatient editors throughout the long centuries that followed.</p><p>Despite all of them — so many people and so many attempts to neutralize him — the essence of Jesus’s voice resisted and was carried with something of itself still intact to this day.</p><p>Such a resistant, insistent innovation was not going to be warmly welcomed by everyone at once.</p><p>Before the more refined strategies that so many would later try, the first bet to erase Jesus’s gentle comma would be violence.</p><h3>2. During Jesus</h3><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*PgnqubZMXwN_ZO1IWeBD3g.jpeg" /><figcaption>This is the visual representation of Jerusalem according to the Madaba Map, a 6th-century mosaic found in a Byzantine church. Image from here. <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Madaba_Map#/media/File:Madaba_map.jpg">Image from here</a>.</figcaption></figure><p>Small and midsized towns.</p><p>Galilee, a province of little importance.</p><p>Intense trade networks.</p><p>Manual laborers in little shops.</p><p>Sheep, horses, and camels.</p><p>Sand. Sea. Olive trees. Oases here and there with palm trees.</p><p>Beggars asking for food in the streets.</p><p>Romans strutting snobbishly through crowds of the rabble.</p><p>It was in a world like this that Jesus was born and raised.</p><p>Now, what comes next will be an educated guess trying to answer the following:</p><p>What might it have been like for Jesus to live in that world?</p><p>(It’ll be a bit less dense from here on out.)</p><h4>The linguistic profile of a typical Jew of the time</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/580/1*jnSjTyeQWkyBMSqsWVoYiQ.jpeg" /><figcaption>A papyrus page of the New Testament — specifically a passage from Corinthians — written in Greek, around 175 to 225 CE. <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Koine_Greek#/media/File:P46.jpg">Image from here</a>.</figcaption></figure><p>The Jesus who was born was a lot like an average Brazilian.</p><p>Seriously:</p><p>A Brazilian has their own language (Brazilian Portuguese), an insular, peripheral dialect with little weight on the global stage. Jesus had something similar in Aramaic, a popular tongue without political power.</p><p>If Jesus were born in Brazil today, he’d never bother learning English. He’d keep speaking Portuguese — let everyone else be the ones stuck trying to translate it afterward.</p><p>A Brazilian Catholic is tied to a church that treats an ancient, out-of-fashion language as the sacred base of its religion. And although most Brazilians are Catholic, very few speak Latin. Jesus had the same situation with Hebrew — the temple’s religious language that was barely heard in the streets anymore.</p><p>If Jesus were born in Brazil today, he might learn a thing or two of Latin for being very Catholic, the religion of most around him. But he almost certainly wouldn’t be a Latin expert — far from it.</p><p>So he probably knew a thing or two in Hebrew.</p><p>I think he could read a bit, which was already a differentiator for the time. But he probably couldn’t read the Torah on his own. That point is debated — no hypothesis stands out. He could have been literate, or not…</p><p>In Brazil today, French is a fading lingua franca (whose greatest legacy is the term “<em>lingua franca</em>” itself). Jesus had something similar in Greek — the language of the previous empire, still respected and seen as elegant.</p><p>I imagine he probably didn’t speak Greek — just as an average Brazilian would hardly speak French — but the echoes of an earlier heyday of that language were still present in his culture.</p><p>Maybe he knew a smattering if he spent time with Hellenistic Jews…</p><p>But Jesus certainly wasn’t spinning out learned parables in Greek to the illiterate fishermen he lived among.</p><p>And if, in Brazil today, a Brazilian would have some awareness of English — because it’s the language of the decaying empire seeking to dominate us, casting its shadow over our “<em>third-world</em>,” “<em>peripheral</em>” reality…</p><p>Jesus would have the same with Latin.</p><p>Latin was the conqueror’s language in Jesus’s world. If his parents had been rich (they weren’t), maybe Jesus would have taken a Latin course equivalent to what a middle-class São Paulo teen does at <em>Cultura Inglesa </em>(something as <em>English Culture School</em>). “<em>Cultura Latina”</em> — the Latin Culture School?</p><p>Jesus spoke Aramaic.</p><p>He had some connection, for cultural and religious reasons, to Hebrew.</p><p>The most ardent will say he was fluent in Hebrew, that he read the Torah alone and debated theological challenges with temple masters.</p><p>Hard to know if that was really the case.</p><p>(I don’t think so. He probably scraped by with just a bit.)</p><p>I prefer to think he could read the Torah — that he was just a little better than an average peasant at Hebrew at it.</p><p>Enough for some elder to tell Mamma Mary that her boy was quite intelligent — praise young Jesus overheard, which may or may not have gone to his head enough to underpin his journey toward becoming a messiah.</p><p>There’s a story in the New Testament in which Jesus appears writing.</p><p>It doesn’t say what he was writing.</p><p>Maybe some later Christian editor thought it best to toss that text out. Maybe the writing itself, in that scene as described, was an editor’s invention layered onto the original story he’d heard through the telephone game.</p><p>We can’t know.</p><p>Jesus didn’t speak the language in which his New Testament would be written.</p><p>The first time the world read his story, then, it was already translated (and distorted) from Aramaic into Greek.</p><p>And Jesus definitely didn’t speak Latin — the language of the decaying empire he absolutely despised.</p><p>Amid all the<strong> </strong>unknowns, I state with certainty — backed by poetic conviction only — that Jesus deeply detested the Roman Empire.</p><p>He preferred to believe the world was ending right then.</p><p>He chose to think so because he found it more beautiful than believing that cruel, decaying empire would keep on existing for another generation.</p><p>And it was at the Roman imperial core, in Latin, that Christianity developed, survived, and spread.</p><p>Latin: the very language that should have sent shivers down his spine (a Roman officer speaking Latin was never going to be saying, “<em>nice cute Jew, what a sweet man you are</em>”) is now the language a Brazilian will hear in a traditional Catholic Mass.</p><p>The ironies start there.</p><h4>A simple life before the public life</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*El4_UO0QdVK5cmCHF2sAfw.jpeg" /><figcaption>Although invented, the story of the child Jesus in the temple tackles themes that are symbolically real in Jesus’s lyrical mythology — such as the difference between the comfortable, cosmopolitan life of a Pharisee in charge of a great temple and the utterly poor life of an ordinary family like Jesus’s. This 1854 painting of the scene by William Holman Hunt was made entirely to explore that contrast. It’s a fable about inequality and institutional marginality. The historical Jesus never received formal training in any temple; his dialogue with sacred texts came by his own initiative, far from the religious power centers of the time. Inclined to dialogue, he left nothing written. He was closer to Socrates shouting in the streets (in argument, almost a Diogenes) than to Plato in his comfy little school. <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/The_Finding_of_the_Saviour_in_the_Temple#/media/File:William_Holman_Hunt_-_The_Finding_of_the_Saviour_in_the_Temple_-_Google_Art_Project.jpg">Image from here</a>.</figcaption></figure><p>The historical Jesus was probably from Nazareth.</p><p>His birth and childhood were distorted and edited in every possible way after his death, all to try to fit him better into the role expected of a messianic leader.</p><p>The “<em>messiah</em>” position already came with requirements. When the followers of early Christianity realized Jesus didn’t fit all of them neatly, they lied on the résumé and got the job anyway.</p><p>So he wasn’t from Bethlehem.</p><p>He didn’t receive gifts from magi kings.</p><p>His mother probably didn’t sneak off to Egypt when he was a baby.</p><p>And his mother was probably not a virgin.</p><p>The fascination with Jesus’s childhood was so great that the Church itself had to pump the brakes on the fables.</p><p>A considerable portion of the apocryphal texts left out of the New Testament’s curation were tales of the child Jesus playing at working miracles with his little friends on dusty streets.</p><p>In the version most accepted today, what remains is only the story of him, as a boy, discussing religious texts in depth with the temple priests.</p><p>It’s a fable that carries a seed of truth if taken as metaphor. Jesus really did represent a youth arriving to re-open and refurbish old ideas.</p><p>But before all that, he was just a child.</p><p>My favorite non-canonical story tells of an occasion when Jesus supposedly, by accident, killed a child who touched him from behind during a street game.</p><p>Touched — died.</p><p>Then he raised the child as if it were just part of the game. Another ordinary day in Nazareth childhood with <em>Little Jesus</em>-miracles.</p><p>The Jews in the world where Jesus was a child were oppressed and unhappy under the Romans’ fist, but at least they were not slaves.</p><p>So I imagine they could see the horrible situation as having once been worse.</p><p>The Romans liked taxes and corruption.</p><p>At that time, they were less concerned than they had been in other moments with assimilating the Jews religiously by erasing their faith.</p><p>Not that it had vanished from the Roman mind. It had only slipped down the priority list.</p><p>After a series of persecutions and massacres, they’d seen the effort wasn’t worth it. It would be hard because the Jews were stubborn.</p><p>Other thorny problems were more urgent — like trying to keep their decaying empire from fully collapsing. Priority number one, already wobbly by then.</p><p>Jews under this Roman Empire worked in all sorts of trades:</p><p>fishermen, manual laborers, and many artisanal professions — like carpentry.</p><p>Joseph, Mary’s husband, may really have been a carpenter. It isn’t certain; scholars debate that perhaps he practiced some similar middling craft — very common for Jews of his class in the region.</p><p>It amounts to the same thing, so I prefer to think of him as a carpenter.</p><p>Jesus likely worked at the trade for a good stretch in his youth before getting it into his head — the poetic idea — of becoming a prophet.</p><p>Jesus’s mother, Mary, was probably from a middle-class Jewish family. She certainly wasn’t as destitute as later traditions painted her, but she wasn’t rich either.</p><p>Her class (and her marriage to Joseph, who probably married out of compassion) protected her from scandal and ostracism over a child without a father.</p><p>(Jesus.)</p><p>The mystery of Jesus’s father is one no scholar dares to solve.</p><p>But there are theories.</p><p>One says it may have been a Roman soldier named Panthera.</p><p>I’m very fond of this theory and I get why it’s popular —</p><p>not because it’s more plausible (it’s as impossible to corroborate as any other), but because of the symbolism of the whole thing.</p><p>It’s pleasing to think that Jesus, with all he became, might have been the hidden bastard of a Roman — that the Jew who would become the empire’s religious center already carried that empire in his blood in some way.</p><p>But this is really academic fanfic.</p><p>We can’t know.</p><p>We do know that Jesus was born and raised with Mary and Joseph; that he lived the life of a Jew of his region in what must have been the most ordinary way possible.</p><p>He must have accompanied his mother to temple visits.</p><p>He must have chatted with boys in the town squares.</p><p>He must have gotten nervous after a scolding from his adoptive father for messing something up in the workshop.</p><p>He must have skipped along the streets talking with his friends.</p><p>He must have gone to the sea on hot days.</p><p>He must have learned to fish.</p><p>He must have been moved by hearing the stories of his people.</p><p>He must have been bored at a family wedding he was obliged to attend.</p><p>He must have seen Romans humiliating Jews in the streets.</p><p>He must have seen the bodies of prophets and dissidents displayed to rot as warnings.</p><p>And he must have heard from his very worried mother to always keep his head down when a Roman addressed him.</p><p>He must have been told not to get involved in those discussions that brought trouble.</p><p>He must have learned and sung melodies —</p><p>the religious ones, certainly, and probably the popular tunes he heard at street festivals.</p><p>The Bible itself says Jesus had brothers.</p><p>Editors tried to erase that, but a few mentions remain — without any depth. Remnants of Jesus’s family life scattered among the Gospels.</p><p>He must have had games and quarrels with his siblings.</p><p>Did Jesus date? We don’t know.</p><p>Maybe yes. I think probably.</p><p>The Jesus I like to imagine is one who lived a simple, ordinary life until around twenty-nine. Who was well integrated in his community — known by the aunt on the corner, by the baker down the street, by the kid in the little square playing with the dog.</p><p>Who greeted the fishermen by name when he passed them on the beach, and heard back from them, smiling, something like, “hey, Jesus! How’s Mary?” to which he’d answer she was doing very well, yes — perhaps asking after the fisherman’s wife too.</p><p>Of the historical Jesus we only know: he was born.</p><p>And at thirty he appeared in public life.</p><p>From then on, we know quite a bit.</p><p>When he stepped into public life, Joseph had already vanished from the story —</p><p>probably dead by then. Given that death, Jesus likely felt responsible for his mother, along with his brothers.</p><p>One of the lingering family references in the New Testament tells of Mary going with his brothers to try to rescue him when he started playing the prophet, because they feared he was going mad.</p><p>Was Jesus going mad? Falling in love with poetry? With the lyricism he heard in the sung phrases of prophets in the streets? Was Jesus losing his sense of risk, of danger?</p><p>If Jesus had earlier ambitions for public life — to make his mouth the spiritual and political poetry of his time, to use parables to throw indirect jabs at Romans and Pharisees — he seems to have set all that aside until thirty.</p><p>Maybe because of his brothers.</p><p>Maybe because of his mother.</p><p>What changed him was John the Baptist.</p><p>That’s scholarly consensus. The religion that would become Christianity actually begins not with Jesus, but with John.</p><p>John was the original leader of the movement Jesus would inherit. He was friends with Jesus’s relatives, and they had seen each other a few times over their lives.</p><p>Jesus was the more rural boy, from a small town.</p><p>John the Baptist had all those feverish, effervescent ideas of someone coming from the big city —</p><p>the guy who shows up at Aunt Ruth’s wedding telling all the wild wonders being discussed far away.</p><p>At some point, Jesus decided to join John the Baptist’s movement.</p><p>The historical Jesus as an ordinary human, an average Jew from Nazareth living a simple carpenter’s life, died.</p><p>His death was on the same day the baptized Jesus, the future messiah who would join John’s apocalyptic movement, was born.</p><p>John himself carried all the era’s contradictions.</p><p>Contrary to the wild way he’s habitually depicted, he was more urban than Jesus. Despite his inflamed apocalyptic-prophet rhetoric, the ritual he insisted on was of the simplest, most modest beauty: a purification bath in waters blessed by words.</p><p>Simple moments of cleansing.</p><p>The Bible’s editors once again let slip another of those accidents of Christianity’s primitive origins when they kept Jesus’s line that John was “<em>the greatest of men born of women</em>.”</p><p>For a religious reader, you might argue that excludes Jesus himself (though he too was born of Mary, but would God be a “man” in the same category for comparison)?</p><p>For me, a faithless reading allows an interpretive path that’s still beautiful:</p><p>in this path, being a man and human, also born of a mother, Jesus looks at his mentor and says he admires him — that he perceives him as greater than himself.</p><p>The baptized Jesus didn’t go back to chit-chatting with fishermen on the shore about how their daughters and wives were doing. Something everyday and human was lost in him when he surrendered to the intense poetry of parables that would lead him to fame and to death. If he hadn’t been radical at his core before, at that moment he radicalized.</p><p>Without John, I like to think Jesus might have gone on living to grow old as any ordinary Jew — working as a carpenter, going to the bakery, caring for his mother in old age, perhaps having children, chatting on the waterfront with fishermen about an overcast day that wasn’t, literally, a day for fish.</p><p>I’ll leave it to readers to decide whether this banal Jesus — whom history would have forgotten among so many — would have been more or less happy.</p><p>But I’m sure he would have been less of a poet.</p><h4>Taking up the Baptist’s mantle</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*5-FDVePYY26e4nFxkEPOCg.jpeg" /><figcaption>Baptism of Christ by the Baptist. It’s my favorite depiction by a Brazilian — by José Ferraz de Almeida Júnior, 1895. From here. <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Almeida_J%C3%BAnior#/media/File:El_bautismo_de_Jes%C3%BAs,_por_Jos%C3%A9_Ferraz_de_Almeida_J%C3%BAnior.jpg">Image from here</a>.</figcaption></figure><p>Jesus began to hear beautiful words.</p><p>In the streets, at baptisms, at late-night gatherings to drink wine.</p><p>Perhaps even before getting involved with the Baptist he already knew he had this gift.</p><p>One day he may have let slip some particularly lovely insight at the lunch table, talking with his mother or one of his brothers. Maybe, now and then, he’d drop a bit of poetry for a good customer at the carpentry shop.</p><p>But it was at John’s side that he seems to have truly fallen in love with the whole poetry of the thing —</p><p>with speaking to crowds,</p><p>with crafting powerful, accessible parables,</p><p>with describing feelings and wisdom in ways so simple and beautiful they could move fishermen to tears.</p><p>Maybe that melodic passion also had a militant side. With Jesus, as we’ve seen, you can never tell where the line lies between peace and the sword. The Jesus who discovered his gift for poetry may have felt in it a kind of power — that warm flutter of someone thinking about writing revolutionary pamphlets.</p><p>Whatever the intentions, the truth is that Jesus, like any good street poet, was probably making a lot of people cry or think revolutionary thoughts.</p><p>Perhaps both at the same time…</p><p>At the beginning, Jesus must have been more or less a prophet’s assistant to the Baptist.</p><p>He must have felt admiration watching his mentor baptize people and say beautiful things.</p><p>How much of Jesus’s beautiful sayings were influenced by, or directly referenced, the Baptist — we don’t know.</p><p>(That doesn’t stop a lot of scholars and theologians from trying to figure it out.)</p><p>Perhaps the Baptist radicalized the apocalyptic prophecies of a Jesus who arrived gentle and warm, with the aura of the neighborhood favorite.</p><p>Perhaps Jesus arrived radicalized, hot with activist zeal, and it was John who humanized and softened him.</p><p>Perhaps he was both from the start.</p><p>Perhaps he was only one and never the other (and we think he was both thanks to some later editor’s sleight of hand).</p><p>Again, we don’t know.</p><p>At some point, in some way, Jesus was seduced into the world of street-prophet activities (a class unto itself in Jewish culture, the <em>nabis</em>, a mix of town eccentric, popular theater actor, and prophet shouting in the city center).</p><p>I take it his mother can’t have liked this “<em>living off prophetic poetry, parables, and apocalyptic visions</em>” business — especially given the punishments Roman-dictatorship censors meted out.</p><p>It must have felt like what a Brazilian mother would feel, under a dictatorship, when her middle-class son wanted to quit a perfectly stable civil-service job to make political-poetic independent music.</p><p>Maybe Jesus himself felt fear at some point.</p><p>Dread.</p><p>The urge to go back to being just a carpenter before it was too late.</p><p>I’m tempted to believe in this more cautious, melancholy Jesus — one who never surrendered to a feverish fanaticism strong enough to blind him to the risks.</p><p>It seems a lucid Jesus spoke in metaphors many times as a way to “<em>slip like soap</em>,” as Brazilians say, considering we know well how to do the same. He was a sly one, able to slide past his censors.</p><p>The double meanings in Chico Buarque’s Brazilian song “<em>Cálice</em>,” used to dodge the dictatorship, aren’t so different from the double meanings in Jesus’s parables to slip past the Romans.</p><p>There’s a famous story of Jesus healing a blind man — and asking him to keep it under wraps. Not to go around spreading it.</p><p>As a metaphor, it makes perfect sense that a lucid, poet-Jesus, aware of Roman danger, would want to stay below the radar.</p><p>This Jesus lobbed indirect critiques at powers that could exterminate him if he spoke too openly. He spoke against the Pharisees (whom he saw as rigid defenders of the Jewish text), while in a certain way being part of their camp himself.</p><p>While others were rigid about words and customs, Jesus was radical in suggesting an inner, introspective rigor.</p><p>He argued for internalizing the word rather than merely performing it.</p><p>Jesus argued for authentic, profound respect — not superficial conformity to the social laws of what “<em>looks good</em>.”</p><p>Jesus believed the world was about to end —</p><p>not as a metaphor, but literally. Maybe next week. Or the week after.</p><p>And in the face of this constant imminence of an ending, in the face of the Judgment it would bring, everything that wasn’t gentleness and a dignified internalization of truth, beauty, and poetry… Everything else became futile.</p><p>Jesus spoke as if the world were going to end.</p><p>He loved as if the world were going to end —</p><p>because he believed it really was.</p><p>Other prophets did the same. Many matched Jesus in urgency.</p><p>What seems to have been his peculiar stamp was the idea that urgency demanded gentleness.</p><p>That the urgent way to deal with the end of the world was to turn the other cheek, to love one another, to outgrow the corrupt little theater of gossip and petty spats in the temples.</p><p>Jesus’s temple wasn’t a physical place.</p><p>The Kingdom of God he proposed wasn’t a place like Jerusalem.</p><p>It was something both internal (at our core and the ground of our life in this world ) and also linked to, even synonymous with, something transcendental, beyond the borders of our reality.</p><p>Jesus proposed that link — that near-synonymy — between our innermost depths and the most transcendental “<em>out there</em>.”</p><p>For him, there was no inside and outside.</p><p>We were all — even the most ordinary — equally transcendental.</p><p>We all carried the seed of divine beauty and poetry.</p><p>We were all children of God.</p><p>Jesus’s public life lasted roughly three years, from thirty to thirty-three.</p><p>Everything we have that’s most secure about his life, historically speaking, comes from those thirty-odd months.</p><p>Everything before is invisible — when Jesus was just another ordinary man.</p><p>Everything after is saturated with the power of dogma and myth.</p><p>In those thirty-some months, Jesus walked with the poor, beggars, prostitutes, merchants, tax collectors, fishermen.</p><p>He drew crowds in the middle of the street to sing his poetry in parables.</p><p>I imagine hearing him was unforgettable for anyone who had the chance.</p><p>At some point in this career, his mentor was captured and killed.</p><p>And it seems, according to scholars, a quick discussion among the followers decided to pass the mantle and leadership to Jesus.</p><p>This was the point of no return.</p><p>And I like to imagine that Jesus took up his leader’s mantle fully clear-eyed about what he was doing.</p><p>Maybe he wasn’t. Some more cynical scholars might say he was so steeped in feverish apocalyptic radicalism that he no longer feared death. I don’t think that makes much sense — not only because I aesthetically prefer another view, but also because of what we know about Jesus himself.</p><p>I prefer the hesitant, melancholy, vulnerable Jesus.</p><p>Compared to other prophets, for instance, he was less inclined to visions, epiphanies, intense visual hallucinations (things common among the nabis).</p><p>What he said, even when transcendental, never lost its “<em>down-to-earth</em>” element.</p><p>So I prefer — and find more plausible — the Jesus who looked at the mantle being offered, knew it was dangerous, and accepted it anyway.</p><p>Who accepted it not because he didn’t fear death, but because he loved too much the poetry of what he was doing — the hope and dignity his journey brought to his people — and was willing to risk and sacrifice himself for it.</p><p>Jesus alone in the desert, introspective as he pondered his future, pondered the Baptist’s severed head — and his own, next in line.</p><p>Jesus alone in the desert, rising to return to his apostles with his next batch of beautiful words —</p><p>beautiful words he hoped could soothe the hearts of a suffering people.</p><p>Even if he had to die for it.</p><p>The Jesus who surrenders to the uncertainty and beauty of his mission does so fully aware that his rival leaders among the Pharisees — and even more so the Romans — were not people much given to poetry.</p><p>On returning from the desert and taking his leader’s mantle, something else in Jesus is lost.</p><p>He seems more resigned and intense.</p><p>If there is an all-or-nothing Jesus — the Jesus who brings the sword, the Jesus who overturns the merchants’ tables in the temple — it’s this one:</p><p>the Jesus who, after his leader’s death and after accepting the risk of ending the same way, speaks with a poetic voice that has nothing left to lose, aflame with the promise of dignity for himself and for everyone.</p><p>Absolutely everyone. No exceptions.</p><p>Poetry, beauty, and dignity for all!</p><p>Because the world is going to end, we have nothing left to lose — and in the end only poetry, beauty, and dignity matter.</p><p>Yes, Jesus went around talking about these things. To everyone. Loudly. With plenty of people listening and applauding.</p><p>In other words, the most dangerous voice in the world —</p><p>except that it was still “only” a voice speaking in beautiful metaphors,</p><p>speaking of love and kindness interleaved with the promise of a post-apocalypse.</p><p>Those damned Romans <strong><em>will </em></strong>fall — <em>oh, they will</em> — but we’ll keep smiling until that day comes.</p><p>Grace belongs to us even now, for the dignity we are due today — and for how much we can smile, tomorrow, at the fall of the unjust.</p><p>That was his thrust.</p><p>That is the inescapable force of his work.</p><h4>Why have you forsaken me?</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*dYgL-mcEICsbxEj3Omgq9A.jpeg" /><figcaption>Painting “Christ in the Desert” (1872) by the Russian painter Ivan Kramskoi. It’s my favorite depiction of Jesus among all I’ve seen. <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Christ_in_the_Desert#/media/File:Christ_in_the_Wilderness_-_Ivan_Kramskoy_-_Google_Cultural_Institute.jpg">Image from here</a>.</figcaption></figure><p>We don’t know whether Jesus was self-martyring or not.</p><p>We don’t know if he was truly willing to sacrifice himself for others, or if it sort of just happened because the circumstances closed in on him.</p><p>I like to think resignation was an ambivalent meeting of both things:</p><p>between feeling he’d backed himself into a dead end by keeping on speaking so beautifully after the Baptist’s head rolled…</p><p>and feeling he now had to see it through to try to prevent worse outcomes for his passionate followers.</p><p>Perhaps the Jesus who promised his loved ones that, if he were killed, he would go to heaven… Perhaps he really believed that. Literally.</p><p>But perhaps he only invented that version, presenting it as poetically as possible, to try to console and calm his deeply worried mother.</p><p>More or less like we do when we say something like “<em>he’s in a better place</em>,” or “<em>hang on, soon everything will get better</em>,” to comfort those we love in contexts where we absolutely don’t know if there is a better place, or whether things will improve.</p><p>Cynics — and strict academics — will say Jesus deliberately insisted on going up to Jerusalem during a crowded festival, aware that his presence would be a political event displeasing to Pharisees, Romans, and the “<em>common order</em>.”</p><p>They’ll say he went there feverish with apocalyptic conviction, already willing to offer his flesh as a sacrificial lamb to the movement — hoping to be caught and made a martyr, if he was politically shrewd; or simply believing that being caught would bring heaven down to earth, if he was radically, deliriously prophetic.</p><p>The Jesus in my version is not that.</p><p>And Jesus’s deep doubt on the cross is a clue that points me toward the version I like and most believe.</p><p>I believe Jesus chose to remain radically loyal to his dignity, to the promise of dignity for his followers, to love, kindness, and poetry.</p><p>I believe any apocalyptic fever that may have led this thirty-three-year-old man to walk to his cross after being tortured coexisted with the lucid, human insecurity of doubt.</p><p>The vulnerable Jesus being tortured is not a Jesus full of conviction.</p><p>That is what makes him sad. His hell, not only physical, is a hell of uncertainty.</p><p>The crucified Jesus does not laugh at the Romans saying, “<em>ha-ha, you’re toast, my Father will be here any minute and you’ll answer to Him!</em>”</p><p>He is not stoic or serene on the cross, shrugging and saying, “<em>well then, that’s that, apocalypse coming soon… see you on the other side, heh, let’s see what’s next, all right?</em>”</p><p>None of that.</p><p>The crucified Jesus cries out, in anguish, a doubt:</p><p>“<em>My God, why have you forsaken me?</em>”</p><p>I believe that was the most vulnerable moment of Jesus’s life, when he wasn’t speaking to someone but for himself.</p><p>His most human moment.</p><p>When the speaker wasn’t a public figure, nor a prophet, nor a Messiah, but the carpenter’s son —</p><p>the one who, only a few years earlier, had walked the shore chatting with fishermen,</p><p>and who now suffered torture for daring to dream too high.</p><p>Any comfort in promises of resurrection he may have left to his followers and family stayed down below, before he was raised on the cross.</p><p>Alone up there, bleeding and agonizing, he did not ask this to comfort anyone, nor thinking about how his poetry in saying it would affect the emotional health of those who loved him.</p><p>Jesus’s moment of doubt is his one passage of confessional poetry —</p><p>of absolute vulnerability,</p><p>of surrender to doubt,</p><p>haunted by the consequences and feeling all their pain in his flesh.</p><p>Jesus must have felt indignant.</p><p>How could he be punished with so undignified a fate merely for seeking dignity and poetry?</p><p>Jesus’s cry of doubt and uncertain lament sealed his historical work.</p><p>The question “<em>why have you forsaken me?</em>” is the last thing a secular reading of the historical man can consider — without a resurrection ahead.</p><p>The Jesus I see is one who cemented his legacy by that uncertainty he screamed in agony in his final moments.</p><p>His doubt infected everyone who knew him. It installed the intensity of his trauma in the flesh of all who had seen him alive.</p><p>It made it unbearable, unsustainable, unthinkable to accept the stark fact — the death and the abandonment — without poetry.</p><p>It forced the people who had listened to him for comfort to begin echoing him in order to comfort themselves.</p><p>The Romans lifted Jesus on a cross to send a message, in the most pragmatic, cruel way possible, that the whole business of dreaming of dignity and poetry was nonsense —</p><p>that it was better to keep your head down, stay quiet, obey, and conform without complaint.</p><p>The submissive don’t end up skewered on a stake.</p><p>From Jesus, both the immortal dignifying poetry and the pain infected his followers.</p><p>They became inescapable.</p><p>They became the Christians’ immortal dignifying poetry. And also, Christians’ unbearable suffering that only poetry could heal. A closed, vicious cycle with no place left for the Roman threat.</p><p>To be a Christian was to choose that it was better to die tortured on a stake than to let go of the meaning, poetry, beauty, and dignity Jesus had shown.</p><p>Many other Christians died crucified — and in other terrible ways — according to that choice.</p><p>To be a Christian was to live so haunted by Jesus’s “<em>why have you forsaken me?</em>” that leaving it unanswered — without a “<em>I have not forsaken you!</em>” — would be terrifying.</p><p>More terrifying than anything any Roman could dream up to do.</p><p>To be a Christian was, faced with that haunting, to live motivated to create poetry and community —</p><p>to install the collective poetic delirium of the resurrection that preserves meaning.</p><p>Jesus’s dignity was so strong, so fundamental, so necessary to his listeners that he could not die — not as a symbol, not as a metaphor.</p><p>They sacrificed any reason to keep him alive in the resurrection because that hope was the only alternative to despair.</p><p>Jesus was not special for having been a prophet, for having been considered by his own a messiah, nor for having been crucified. Several similar prophets were called messiahs and ended up crucified before, during, and after him. The same circumstances that produced him were producing many.</p><p>What truly sets Jesus apart from any other was the indignant reaction of his audience —</p><p>an audience so in love with poetry that it simply refused to yield.</p><p>How much of that was the result of something extraordinary in Jesus himself, or of something extraordinary in those followers, we will never know.</p><p>I like to see the extraordinary in the bond, more than in either part.</p><p>What was extraordinary was the specific bond between that Jesus and those followers.</p><p>The same followers, with a less inspiring prophet, might have been just another audience for the ancient prophets of the region.</p><p>The same Jesus, with less inspired followers, might have been just another of the region’s ancient prophets before a mere audience.</p><p>When Jesus died on the cross, his followers refused to let his dignifying poetry die with him.</p><p>They dragged him back from the dead — against everything and everyone — disregarding common sense, reason, fear, risks, threats.</p><p>And they were killed in droves protecting the same hope Jesus first promised —</p><p>ensuring that, as far as it depended on them, Jesus would never be forsaken.</p><p>Only the most beautiful poetry in the world, made by someone like Jesus, could generate a trauma so unbearable when its artist was tortured and killed.</p><p>Only a trauma as unbearable as Jesus’s death could generate so visceral a demand for such beautiful poetry.</p><p>An entire part of the world was so haunted by Jesus’s doubt that it committed itself wholly to a millennia-long project to answer him and comfort him. Christians were the first whom we might criticize for “<em>romanticizing suffering</em>” or “<em>aestheticizing trauma</em>,” but they did it in the absence of psychologists — choosing between that and going mad.</p><p>For the maintenance of their own spirit, for their own sanity, they had to say: <em>no, Jesus. You </em><strong><em>were not </em></strong><em>abandoned. </em><strong><em>We </em></strong><em>are here. Look at everything we have built for you and your beautiful poetry…</em></p><p>This was the dynamic that set the Christian foundations.</p><p>To this day, there is no trauma in a Christian’s life for which prayers and pretty words of comfort are not offered — which are, essentially, beautiful poetry.</p><p>Someone said to Mary, “<em>he’s in a better place</em>,” giving her a hug or little pats on her shoulder, while she screamed in tears watching her dead son lowered from the cross.</p><p>She chose to believe it because the alternative was far too unbearable —</p><p>far too painful.</p><p>And in the poetry of that faith she found a dignity no Roman could destroy —</p><p>a despair so dignified for poetry that no cross could silence it.</p><h4>Fishermen’s tales</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*oSN2ssynzkMpMKtk" /><figcaption>Photo by <a href="https://unsplash.com/@siva_thiruchandran?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">SIVA T</a> on <a href="https://unsplash.com?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">Unsplash</a></figcaption></figure><p>Mary’s boy from down the way?</p><p>Yeah, man. The Romans got him. It was ugly, you hear?</p><p>But did you know I’d seen the kid before that?</p><p>Yeah — Mary’s son. Name’s Jesus.</p><p>Since he was little he’d show up here now and then. He really was different. Did some crazy stuff. We climbed into the boat to head out and fish, and the guy came walking on the water. On the water! Crazy thing.</p><p>Andrew’s brother — Simon — ran around with him everywhere.</p><p>Andrew himself, who used to be more in the Baptist’s crowd, joined up with them. He said there was this one time when everyone was supposed to drink only water and Jesus somehow made wine show up.</p><p>Heh, there are all kinds of rumors going around about the guy.</p><p>Gossip, right?</p><p>But there’s so much talk that there’s gotta be some truth in there somewhere.</p><p>That walking-on-water one! I was there, I saw it!</p><p>His mother’s still around. Mama Mary. A woman who suffered, poor thing. She and the followers are the ones keeping the group alive. And they’re swearing up and down that Jesus didn’t die at all. Actually — stranger yet — they’re saying he died and came back. And then left again.</p><p>Who knows, right?</p><p>If the guy already walks on water, already turns water into wine, maybe he also found a way not to die?</p><p>Oh, and there’s the gossip about Judas.</p><p>Yeah, Judas…</p><p>Seems like he really did betray him. A bastard, you know. Damn, it’s rough knowing there are people like that… He doesn’t run with anyone now, obviously. They put a kid named Matthias in his place. Good kid, that Matthias.</p><p>The other day I took these big old fish I’d hauled in off the point down to the market. A fella named Lazarus bought one. Oh, so you known him already? Yeah, him. He was with his sisters.</p><p>Those three were real close with Jesus, and he spoke all moon-eyed. One sister said she washed his feet with oil, dried them with her hair — which sounded a bit weird to me. Did that with her brother right there watching? I don’t know, man. Every family’s got its things.</p><p>Lazarus himself seems a bit touched, too. Not only did he say Jesus really came back, he said that he himself once died and Jesus brought him back too. I heard later from my wife that he’s been telling that same crazy story for years.</p><p>Crazy stuff, crazy stuff.</p><p>But who knows, right? Who knows?</p><p>I hope that Jesus guy really did come back. That’s the kind of thing we deserve. The Romans wouldn’t like it… and well, to hell with them anyway.</p><p>But that the whole thing is strange — that it is.</p><p>I saw the guy walk on water right here, I swear to you, so it’s even easier to take the rest into account… but who knows.</p><p>Crazy times we’re living in.</p><p>People walking on water, dying and coming back, Romans doing all their Roman shenanigans.</p><p>End-of-the-world stuff, really.</p><p>If you run into Mary, tell her I sent my condolences for her boy — and a hug. Tell her I’ll give her a better price on whatever fish she wants.</p><p>And ask when the group meeting is, please.</p><p>If the fish aren’t biting that day, I’ll show up there. My wife’s been wanting to go for months. Everyone’s been saying good things about those meetings. I want to go see what it’s about.</p><p>You taking this one?</p><p>Ah, perfect.</p><p>Fresh and big — came in from the sea just now.</p><p>Same price as always, please. Ah, no discount — you’ll break me…</p><p>All right then. Just a little cheaper, but only because it’s you.</p><p>Thanks, Alfeu. Say hi to the family.</p><p>Have a good weekend!</p><p>Go with God!</p><h3>3. After Jesus</h3><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/476/1*qAcy38idi2PA2qWoJHGy3w.png" /><figcaption>I find it deeply symbolic that this Roman graffito is the oldest known representation of Jesus. In it, the graffitist (probably a resentful pagan) mocks a Christian by depicting him worshiping a crucified Jesus with a donkey’s head. The text, in derision, says “Alexamenos worships his god.” At a time when Christians depicted Jesus working miracles or carrying calves, the first image of the crucifixion comes from a Roman. From a Roman slave, in fact, trying to offend his colleague — who was probably a slave as well. The graffito was scratched on the wall of a Roman school for imperial slaves around the year 200 CE. <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Alexamenos_graffito#/media/File:AlexGraffito.svg">Image from here</a>.</figcaption></figure><p>Let’s play alternate history.</p><p>Imagine that a decaying South Africa, at the most conflict-ridden moment of the struggle to end Apartheid, had the indecency to kill Mandela —</p><p>a public execution.</p><p>After that, the regime somehow held things together and didn’t fall.</p><p>But the popular indignation was so great, especially when gathered under the symbol of the martyred Mandela, that the situation became untenable.</p><p>Desperate for a solution to all this political instability, this South Africa later “<em>promotes</em>” Mandela to a public symbol.</p><p>From then on he’s in portraits in government buildings, in the lyrics of the national anthem, in statues everywhere.</p><p>He becomes the national symbol of a “<em>retooled</em>” South Africa making a symbolic mea culpa.</p><p>To appropriate Mandela as a symbol distorts him.</p><p>But also enlarges him.</p><p>The people, suspicious as they are, still feel some victory in that.</p><p>Mandela was killed — and now there he is, look, in that beautiful, towering statue in the city center.</p><p>Political instability improves a little for a time, the government consolidates itself, and that symbolic contradiction of the distorted, appropriated hero remains alive in the nation’s heart.</p><p>You can distort, appropriate, and reframe Mandela as much as you like; you can abstract him and hollow him out; but in him there will still resist, through all that time and against every effort, the same bond of the people to that promise of dignity —</p><p>a dignity your government, using his symbol as a promise of the future, continues to deny in the present.</p><p>This decaying South Africa does not overcome Apartheid.</p><p>And the crystallized Mandela at its center keeps crying out: <em>the end of this rotten order will come, will come</em>.</p><p>A bit dystopian, right? Sounds absurd?</p><p>You must have realized I didn’t start talking about South Africa to pivot this text into an alternative history of the twentieth century.</p><p>It’s an analogy about Jesus.</p><p>About the Romans.</p><p>Because what the Romans did with Jesus was exactly this.</p><p>What they did with Jesus’s legacy , once it escaped the lower classes, the slaves, the Jews, once Jesus reached the palaces of the aristocracy…</p><p>… was to appropriate him, distort him, expand and amplify him as the last gambit of a decaying empire trying to resolve political instability.</p><p>A rebranding move designed to try to avoid civil wars and slave revolts.</p><p>Did it work?</p><p>Who won in the end, Jesus or the Romans?</p><p>Both, a bit.</p><p>And, a bit, neither.</p><p>It’s on that tension that the whole history of our world has teetered since Christianity emerged.</p><p>The empire of the day always proudly stamps its hollowed-out, harmless Jesus onto the atrocities of realpolitik.</p><p>The empire of the day always falls.</p><p>Some Jesus always keeps going, only to be reappropriated by the next.</p><h4>A philosophical Jesus</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/726/1*zrWEYiOQkqHEaI7IQzYQMA.jpeg" /><figcaption>One of the earliest themes of primitive Christian art was Jesus in little Greek clothes (which he never would have worn in life), depicted as the “good shepherd.” It’s a fairly direct adaptation of a pagan motif (see the statue of the <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Moschophoros">Moschophoros</a>). The Greek Jesus (beardless, as in most of his early representations) carries the lamb just as the Greek pagan would carry it, but the implication is not that he bears it for animal sacrifice. In Christianity, the sacrifice is of the man himself, and his alone. The fresco is one of the oldest images of Jesus, from between 250 and 300, in the Catacombs of Priscilla. <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Early_Christian_art_and_architecture#/media/File:Good_shepherd_01_small.jpg">Image from here</a>.</figcaption></figure><p>Jesus’s legacy is always ambivalent.</p><p>Every victory carries a defeat as well.</p><p>The first victory for Jesus’s legacy — thanks to Paul — was that it expanded to become a common treasure for Gentiles too.</p><p>Jesus as a brand went on to expand his markets as an international, translated poet. He was heard by those who were not Jews.</p><p>The first defeat for Jesus’s legacy was that, in the process, it became detached from the Judaism he had promised, somehow, to reform.</p><p>That means the Jesus who moved forward was always reappropriated.</p><p>Always a stateless foreigner.</p><p>Made important in contexts alien to his own —</p><p>by people who had no way to understand, intimately, what Jesus’s experience with the Torah was like, or his frustration with the Pharisees.</p><p>The historical Jesus is, for the world, an immigrant —</p><p>always translated.</p><p>Not a single word of what he said in Aramaic survives in the original language.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*Kwj4cCGnC8uzZccWloWjgw.jpeg" /><figcaption>The oldest known representation of Jesus beyond the offensive Roman graffito. Made around 235 CE, it lay hidden in the ruins of Dura-Europos, a preserved city/ruin with much in common with Pompeii. Here Jesus (again, still beardless) stands beside a former paralytic in the episode where he is said to have cured him. I stress: in primitive Christianity, they did not depict him crucified. <a href="https://aleteia.org/2019/10/12/the-first-painting-of-any-of-jesus-miracles-dates-from-the-3rd-century/">Image from here</a>. For the curious who like to dive into weird tangents, it’s worth taking a look at the Wikipedia page on the little church at Dura-Europos — the oldest Christian church in the world — <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Dura-Europos_church">here</a>.</figcaption></figure><p>On the other hand, I feel Jesus would be left with the (poetically exaggerated) impression that Judaism’s abandoning of his words prevented those he criticized as Pharisees from leaving their comfort zone.</p><p>Through his own biased perspective, Jesus would have seen in the Judaism he was born the same bureaucracies still.</p><p>The same rigidity of conformity, the same (contextually justified) survivor’s syndrome that clings to a solid identity without allowing much room for fluidity — because any reform risks erasure.</p><p>That isn’t true of all Jews. In their rhetorical tradition — in the comments added in dynamic debates over every text, in developments and adaptations of thought according to each nation they lived in, in Judaism’s entry into the secular sphere — there is ample counterexample.</p><p>But that seems to have been Jesus’s bias in his critiques of his own culture while he was alive. He didn’t live to see all the examples I’m mentioning of fluid Jews; perhaps he was unlucky with the ones he knew in his time.</p><p>Or perhaps he was just a bit rebellious. As a poet’s soul, maybe he was a rebellious adolescent —</p><p>intransigent.</p><p>Judaism, Jesus would say — if he knew he’d been set aside — remained rigid and solid for millennia, <em>despite him</em>.</p><p>In some of its major groups, it reached the twenty-first century with a lot from the ancient foundations and ideas it had carried since the Bronze Age.</p><p>In no other group in today’s world does there persist so tightly interwoven this idea — one that seems so odd to us — that an identity must be national, ethnic, religious, secular, and political all at once, ambivalent and blended, refusing separation.</p><blockquote>(Or better: part of this group. Being Israeli or Zionist is not the same as being Jewish. Even so, it’s a representative identity, if for nothing else, then because there’s an entire project by a nation-state around it. What that project seeks is precisely to structure a synonymy between this national project and the identity “Jewish.” I hope they don’t win the struggle over meanings. If history has taught anything, it’s that Jewish identity goes beyond any border or empire…)</blockquote><p>Because it is these conservatives who most “preserve” those roots, the expansionist state project of Israel comes from those who see it as natural to act today in the same way expanding kingdoms (and the extermination of their neighbors) acted in the Bronze Age.</p><p>Every dissenting Jewish voice that proposed changing any detail of the doctrine was erased, or diminished, or dissolved by assimilation into the majority in whatever empire they lived.</p><p>Judaism survived — despite so often being the culture of a fragile minority — more often in its more rigid variant of nature.</p><p>Christianity, despite what some may think, was born with the proposal of being the opposite — fluid to a fault. Light as water. Ready to be appropriated, distorted, twisted, and reinterpreted by anyone, according to any whim, to justify any desire.</p><blockquote>(Yes, it’s a metaphor. Jews have been fluid in some contexts; Christians have been rigid in others. I thought this addendum was important so my lyricism wouldn’t betray me into a stereotyping generalization. Christianity’s “liquid” state led to various theological dead ends under the bureaucratic, dogmatic rigidity of the centuries of Catholic monopoly.)</blockquote><p>Jesus, always the foreigner, had to reshape himself in order to travel.</p><p>He had to become more handsome in some places.</p><p>Whiter, in others.</p><p>Blacker, in some.</p><p>To please the Gentiles, the first place he prospered was in the Hellenistic world, the cultural fringes of old Greek influence.</p><p>The fishermen’s informal stories about Jesus — their popular yarns — were turned into written word by Greek authors fond of the classical philosophers.</p><p>Out of aesthetic preference, they also made Jesus more of a philosopher.</p><p>Suddenly the simple man who spoke in parables began to articulate abstract metaphysical dilemmas.</p><p>I was recently given a book of Gustave Doré’s illustrations for the Bible. It’s gorgeous and it symbolizes very well this rift between Jewish stone and Christian water.</p><p>The Old Testament illustrations are, as a rule, visceral. “<em>Then God killed fifteen thousand children for being from the wrong tribe</em>,” “<em>then David led an army that expanded the borders of his sacred kingdom</em>,” and, in general, the warlike tone of any Bronze Age mythology.</p><p>Then the New Testament illustrations arrive and they are… light.</p><p>A story focused on a few acts and a few people. No kings, no military leaders, no great battles — just a poor Jew talking in the market square with other poor people.</p><p>Being French, Doré still adapts and distorts, as a good representative of Christian malleability. His drawings follow European aesthetics. And his gentle Jesus is a philosopher — Socrates, more specifically. Only beautiful.</p><p>The historical Jesus, like the historical Socrates, probably was not handsome.</p><p>Back then, everything was mixed together — religion, politics, poetry, literature, erudition.</p><p>Jesus’s legacy caught the trailing edge of that diversity, but already at a time when things were splitting into different institutions.</p><p>So there were different versions of him that survived longer or shorter depending on the institution that projected them.</p><p>The Hellenists’ philosopher Jesus didn’t live long on his own.</p><p>Philosophy, erudition, and Hellenism were later swallowed by the institution of the Church. In primitive Christianity there were a few early attempts to propose a more secular, philosopher Jesus.</p><p>They didn’t go very far; the secular force would still take time to catch on.</p><p>The philosopher Jesus needed to exist to cater to the “<em>good taste</em>” of a certain more privileged class that would be the bridge connecting fishermen to emperors.</p><p>He served as the transitional Jesus of the educated classes.</p><p>But if he lost the religious element and surrendered to being only poetry — or only philosophy — he would lose the fishermen in the process.</p><p>And with that he would become fragile and wither.</p><p>Zeus, and everything Homer did, carried the aura of something coming top-down: the upper classes imposing, with a cudgel, the poetry they preferred — the reinterpretation they favored.</p><p>Jesus came bottom-up.</p><p>People always felt — rightly — that they owned Jesus enough to talk back when someone above started to feel too comfortable trying to monopolize the story.</p><p>The primitive Jesus, the one who came out of the circles of Jews around the apostles and Mary, even learned to speak Greek and to resemble Socrates.</p><p>He did philosophy.</p><p>In the Bible itself he becomes that kind of elegant articulator, especially in Luke (later than the earlier “down-to-earth” reports of Jesus).</p><p>But he does not break with the poetic faith —</p><p>with the fish tale about walking on water,</p><p>with the idea that he came back alive after three days.</p><p>The Hellenists took advantage of the lyrical, metaphorical richness to reflect inwardly and philosophize — the same process they used with pagan stories, now shifting over to a new selection of folk tales.</p><p>They could do that as much as they liked, but they did not do with Jesus’s yarns what they had done with the Greek ones: they were not able to reduce them to mere aesthetics and literature. At least not there. Not yet.</p><p>The fishermen wouldn’t allow it.</p><h4>An imperial Jesus</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*xfnVapuQgVHKmNTkOwUy5Q.jpeg" /><figcaption>This Jesus in Ravenna is the most beautiful (and perhaps most famous) version of the Roman Jesus, wearing a soldier’s outfit (still beardless). For the first time, it is the military Jesus who appears on an empire’s standards. Since then, there has never ceased to be expansionist empires similar to Rome. So, to this day, the military Jesus marches through wars around the world. At this very moment there are imperialist, expansionist, so-called Christian superpowers engaged in armed conflicts of every kind. <a href="https://www.facebook.com/photo/?fbid=1374372901363452&amp;set=pcb.1374373111363431">Image from here</a>. More about the beautiful Ravenna Chapel, from 495 CE, <a href="https://www.thebyzantinelegacy.com/archiepiscopal-ravenna">here</a>.</figcaption></figure><p>It’s common to tell the history of Christianity with a turning point and triumph at the moment — more than three centuries after Jesus’s death — when emperors like Constantine and Theodosius stopped persecuting Christians and “<em>promoted</em>” them to a central place in the empire.</p><p>Again: in Jesus’s legacy, every victory is also a defeat.</p><p>The most ridiculous appropriation of Jesus in history was probably the one run by Emperor Constantine.</p><p>By then, the religion of the common folk had already climbed every wall of the palace.</p><p>A generalized Christian revolt (in numbers) was imminent in a weakened empire.</p><p>History won’t let this be said outright, but I can be biased as a poet: from the bottom of my heart, I have no doubt that Constantine’s opening to Christians was cynical — a sneaky, cowardly maneuver to gain some political support and stay on the fence a few more months.</p><blockquote>(Scholars say it’s ambivalent. Anyway. I’ll be willful and lean into the caricature because it serves — and spices up — the argument.)</blockquote><p>As Christianity gained clout, politicians began to make concessions.</p><p>First, they stopped killing them — for a while.</p><p>Second, they allowed their temples.</p><p>Then, they even sponsored some temples.</p><p>Split funds between pagan temples and Christian ones.</p><p>Erect a few monuments — at first far away,</p><p>then closer,</p><p>then closer still.</p><p>They had to do all that to try to contain the popular force of a poet dead for centuries.</p><p>A poet!</p><p>In the secular world, the clash endures: an empire versus the memory of a peripheral peasant and poet.</p><p>Scoreboard: a kind of tie.</p><p>Then you look at the terms of the game and…</p><p>Wait. A poet tied with an empire?</p><p>Even if it’s a draw, given the scale of the thing, that’s already pretty impressive for the poet.</p><p>And when the empire’s team dissolves, the peasant poet is still in the tournament — against other empires, true, but still.</p><p>And he keeps. Always. On. Drawing.</p><p>And so, as the season opener for all these matches:</p><p>the Arch of Constantine.</p><p>It’s the emblematic work of early Roman Christianity.</p><p>It’s also cynical, ridiculous, and stupid.</p><p>(Beautifully made, despite that.)</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*8VnOGUJelh8BrCm3" /><figcaption>This is the Arch of Constantine, a monument that supposedly symbolizes the Romans’ adoption of Christianity. Among all the text crammed into this column exalting a leader-emperor, a single ambiguous phrase is what matters. According to it, the said emperor, besides being amazing on his own, won with a little help by being “<strong>inspired by the divinity</strong>.” No name given — just “<strong>divinity</strong>” — so as not to upset the pagans too much. Photo by <a href="https://unsplash.com/@fabiofistarol?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">Fabio Fistarol</a> on <a href="https://unsplash.com?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">Unsplash</a></figcaption></figure><p>Starting with the myth attached to it.</p><p>The fable tells of a Constantine who dreamed of Jesus on the battlefield. He raised a variation of the Christian cross as a standard.</p><p>He won the battle. Miracle!</p><p>(Except he lost successive battles after that. And he had to make do by hiring half his battalions as paid mercenaries.)</p><p>It’s a crude appropriation —</p><p>the lowest way to plug Jesus into the mythological and credal structures of Roman expansionist militarism. There are copy-and-paste versions of this story — with battles and standards — for every god of every pantheon.</p><p>The entire Iliad is a more refined variation on that kind of narrative structure.</p><p>For Constantine’s story, it’s as if they did a <em>Ctrl+F </em>in a text where “<em>Saturn appeared in a dream</em>” and simply replaced every mention with “<em>Jesus appeared</em>.”</p><p>I can’t imagine anyone in this world whom a dream-visiting Jesus would be less willing to help.</p><p>Would Jesus grant victory to an emperor of the decaying Roman Empire — the one that killed the Baptist? That crucified him?</p><p>The Romans’ Jesus — the one that moved up to aristocrats and palaces — had to mute and hide a great deal of his “<em>render unto Caesar</em>” side, his “<em>it is easier for a camel to pass through the eye of a needle than for a rich man to enter the Kingdom of God</em>” side.</p><p>To this day, every empire that appropriates Jesus struggles with that side of him…</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*ircQ7PL931I46EgzHfAGYQ.jpeg" /><figcaption>Painting of the episode of Jesus and the rich young man. Heinrich Hofmann, 1889. <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Jesus#/media/Ficheiro:Hoffman-ChristAndTheRichYoungRuler.jpg">From here</a>.</figcaption></figure><p>But the distorted appropriation, however incongruent and hypocritical it was, worked.</p><p>The story stuck — so much so that here I am citing it.</p><p>Some see in this Roman-Jesus tale the ultimate victory of Christianity.</p><p>I see the Romans’ final sneer at the already cold corpse of the Jesus they crucified.</p><p>There were, I’m sure, many Romans who genuinely bonded with Jesus — who were moved by his story.</p><p>But the view from the empire’s heart necessarily carried its biases.</p><p>And beyond individuals — however well-intentioned — the empire’s rotten, decaying cynicism was structural, widespread, cultural.</p><p>Systemic.</p><p>It makes sense to me that, in Roman Christianity, that whole business of guilt blossomed —</p><p>a massive guilt, everyone’s, tied to the hypocrisy of an expansionist project.</p><p>The Christian empire went on doing everything the same way to conquered peoples — as before.</p><p>As it had done with Jesus.</p><p>The only difference was now the religion scolded it.</p><p>The empire didn’t stop torturing people, killing the poor, or waging wars of territorial expansion because it became Christian.</p><p>There were Christian empires with slaves.</p><p>Many slaves — often worse off than Jesus.</p><p>Nor did the Roman Empire cease to be decadent because it turned Christian.</p><p>Constantine’s monument is a military arch —</p><p>built to exalt an emperor’s battlefield conquests.</p><p>The bit that mentions Jesus and the dream is vague — deliberately crafted to stay on the fence. Pagans still had their clout back then — their temples and money — so you couldn’t be too disruptive.</p><p>True to the tradition of pleasing neither Greeks nor Trojans, that fence-sitting arch pleased neither Christians nor pagans overly much.</p><p>Today it sits rather obscurely off to the side in Rome — a B-list tourist attraction. Not a religious landmark, a curiosity for the curious like me.</p><p>(I want to visit it someday.)</p><p>The Roman military institution didn’t last long.</p><p>Even so, the Christian empire still refashioned Jesus in its own way.</p><p>The emphasis on “<em>Jesus with a sword</em>” is likely a Roman contribution.</p><p>The feeling of “<em>triumph of the formerly downtrodden</em>” took hold with them — even though the triumphs were the same as before, increasingly less triumphant on the way to bankruptcy, and the downtrodden were also the same as before, still humiliated under the empire’s boot for as long as the Romans could squeeze out taxes.</p><p>The national, warlike, militarist Jesus receded when the Western Roman Empire fell.</p><p>Unfortunately, I think it left behind the cross as a symbol of guilt.</p><p>I don’t much like the cross as a symbol, nor do I much like referring to Jesus as Jesus Christ. I feel that if someone died impaled, it would be in poor taste to make impalement a totem of guilt — and the image of the impaled fellow part of his remembrance. To walk around with a little silver pendant of a tiny impaled man…</p><p>There is no dignity and no justification in the suffering empires cause.</p><p>There was no justification for the Romans crucifying Jesus.</p><p>There would be no justification for all the Christians killed afterward.</p><p>Nor for all the “<em>pagans</em>” of conquered peoples whom the Christian Roman Empire — its expansionism — killed as well.</p><p>Down fell the military Jesus, dressed in a soldier’s clothes.</p><p>Good.</p><p>Without political Jesus, without intellectual Jesus.</p><p>At the heart of this empire’s ruin, the only Jesus still alive was the one that would survive the end of Antiquity — after the literary-classical death of the Greek, philosophical, erudite Jesus, and after the military-pragmatic death of the Roman, cynical, imperial Jesus.</p><p>Without Roman Jesus.</p><p>The barbarian invaders, the popular revolts, the slaves, the fishermen — didn’t allow it.</p><p>When new kingdoms arose, they didn’t bother much to resurrect those fallen versions of Jesus that circulated through the empire that had collapsed. Nor did they have the institutional grandeur of what had fallen, to try to repeat the national project.</p><p>A continent-wide institutional warmonger Jesus like that could only survive under an empire bestriding the entire Mediterranean.</p><p>Stripped of his philosophical and political dimensions, the Jesus that remained was the religious one. That one could circulate freely — go international.</p><p>That one became immortal.</p><p>That it was he is, again, as much a victory as a defeat.</p><h4>A doctrinal Jesus</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*yNBY9TfiypcTpjLoEaw85A.jpeg" /><figcaption>The quintessential Catholic Jesus, with his grandeur and limitations, is the one represented here. Da Vinci painted his version of the Last Supper in 1495. <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Última_Ceia_(Leonardo_da_Vinci)#/media/Ficheiro:Leonardo_da_Vinci_(1452-1519)_-_The_Last_Supper_(1495-1498).jpg">Image from here.</a></figcaption></figure><p>The Christian church that became the Catholic Church was not only the last of Antiquity’s great institutions to preserve Jesus;</p><p>it was also one of the last ancient institutions to survive.</p><p>It grew into the power vacuum left by the others.</p><p>It reshaped the European continent in its own image and to its own liking.</p><p>It embedded itself as fundamental to the political stability of every kingdom.</p><p>It franchised its presence, following a more or less standardized pattern, in every direction.</p><p>It was the most extensive, interconnected international network of its time — the true cultural and communicational structure orchestrating and organizing a world.</p><p>Within this gigantic church there were worries of every sort:</p><p>geopolitical concerns, concerns with minor local powers, with the preservation of collections, with the continuity of literary education, with the training of literate monks.</p><p>This church fostered scholasticism, then universities, then the Renaissance, and, from there, the Enlightenment.</p><p>It did all this later and half unwittingly — almost against its own will — because it wanted to preserve Christian things; and Christian things were occasionally dynamic; and when those preserved dynamic Christian things were kept alive long enough, they gave birth to new offspring.</p><p>The atheism I profess today is a grandchild of the Enlightenment, a great-great-grandchild of the Renaissance — thus linked to the preservation networks promoted by Catholics since the deep Middle Ages.</p><p>Of course, all that preservation did not come free of charge.</p><p>Catholics afforded themselves the luxury of preserving “<em>more</em>” of their favorite readings of Jesus. They kept some others, fondly or fearfully, on deep library shelves under the hesitant label “<em>blasphemies</em>.”</p><p>They distorted much else. Burned much more.</p><p>They tried to give absolute rigidity to something that was bound to move again sooner or later — and that did move in every direction when the Protestantisms prospered.</p><p>I like the Christians’ Jesus — and the Catholics’, bureaucratic though he may be.</p><p>With their pantheon of saints.</p><p>Their theological treatises.</p><p>With Saint Augustine and Thomas Aquinas.</p><p>With Christendom’s tentative enlightenments from the early thinkers of science.</p><p>With the paintings of Da Vinci.</p><p>With the Virgin Mary.</p><p>And the cathedrals.</p><p>And the blue-eyed Jesus, austere or gentle, stern or smiling, joyful or suffering.</p><p>This religious Jesus kept intertwining with variations of a political Jesus.</p><p>Each fief with its petty quarrels. Each distortion tugging the blanket toward some rich family.</p><p>The Medici. The bishops of feudal courts. The priests sent on the conquerors’ ships.</p><p>Accompanying the bandeirantes on their adventures, spreading deadly pandemics across new continents.</p><p>In all these catastrophes — hypocritical, or offering aid to the wretched struck by disaster or war — there was always an ambivalent cross.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*0OvPCbkg7k8-udHJLS6BLA.jpeg" /><figcaption>Another of my favorite paintings of Jesus: “Ecce Homo,” by Antonio Ciseri, around 1880. The Renaissance is where Europeans first articulated the curious gaze they acquired. It’s where they tested physics, light, perspective — painting the old Catholic motifs with realism. The movement of technical refinement in painting followed the religious context closely until about the Enlightenment. <a href="https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ecce_homo_by_Antonio_Ciseri_(1).jpg">From here</a>.</figcaption></figure><p>One day, a Christian had a beautiful poetic idea.</p><p>He articulated it without much fear, protected and preserved by his church’s mission of safeguarding the scholarly tradition of the universities.</p><p>He said Jesus and God would not have created a world so beautiful and complex for us to pass through it dishonestly.</p><p>He said that legitimate curiosity — the search for scientific truth, even when uncomfortable or contrary to our dogmas — was a way to honor and beautify God’s plan.</p><p>He said humanity’s mission was not to blind itself with ancient poetry, but to marvel poetically in the eternal search for newer, deeper truths.</p><p>That stance — so idealistic as to be ridiculous — was the basis for the Enlightenment, which would give birth to the coldest, most serious of Western sciences.</p><p>Inspired by a loving gaze.</p><p>From there, they began digging into the ruins of stories on all sides.</p><p>Science developed technology, which developed the printing press, which developed the communicational arena in which the Protestantisms would sprout.</p><p>Scholasticism developed science, which produced archaeologists and scholars of religion who now pull from the desert relics inconvenient to the canon — things like the Dead Sea Scrolls, an apocryphal gospel with a kindly Judas instead of a traitor, and all those fabulous gospels of little Jesus’s childhood adventures.</p><p>It’s almost as if they were continually hacking the development files of a big studio’s video game — finding beta versions of characters, older variations of the script, changes in story development, tiffs among the production team, scenes that were cut wholesale…</p><p>This Jesus of mine, for instance, is the self-taught Jesus of an atheist. Built with PDFs, academic essays on YouTube, and books I waited to buy on sale at a Book Fair or in Amazon’s end-of-year deals.</p><p>Progressive Protestantism tied to humor, under a reading of religious fields by Bourdieu combined with a study of the communicational phenomenon of mediatization — this absurd phrase, niche of the niche of the niche, was my Master’s thesis in Communication.</p><p>(It wasn’t all that — and I earned a tidy 9.5.)</p><p>Today’s Jesus is diverse, multiple, vast, personalized, individual, niche-ified. For every ambitious religious institution that shows up with a radical Jesus promising hegemonic strength, another fifteen variations appear — and twenty more “de-churched” Christians.</p><p>Or secular atheists in love with Jesus, like me.</p><p>How many different Jesuses have you heard of?</p><p>Do you know the Catholics’ Jesus? The Lutherans’? The Jews’? The following of Jews who think Jesus is the Messiah but not the Son of God? The Muslims’ Jesus? The Japanese one? Had you met the scholars’ historical Jesus? The political Jesus of social-media fights? The Romans’ imperial Jesus? The Jesuits’ Jesus? Mexico’s Jesus? Leminski’s Jesus? The beautiful Black Jesus in Janet McKenzie’s paintings? The meme Jesus?</p><p>Had you met this crazy poets’ Jesus I’m so fond of?</p><p>Have you heard of the Brazilians’ Jesus?</p><p>Today, Jesus is especially popular in Latin America and Africa.</p><p>He arrived in Brazil through the expansionist networks of a naval empire trying to play Roman in a new world.</p><p>This Jesus is one of those who suffer most. They try to turn him into a tasteless parody in every way, every day.</p><p>It’s profitable in the short term.</p><p>It doesn’t last long.</p><p>People don’t like it.</p><p>The Roman Jesus of a decaying Portuguese empire. The paradox: he gets confused with the people’s Jesus walking the dirty sidewalks.</p><p>When they try to ridicule him — when they make this Jesus’s memory suffer too much —</p><p>Brazilians don’t allow it.</p><h4>Some of the Brazilian Jesuses</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*co3XFqAGXjRzVqrSHFtGHQ.jpeg" /><figcaption>Christ the Redeemer in Rio de Janeiro. In the background, luxury neighborhoods mixed with favelas. If Jesus were Brazilian, he would have been born, lived, and grown up in a favela, not in Leblon. The comparison most fitting to the way he was killed by Romans would be if, in Brazil, he were killed by police. <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Cristo_Redentor#/media/Ficheiro:1_cristor_redentor_2014.jpg">Image from here</a>.</figcaption></figure><p>Brazil is a bit like what Jesus would have liked as a national project.</p><p>It’s diverse and doesn’t hide behind the identity structure of an ethno-state.</p><p>It’s a country of poetry and authenticity.</p><p>For many people, the Brazilian Jesus is the one in which you internalize Christian rules (the famous “<em>non-practicing Christian</em>” of the Brazilian who’s too lazy to go to church). Brazilians often bond with Jesus in the first person, above performative conformity.</p><p>The Brazilian’s Jesus is personalized by individualism, neoliberalism, capitalism, secularism, religious deinstitutionalization — hence the dechurched. He’s an intimate phenomenon as much as he is a social facet.</p><p>The comfort Jesus brought to oppressed Jews under the Roman boot is no different from what he brings to Brazilian favela-dwellers and the formerly enslaved under the unequal boot and above the ruins of the failed Portuguese empire.</p><p>Nor is it different from a neighboring Jesus who today draws strength and hope to accompany Africa’s population boom.</p><p>Africa — the continent of Christianity’s future.</p><p>Brazil — the country with the most Christians in the world.</p><p>The Brazilians’ Jesus I first met was the one at the Lutheran school where I went to study at eight years old.</p><p>Before that, I’d had minimal contact with Christianity at home.</p><p>My grandmother, German, had taught me some Christian songs in German. We prayed before bedtime.</p><p>The Lutherans I knew were dogmatic, rigid, and ill-prepared to deal with my family’s chaos.</p><p>They were moralistic about issues of mental suffering and were not very understanding when I decided to detach from conformity to their faith.</p><p>They ostracized me in an environment I continued to frequent for a few more school years.</p><p>It wasn’t a positive introduction to Christians.</p><p>In every religion class, not even once was anything mentioned about the archaeologists’ Jesus I mention here.</p><p>The religious discourse seemed bureaucratic. Procedural, mechanical, uninspired.</p><p>Even while being so intolerant in protecting him, no one seemed to like Jesus all that much — at least not enough to engage directly with him.</p><p>Everything always had to be mediated by the Church’s bureaucracy which, by nature, made the whole matter very dense and dull.</p><p>When my family left Lutheranism, in a desperate phase we turned to the more miracle-working neopentecostalism.</p><p>I started attending a neighborhood evangelical church set up in a warehouse.</p><p>There I met a peripheral Jesus from Campo Limpo (a poor neighborhood on São Paulo’s periphery).</p><p>In its geopolitical place relative to the expansionist tentacles of decaying empires, Campo Limpo — and any similar Brazilian periphery — doesn’t differ much from what Nazareth must have been in Jesus’s time.</p><p>My family, in a shattering crisis, would often leave me at the church.</p><p>I became friends with the pastor, who started taking me here and there.</p><p>He’d set up a home styled like a TV soap-opera set. It sat behind the church, with a shop window so the faithful could walk past and peer in. A humble little house.</p><p>Despite the performative Christianity of living there, he actually lived in a house in a nearby gated community. I found out almost by accident around the same time he started putting me on stage during evening services to perform a ridiculous little “<em>possession”</em> skit.</p><p>With me as a child, the one who cast the devil out of me and stopped me from saying odd glossolalia things, supposedly, was Jesus. He charged tithes for it. And miracle weeks. And healing Sundays. And that extra little bit of faith to make sure auntie’s surgery went well…</p><p>(Everything I can say about him will sound caricatured. If it were fiction, I’d tone it down to make it more believable.)</p><p>At some point, my mother, in a bipolar crisis, realized that Jesus wasn’t going to work a miracle — and that the best way to get better was psychiatric and psychological treatment and medication. The family stabilized.</p><p>Without the desperation to go chasing new churches, with our family ostracized from the old ones, I took my spiritual life into my own hands. I became an atheist.</p><p>So went my first contacts with some of the kinds of Jesus who walk through Brazil.</p><p>They weren’t very positive.</p><p>The vulture institutions that drag their claws through Brazil’s dry, miserable corners owe a lot, in their cynicism, to what the corrupt temples must have been trying to con the precarious in the time of the historical Jesus.</p><p>The poet Jesus would probably demolish the little stage-set church — or the tent selling “<em>miracle week</em>” booklets — with a fury similar to the one he employed when he went wild smashing the trinkets sold near the temples.</p><h4>Rescuing my atheist Jesus</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*dOXSKf5IhgeQ8Vuy" /><figcaption>Photo by <a href="https://unsplash.com/@richardworks?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">Richard Burlton</a> on <a href="https://unsplash.com?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">Unsplash</a></figcaption></figure><p>The internet of atheist teenagers I grew up with was pretty hostile to Christianity.</p><p>I wanted to be rebellious.</p><p>I was outraged at the exploitation my vulnerable family suffered in religious institutions.</p><p>So I decided to be hostile too.</p><p>It was around age eleven that I declared myself an atheist. That level of freedom for a middle-class Brazilian teenager living in the periphery would have been unthinkable a generation earlier, in a dictatorship-era Brazil — extremely religious and without the internet.</p><p>Today’s Brazil is still extremely religious.</p><p>Now there are more and more infinite variations of Jesus in this country — some cretinous, others beautiful. The opportunistic and the charitable. Those that promise to cure depression with tithes, and those that bring hot meals to the homeless.</p><p>Online, to contest the Christianity around me, “<em>Rodlucifer666</em>” was my MSN handle, my email, and my nickname in Habbo Hotel. My T-shirts were of rock bands. On Orkut, I got a kick out of offensive and edgy communities like the one that declared “<em>Jesus should have gotten beaten more</em>.”</p><p>In the distorted ignorance of Brazilian parody, the symbolic injustice of equating Jesus with the Romans —</p><p>thinking that disrespecting his image was somehow an attack on the institutions that distorted him, not realizing that the distorted Jesus was, in fact, distorted.</p><p>A community gathering the “<em>ironic</em>” humor of the same authoritarianisms that crucified then — and that crucify now.</p><p>There’s nothing rebellious or clever in taking their side… in echoing the Romans’ graffiti…</p><p>I regret the silly views of that time, but I’m understanding of my context back then.</p><p>I thought that way before I had found this poet Jesus who, peripheral like me, poetic like me, is more hidden — but seems to speak to me directly.</p><p>He wasn’t easy to find, with so few editors interested amid the loud volume of so many other versions.</p><p>But his afterlife is easy because, poetry being the only institution he fits into, the only criterion he needs to keep living up to is lyricism.</p><p>The encounter with and symbolic recovery of Jesus is a project — and a process — of generations.</p><p>Anyone hostile to Jesus out of cynicism or trauma is turning their back on the legacy of a poor man tortured and killed for not shutting up before a cynical authority.</p><p>For anyone seeking material or political dignity, the historical Jesus is a cornerstone of inspiration for all the martyrs who followed him —</p><p>persecuted and/or killed —</p><p>still feverishly, resolutely in love with their own causes.</p><p>Everyone in world history who said something because it was beautiful and true, overriding their fear of death, was echoing Jesus.</p><p>This Jesus of ours, whom out of admiration I’m trying to write here to the utmost and limit of my ability… this is just one more crumb.</p><p>Just a dot on the long, winding line attempting to restore the reputation of the one whose words were distorted to project and justify cruel empires —</p><p>empires built up against everything that Jesus believed.</p><p>I love deeply the Jesus I’ve come to know.</p><p>He’s one of the most inspiring figures ever to pass through this world.</p><p>I’m glad I went beyond the cruel, petty, mediocre superficiality of the cheap versions of Jesus I was sold earlier in life;</p><p>that beyond the opportunistic Christianities that deceived and betrayed me, I later found decent Christian people in life —</p><p>as well as I’m glad that I found, through autodidact paths, this rediscovery and reconnection with the poetry Jesus I’ve explained here.</p><p>As the tightening intensifies — the chokehold that today’s decaying empires are clamping more and more around all our necks…</p><p>(around all of us, first the vulnerable, then the peripheral, then the dissident, then…),</p><p>as it intensifies, our circumstances will more closely resemble those that tried to erase all dignity from those under the Roman boot.</p><p>For two millennia, the idea of dignity for all has resisted every chokehold —</p><p>resisted regardless of the greatest monstrosities done, in distorted fashion, in the name of Christianity — or against Christianity.</p><p>By one of the bitterest, cruelest rhymes, the chokehold of today’s decaying Romans is happening, once again, in Palestine —</p><p>and this time carried out by a people-crushing machine built by so-called Jews and so-called Christians.</p><p>The boot tries at last to take on the very names of those it has trampled so much…</p><p>In every corpse under the rubble, an imperial attempt to erase — in Jesus’s name — the dignity of human life.</p><p>The dignity Jesus defended.</p><p>Some of the most undignified things in the world were perpetrated by people who justified themselves with appropriated, parodied, “<em>Christian</em>” rhetoric.</p><p>And none of that erased Jesus’s dignity.</p><p>Nor could it erase the dignity of all who, before, during, and after him, were, are, and will continue to be massacred by empires —</p><p>massacred as he was —</p><p>until the empire of the day falls,</p><p>and poetry goes on.</p><p>I will not, as long as I live, allow them to twist or warp for me again this poet Jesus I found.</p><p>And let this serve to strengthen him within the literary institution under the feverish, forceful passion of lyricism.</p><p>I commit his dignity to protection under my words and values.</p><p>Seed of contradiction at the bottom of our empires’ decadence, finding your own Jesus is discovering in yourself the will<br>to invent<br>your own</p><p>and</p><p>collective,</p><p>intimate, ancient<br>and new</p><blockquote><strong>litany of solace (mission, 15x)</strong></blockquote><blockquote>(for the secular Jesus<br>of the poets)</blockquote><blockquote>before<br>your raw<br>doubt<br>on the cross,<br>Jesus,</blockquote><blockquote>before<br>the anger<br>in the loud<br>wail<br>of Mary,</blockquote><blockquote>before<br>both,</blockquote><blockquote>we</blockquote><blockquote>cry,<br>lament,<br>reply, learn,</blockquote><blockquote>and<br>comfort;</blockquote><blockquote>even<br>if it kills us,<br>beauty and poetry<br>against the boot’s power<br>we must<br>protect;</blockquote><blockquote>the dignity of all<br>was Jesus’s<br>deep concern;</blockquote><blockquote>now the dignity of Jesus<br>is the deep concern<br>of all;</blockquote><blockquote>to rescue him<br>from distortions,<br>to recover him,<br>and do justice<br>to the poetic force<br>of his legacy:</blockquote><blockquote>mission of us all;</blockquote><blockquote>to go on in life<br>seeking<br>(finding)<br>beauty,<br>even in the face of threats<br>that raise<br>crosses<br>to scare us<br>into giving up:</blockquote><blockquote>mission<br>of<br>us all;</blockquote><blockquote>to be willing<br>to carry<br>the sound of one’s own voice,<br>even along the path<br>where this may lead<br>to censorship,</blockquote><blockquote>to insist<br>in an impenetrable<br>commitment<br>to the most<br>lyrical<br>truth:</blockquote><blockquote>mission<br>of us all;</blockquote><blockquote>to have<br>empathy for the sisters<br>and the brothers<br>crushed<br>under the boot’s weight,<br>to refuse<br>to take part<br>in any perverse<br>dynamic<br>that repeats cruel pain<br>onto others,</blockquote><blockquote>to believe<br>that art can resist,<br>or be reborn,</blockquote><blockquote>to speak<br>of poetry<br>with<br>humble modesty<br>&amp; intense passion,</blockquote><blockquote>without fear,</blockquote><blockquote>with</blockquote><blockquote>urgent<br>gentleness,</blockquote><blockquote>(urgentleness)</blockquote><blockquote>as if the world were ending</blockquote><blockquote>(because it is):</blockquote><blockquote>mission of us all,<br>mission of us all,</blockquote><blockquote>mission<br>of<br>us<br>all;</blockquote><blockquote>to profess<br>vulnerable<br>doubts<br>to summon<br>the collective<br>comfort<br>of whoever might<br>answer us,</blockquote><blockquote>to give<br>responses<br>with comfort<br>to the doubts<br>professed<br>by the vulnerable one<br>beside us:</blockquote><blockquote>mission of us all,<br>mission of us all;</blockquote><blockquote>to listen to<br>and believe<br>in the people’s hopes,<br>in the promise<br>that there may exist someday<br>dignity<br>for the poorest:</blockquote><blockquote>mission of us all;</blockquote><blockquote>to hear<br>the apocalyptic<br>fire<br>in the beautiful echo,<br>even when hidden<br>by the softening<br>of millennia:</blockquote><blockquote>mission of us all;</blockquote><blockquote>to dream<br>some utopia,<br>some optimistic<br>revolution<br>about which one can<br>sing about,<br>toward which one can<br>walk toward,<br>bringing along<br>as many people<br>as possible<br>from the fair, the street,<br>the bus, the market,<br>the bar;</blockquote><blockquote>when<br>the next chokehold<br>comes</blockquote><blockquote>(today),</blockquote><blockquote>to resist erasure<br>as Jesus did;</blockquote><blockquote>to feel<br>worthy enough<br>to deserve<br>to live<br>&amp;<br>to die<br>being who you are:</blockquote><blockquote>mission of us all;</blockquote><blockquote>legacies of all of us<br>for Jesus,</blockquote><blockquote>of Jesus<br>for us all,</blockquote><blockquote>to persist<br>in the cry,<br>like a resolute<br>poet,</blockquote><blockquote>to sing<br>“in the next apocalypse,<br>Rome will fall again!”</blockquote><blockquote>(for good!)</blockquote><blockquote>and<br>to listen,<br>to feel,<br>to believe<br>in the deep<br>truth<br>of fantastic<br>folk stories<br>from the fishermen:</blockquote><blockquote>mission<br>of us<br>all;</blockquote><blockquote>Jesus, not abandoning you in doubt<br>is the mission of us all;</blockquote><blockquote>your Kingdom<br>will come<br>to us on earth!</blockquote><blockquote>it is our mission<br>to answer back<br>the<br>amen.</blockquote><h3>‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎</h3><h3>‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎</h3><h3>‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎</h3><h3>‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎‎</h3><h3>FURTHER READING</h3><p>Some of the works and authors that inspired this text:</p><ul><li><strong>LEMINSKI, Paulo</strong>; <em>VIDA</em>. Companhia das Letras, 2013. Available at: <a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535923278/vida">https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535923278/vida</a>. Accessed on: Oct 22, 2025.<br><strong>(This essay I made owes everything to Leminski’s book — and above all to Leminski’s version of Jesus. Leminski’s mini-biography of Jesus is so good, and so close to what I wished this essay could be, that I almost gave up writing anything when my research led me to his text. If you want to read another piece about Jesus similar to this one — but better — read Leminski’s Jesus.)</strong></li><li><strong>MEIER, John P.</strong> <em>A Marginal Jew: Rethinking the Historical Jesus</em>. Yale University Press, 2002. Available at: <a href="https://www.amazon.com/dp/0300140185">https://www.amazon.com/dp/0300140185</a>. Accessed on: Jul 24, 2025.<br><strong>(The big, ambitious academic reference on the historical Jesus. It’s dense. In multiple volumes.)</strong></li><li><strong>DAY, John.</strong> <em>Yahweh and the Gods and Goddesses of Canaan</em>. Bloomsbury Publishing, 2002. Available at: <a href="https://www.bloomsbury.com/us/yahweh-and-the-gods-and-goddesses-of-canaan-9780826468307/">https://www.bloomsbury.com/us/yahweh-and-the-gods-and-goddesses-of-canaan-9780826468307/</a>. Accessed on: Jul 24, 2025.<br><strong>(Serious academic reference that clearly explains how monotheism emerged from earlier pantheons and came to relate to “competing” entities. In English.)</strong></li><li><strong>SMITH, Mark S</strong>. <em>The Early History of God</em>. Eerdmans, 2002. Available at: <a href="https://www.amazon.com/Early-History-God-Biblical-Resource/dp/080283972X">https://www.amazon.com/Early-History-God-Biblical-Resource/dp/080283972X</a>. Accessed on: Jul 24, 2025.<br><strong>(Another dense book on the development of monotheism that informed Chapter 1 of this essay. As important a field reference as Day’s.)</strong></li><li><strong>SANDERS, E. P</strong>. <em>Jesus and Judaism</em>. Fortress Press, 1985. Available at: <a href="https://www.amazon.com/Jesus-Judaism-P-Sanders/dp/0800620615">https://www.amazon.com/Jesus-Judaism-P-Sanders/dp/0800620615</a>. Accessed on: Oct 22, 2025.<br><strong>(Another major academic source. This one is the best at locating Jesus within the cultural and religious context of the Jews of his time.)</strong></li><li><strong>EHRMAN, Bart D</strong>. <em>Did Jesus Exist?: The Historical Argument for Jesus of Nazareth</em>. HarperOne, 2013. Available at: <a href="https://www.amazon.com/Did-Jesus-Exist-Historical-Argument/dp/0062206443">https://www.amazon.com/Did-Jesus-Exist-Historical-Argument/dp/0062206443</a>. Accessed on: Oct 22, 2025.<br><strong>(Perhaps the most accessible popularizer on the topic. A more critical, essayistic tone — like this — but far better grounded academically than I am.)</strong></li><li><strong>CROSSAN, John Dominic.</strong> <em>The Historical Jesus: The Life of a Mediterranean Jewish Peasant</em>. HarperCollins, 2010. Available at: <a href="https://www.amazon.com.br/Historical-Jesus-Mediterranean-Jewish-Peasant/dp/0060616075">https://www.amazon.com.br/Historical-Jesus-Mediterranean-Jewish-Peasant/dp/0060616075</a>. Accessed on: Oct 22, 2025.<br><strong>(Of the academic sources, this is the most essayistic, the most controversial, and my favorite.)</strong></li><li><strong>LEMINSKI, Paulo</strong>. “<em>O ‘Jesus jacobino’ de Paulo Leminski</em>.” Jacobin, 2020. Available at: <a href="https://jacobin.com.br/2020/12/o-jesus-jacobino-de-paulo-leminski/">https://jacobin.com.br/2020/12/o-jesus-jacobino-de-paulo-leminski/</a>. Accessed on: Oct 22, 2025.<br><strong>(A free excerpt of Leminski’s Jesus available online.)</strong></li><li><strong>FERRAZ, Salma</strong>. “<em>O Cristo de Paulo Leminski e José Saramago.</em>” Universidade Federal de Santa Catarina, 2005. Available at: <a href="https://periodicos.unb.br/index.php/cerrados/article/view/1194">https://periodicos.unb.br/index.php/cerrados/article/view/1194</a>. Accessed on: Oct 22, 2025.<br><strong>(A very good article by a Brazilian professor offering a comparative literary analysis between Leminski’s literary Jesus and Saramago’s.)</strong></li><li><strong>SLEDGE, Justin.</strong> “<em>Who was the Historical Jesus?</em>” ESOTERICA, 2025. Available at: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=82vxOBbYSzk">https://www.youtube.com/watch?v=82vxOBbYSzk</a>. And from the same channel, “Why the Historical Jesus Matters — Conversation with @JamesTaborVideos,” 2025. Available at: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=Mwr7tN4L8z8">https://www.youtube.com/watch?v=Mwr7tN4L8z8</a>. Both accessed on: Oct 22, 2025.<br><strong>(Yes, they’re YouTube videos — but by scholars in the field. The second one in particular, the conversation that goes deeper with James Tabor, is excellent.)</strong></li></ul><h3>ABOUT THE AUTHOR</h3><p>Rodrigo (b. 1995) is a writer, copywriter, UX writer, and university lecturer. He holds a master’s degree in Communication and has nearly a decade of copywriting experience. He writes across formats — from essays and poems to scripts, app UI, ads, and fiction (novels and short stories).</p><p>In June 2022, he released his first printed book with <em>Editora Casatrês</em>, titled <em>NFTs, influencers e a música ࿃ूੂ࿃ूੂੂ࿃ूੂOOOOOOOOOOOO ̟̞̝̜̙̘̗̖҉̵̴̨̧̢̡̼̻̺̹̳̲̱̰̯̮̭̬̫̪̩̦̥̤̣̠҈͈͇͉͍͎͓͔͕͖͙͚͜͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢ͅ ooooooooo do artista ⣎⡇ꉺლ༽இ•̛)ྀ◞ ༎ຶ ༽ৣৢ؞ৢ؞ؖ ꉺლ </em>(something like <strong><em>NFTs, Influencers and the Music </em></strong><a href="https://www.youtube.com/watch?v=CEi7SRWU1lc"><em>࿃ूੂ࿃ूੂੂ࿃ूੂOOOOOOOOOOOO ̟̞̝̜̙̘̗̖҉̵̴̨̧̢̡̼̻̺̹̳̲̱̰̯̮̭̬̫̪̩̦̥̤̣̠҈͈͇͉͍͎͓͔͕͖͙͚͜͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢ͅ ooooooooo</em></a><strong><em> of the Artist </em></strong><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/artist/1TIbqr0x8HoKzKBNtNN8wf"><em>⣎⡇ꉺლ༽இ•̛)ྀ◞ ༎ຶ ༽ৣৢ؞ৢ؞ؖ ꉺლ</em></a><em>)</em>, a work exploring the creation and burnout cycles of digital trends and their connection to user experience — particularly in contexts where that experience is deliberately restricted, a concept he’s been developing under the name “<em>Anti-UX</em>.”</p><p>He also has three fiction books available on Amazon. <em>Eu Só Existo às Terças-feiras</em> (<strong><em>I Only Exist on Tuesdays</em>, 2022</strong>) was a finalist among over a thousand entries in the first Brazilian Amazon Young Literature Award and because of that was adapted into an audiobook by Audible. In 2023, he published <em>Verde Verdade</em> (<strong><em>The Green Truth</em></strong>), a deconstruction of the wandering-romance genre. In 2024, he released a work of philosophical science fiction, <em>Éramos Deuses</em> (<strong><em>We Were Gods</em></strong>).</p><h3>A FINAL NOTE ABOUT THE TRANSLATION</h3><p>This essay was originally written and published in Brazilian Portuguese. It remains available in its original language here:</p><p><a href="https://rodrigoldacker.medium.com/jesus-poeta-a5f1bead73bf">Jesus poeta</a></p><p>This is only the second time in my life that I’ve tried to translate my own work into English. The first experiment was a few months ago, with another essay similar to this one (about Enheduanna, <a href="https://medium.com/p/cb72b6fe5b0a">available here</a>). In both that previous essay and this one, the translation feels like a shot in the dark — something I’m still learning to do — so I’m open to and grateful for any suggestions, corrections, or improvements.</p><p>While I’m at it, I’d also love to hear your thoughts on this text — whether you liked it or hated it. And if this essay resonated with you in any way, I’d be very thankful if you shared it and helped it reach others. My only motivation with these English-translation projects is to reach as many people as possible.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=d14dca338f75" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[dilema (culpa, 21x)]]></title>
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            <category><![CDATA[poesia]]></category>
            <category><![CDATA[poema]]></category>
            <category><![CDATA[poesia-brasileira]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Rodrigo Goldacker]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 30 Oct 2025 12:06:18 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-11-10T16:28:45.871Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*LLgcaAtdyJiR-ASx" /><figcaption>Photo by <a href="https://unsplash.com/@jacktthunter?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">Jack Hunter</a> on <a href="https://unsplash.com?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">Unsplash</a></figcaption></figure><blockquote><strong><em>Conteúdo sensível</em></strong><br><em>Este poema fala sobre suicídio, burnout de cuidador, exaustão emocional e dor psíquica. Leitura pesada. Pode ser gatilho.</em></blockquote><p>se<br>um bebê <br>(engatinhando pelo chão)<br>encontra bolas de naftalina, <br>as engole<br>e morre,</p><p>a culpa<br>não é<br>do bebê,</p><p>a<br>culpa<br>é<br>de<br>seus<br>pais;</p><p>se<br>um suicida<br>tenta todos os dias<br>jogar-se de um prédio<br>e sempre<br>é impedido<br>por um familiar querido,</p><p>mas,</p><p>um só dia,<br>o familiar não está lá<br>(teve que ir a uma reunião de trabalho,<br>ou ao dentista com seus dentes podres)<br>e na rápida ocasião<br>desse vazio<br>o suicida lança-se ao abismo<br>de vez,</p><p>de quem é<br>a culpa?</p><p>os dentes podres a cuidar,<br>o trabalho a preservar,<br>desproporcionais,<br>detalhes ridículos<br>frente<br>ao cadáver;</p><p>o familiar<br>se ficasse<br>com dentes podres,<br>talvez com a demissão,<br>sofreria,</p><p>mas<br>não morreria,</p><p>cuidaria<br>do seu suicida<br>e o impediria,<br>cumpriria<br>sua<br>missão;</p><p>todos os dias,<br>levantei<br>o enorme peso<br>do<br>desespero<br>incapacitante<br>de alguém<br>que me era muito amado</p><p>alguém<br>que só queria se afundar e afogar,<br>alguém<br>que, às vezes aos gritos e ultimatos,<br>eu não<br>deixava<br>se entregar</p><p>e nisso,<br>no esforço repetido,<br>meus músculos acabaram<br>doídos,<br>deformados,<br>rompidos,</p><p>e um dia<br>tentei não levantar <br>este meu fardo<br>na crença boba<br>de que<br>poderia descansar,<br>de que<br>uma esmola só<br>de dignidade<br>não iria logo me custar<br>o mais cruel<br>dos preços</p><p>e quem eu sempre<br>levantava<br>nesse dia<br>caiu,<br>afundou,<br>afogou-se</p><p>e<br>agora<br>o dilema me destrói</p><p>e me corrói<br>a culpa,</p><p>a inconsequência do bebê, <br>a obrigação dos pais,</p><p>a pulsão do suicida,<br>o lapso de seu protetor,</p><p>a entrega ao desespero rendido<br>de quem me arrebentei pra tentar levantar,</p><p>frente ao meu capricho<br>ingênuo<br>de acreditar que era possível<br>viver sem escolher<br>entre<br>fazer tudo pelo outro,<br>um outro que de tão frágil<br>tudo de mim demandaria,<br>e ainda<br>arranjar algum jeitinho<br>de fazer num intervalo, só pouquinho,<br>por mim</p><p>como se um pulmão de ferro<br>que mantém alguém vivo na UTI<br>pudesse sair ao corredor às vezes,<br>só por um momento, bem rapidinho,<br>para ele mesmo respirar;</p><p>dos responsáveis<br>por seus vulneráveis,<br>fica<br>o dilema amargo da desproporção,</p><p>o bebê<br>cresce e aprende,<br>mas quem quer se destruir,<br>ser negligente,<br>pode ficar pra sempre<br>em compulsão,</p><p>o emprego, o podre dente,<br>o músculo fodido,</p><p>são frente ao risco<br>da morte do outro<br>suficientes?</p><p>dar ao suicida<br>o “<em>direito</em>” de resolver pular,<br>dar para a pessoa querida<br>“<em>direito</em>” de se afogar,<br>é diferente<br>de dar ao bebê<br>o “<em>direito</em>” de tomar naftalina?</p><p>e como dar sorrisos<br>com dentinhos arrumados<br>cheio de culpa<br>pelo sorrir de caveira<br>terceira?</p><p>meus cinco minutinhos<br>olhando pro meu umbiguinho<br>valeram a vida sofrida<br>que porque não me sacrifiquei mais ainda<br>agora se acabou?</p><p>o cálculo perverso, <br>a pior comparação:</p><p>o funcional viver mais digno <br>enquanto o destrutivo se mata,<br>ou<br>o funcional e o destrutivo<br>sofrerem muito juntos, <br>sobreviverem<br>em equilíbrio:</p><p>ambos desgraçados,<br>mas ambos ainda<br>vivos;</p><p>como mensurar,<br>como aceitar<br>o prejuízo indigno<br>do sacrifício?</p><p>a armadilha:<br>triturar-se por inteiro,<br>torturar-se e apagar-se até<br>o dia em que não for suficiente,</p><p>o dia<br>em que se sobrevive<br>pra sempre maculado<br>por remorso<br>e por toda culpa<br>de não ter feito mais;</p><p>nada, <br>absolutamente<br>nada<br>que não doar-se 100%,<br>absoluto 100%, <br>dar-se todo, <br>dar-se inteiro,<br>vai resolver<br>a culpa</p><p>e qualquer partícula<br>dada a si,<br>qualquer atômico<br>milésimo<br>detalhe de esforço<br>dado para si<br>vai pra sempre<br>te assombrar<br>por não ter sido dado<br>ao outro<br>que estava o tempo todo<br>morrendo;</p><p>voltei pra minha vidinha,<br>fui caminhar no parque<br>e brincar de casinha<br>e brincar de me cuidar<br>sendo meu próprio adulto,</p><p>se não tivesse<br>tirado nenhum segundo para mim,<br>em nenhuma ocasião, nunca, jamais,<br>não haveria daí<br>a culpa;</p><p>todo segundo em que vivi,<br>em que existi sem estar cuidando,<br>agora me faz sentir<br>culpa</p><p>e não sei<br>se<br>com essa culpa<br>posso de qualquer forma voltar<br>a ser<br>feliz,</p><p>invejo<br>a competente fiel fria onipresença<br>do maquinário da UTI,<br>sem reclamar,<br>sem cansar,<br>sem desligar</p><p>e<br>queria ter sido <br>o pulmão de ferro<br>até tudo de mim enferrujar<br>e quebrar<br>só para com minha presença garantir<br>que,<br>mesmo se fosse por só mais um dia,<br>ela continuasse<br>a respirar;</p><p>ela viveu<br>a vida inteira<br>batalhando<br>contra a magnitude de sua <br>depressão<br>com as ferramentas pequenas que tinha</p><p>viveu enfiada nessa<br>densa<br>areia movediça</p><p>e passei<br>minha vida inteira<br>usando toda minha força<br>e toda minha boba esperança<br>para manter o que pude<br>do corpo dela<br>fora de lá</p><p>e fiz isso sonhando sempre<br>que algum dia<br>ela fosse finalmente dar um jeito<br>de daquela areia toda,<br>daquele buraco fundo,<br>escapar</p><p>uma vida inteira<br>boiando sem chão para firmá-la,<br>dependendo de mim como boia<br>porque o fundo da piscina não lhe dava pé,<br>dependendo da mão de quem lá estivesse<br>para erguê-la<br>quando corria risco de em seu poço sem fundo<br>afundar</p><p>uma boia salva-vidas<br>não pode<br>sair pra “descansar” do peso que leva<br>quando está boiando alguém em alto mar;</p><p>odeio<br>este salgado bruto desumano<br>mar<br>que nunca te deu pé;</p><p>por causa dele<br>tivemos<br>(porque você também se debatia<br>e como podia tentava nadar e se salvar)<br>que sempre<br>arranjar<br>algum novo alucinado jeito<br>de ter forças para levantá-la</p><p>algum novo plano infalível todo mês<br>que dessa vez iria dar conta de vez<br>de definitivamente<br>te resgatar</p><p>e pela densidade,<br>pelo peso,</p><p>ser boia e organizar resgates<br>nunca foi tarefa leve,</p><p>mas foi tarefa<br>que sempre fiz<br>sem questionar,</p><p>movido pelo amor<br>(pelo desespero também)<br>querendo de tudo quanto era jeito<br>fazê-la,<br>pelo máximo que fosse possível,<br>viver,<br>ficar</p><p>enquanto<br>estive longe certa vez,<br>enquanto tentei viver,<br>a areia movediça de sempre<br>a devorou;</p><p>sem chão pra dar pé,<br>sem boia para boiar,<br>ela se<br>destruiu,<br>afundou<br>e<br>afogou;</p><p>avó<br>eu te amo, <br>te amo,<br>sinto muito, <br>sinto muito,<br>te amo,<br>sinto muito,</p><p>te<br>amo,<br>sinto<br>muito,<br>me<br>desculpa,<br>por<br>favor,</p><p>pensando,<br><em>sei</em><br>que já fiz<br>muito, <br>muito mesmo,</p><p>mas</p><p>chorando,<br><em>sinto</em><br>que deveria<br>ter feito<br>muito<br>muito<br>muito<br>mais;</p><p>e meu sentir é<br>trilhões de graus de grandeza<br>mais forte<br>que meu pensar;</p><p>(e não é porque penso pouco)</p><p>este é meu<br>dilema,<br>a culpa ácida<br>que me queima <br>e me<br>devora<br>de<br>dentro<br>pra<br>fora,</p><p>que me deixa<br>exausto,<br>sem solução:</p><p>destruir-me todo<br>para manter quem amo vivo?<br>ou<br>viver e me proteger,<br>mesmo que o mínimo,<br>enquanto morre<br>quem me é querido?</p><p>não tenho<br>resposta nenhuma<br>para nada disso,</p><p>tenho<br>culpa</p><p>(eco:<br>culpa, culpa, culpa)</p><p>isso tenho bastante, culpa,</p><p>e não há<br>argumento coerente,<br>raciocínio, lógica lúcida, <br>perspectiva consciente<br>que resolva<br>ou acalente<br>minha culpa;</p><p>tenho<br>toda dor,</p><p>tenho<br>toda culpa,</p><p>mas resposta<br>não tenho,</p><p>dilema legado,<br>dilema maldito, <br>maldita culpa,<br>não tenho resposta, <br>não,<br>não para<br>isso;</p><p>só tenho e só sinto</p><p>culpa;</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/35/0*OogzyqWr6x-8zC-v.png" /><figcaption>Ei, gostou do poema?<br>Logo abaixo você pode interagir com nossa equipe de poetas<br>através de claps (que vão de 1 a 50) e comentários.<br>Continue lendo a <a href="http://faziapoesia.com.br/">Fazia Poesia</a>.</figcaption></figure><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=0b046b897fc0" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://faziapoesia.com.br/dilema-culpa-21x-0b046b897fc0">dilema (culpa, 21x)</a> was originally published in <a href="https://faziapoesia.com.br">Fazia Poesia</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[Jesus poeta]]></title>
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            <category><![CDATA[religiao]]></category>
            <category><![CDATA[historia]]></category>
            <category><![CDATA[literatura]]></category>
            <category><![CDATA[poesia]]></category>
            <category><![CDATA[ensaio]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Rodrigo Goldacker]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 27 Oct 2025 12:19:19 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-12-16T17:01:35.697Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*j98MBVHuOr2YjUCEp-C3cQ.png" /></figure><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*YTLYHL5N0f1b8PYkJaA3TQ.png" /></figure><h3>Um dia, na periferia de um grande império, um homem comum fez de si uma poesia tão bonita que nada nem ninguém foi capaz de matar.</h3><p>Este modesto camponês se transformou num poeta apocalíptico digno, profundamente convicto sobre belezas e fins.</p><p>E foi transformado por multidões num líder espiritual pelas palavras inspiradas que compartilhou com seus semelhantes.</p><p>Mesmo morto, enquanto símbolo ele continuou se recusando a permitir que mesmo as piores ameaças e torturas lhe apagassem a gentileza de versar.</p><p>Na morte e nas mil distorções posteriores, sempre tentaram calá-lo ou corrompê-lo. Ninguém conseguiu por muito tempo.</p><p><strong>Esta é a história dele em sua variação poética-secular.</strong></p><p>Aqui, quero recuperá-lo de mais uma camada do apagamento histórico que ele sofreu e quero torná-lo outra vez livre, próximo e vivo. Solto da mentira de monopólio por qualquer instituição que minta ser dona dele.</p><p>Jesus é de todos e para todos.</p><p>E nisso, também é meu e ninguém tem direito de roubá-lo de mim, nem de calá-lo em mim.</p><p>Por isso, vou escrevê-lo como bem quero e não devo desculpas a ninguém.</p><p>Mas mesmo assim, começo deixando dois avisos importantes, dado o assunto.</p><p><strong>Em primeiro lugar</strong>: este texto é um ensaio poético, um <strong>manifesto artístico</strong> explorando perspectivas literárias. Faz isso tomando <strong>inspiração no Jesus histórico </strong>(pelo pouco que concretamente dele se sabe, pelo contexto de quando viveu, e como era a vida de outros como ele naquele período). Mas mesmo tomando inspiração nisso tudo, <strong>este texto não é história em si, propriamente</strong>.</p><p>É uma romantização a partir de leituras históricas específicas. Deixarei ao fim do texto uma lista de livros e referências de onde partiram minhas visões. Muitas delas são acadêmicas e qualquer um que ler o texto vai reparar que me inspirei mais nelas do que em teologia ou nas versões defendidas por instituições religiosas famosas.</p><p>Em relação aos retratos técnicos, vou aqui tomar a liberdade de simplificar (e distorcer) vários elementos por motivos narrativos ou estéticos. Este texto já é bem grande e fazer jus a todas as pesquisas destruiria seu ritmo, mataria seu espírito em burocracias e quintuplicaria sua já desinibida extensão.</p><p><strong>Em segundo lugar</strong>: é importante deixar dito ainda que <strong>este não é um texto escrito por alguém religioso</strong>. Sou ateu e estou partindo do Jesus histórico justamente por conta disso.</p><p>Para alguém religioso, pode ser interessante ler algo escrito por um ateu que admira Jesus profundamente como figura artística e histórica.</p><p>Mas o fato de que sou ateu afeta qual é exatamente o “Jesus” do qual estou falando e que admiro tanto.</p><p>É um Jesus diferente daquele dos religiosos.</p><p>A começar porque se trata deste Jesus construído e informado por pesquisas históricas, arqueologia e literatura acadêmica comparada, muito mais do que por teologia, dogma, ou fé.</p><p>A continuar porque é um Jesus pragmático, em que tudo impossível é lido como metáfora e símbolo.</p><p>É, portanto, um Jesus que não nasce de uma mulher virgem. Também é um Jesus que não multiplica peixes, não cura cegos e não ressuscita e sobe aos céus três dias depois de ser crucificado.</p><p>Mas é um Jesus que eu acho mais bonito ainda por não fazer nada disso.</p><p>E que é, à sua própria maneira, ainda um belíssimo de um milagre.</p><p>Talvez o milagre mais bonito de todos.</p><p>Enquanto ateu, é meu Jesus favorito. É o Jesus que amo.</p><p>E quero apresentá-lo digno, da maneira bonita e justa que acredito que ele merece.</p><h3>1. Antes de Jesus</h3><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/800/1*XPmnOjh-xhcG4k0FGbkSqA.png" /><figcaption>Estátua de touro encontrada na região da Palestina, produzida por volta do século 12 antes de Jesus. Porque naquela época dois deuses guerreiros parecidos (Yahweh e Baal) compartilhavam o touro enquanto símbolo, não se tem certeza se esta se tratava de uma representação associada a algum dos dois em particular. <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Yahwism#/media/File:Bull_site_statuette.png">Imagem daqui</a>.</figcaption></figure><p>Este começo vai ser denso. Deixo avisado.</p><p>Se vou gastar um capítulo todo depois pra cobrir a vida toda de Jesus em trinta anos, esse capítulo vai falar no mesmo espaço sobre milênios.</p><p>Milênios de muitas pessoas de muitas civilizações fazendo muitas coisas. Até essas coisas todas que fizeram, deram certo ou errado, mutaram-se com o tempo, gestaram e pariram consequências, que daí pariram outras consequências, que daí estabeleceram a linearidade sequencial nas causas e consequências.</p><p>A última destas consequências todas que vamos ver é Jesus.</p><p>Que, por sua vez, vai deixar de ser consequência para virar causa de tantas outras coisas.</p><p>Eba!</p><h4>Deuses e povos borbulhantes num caldeirãozinho de bronze</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/602/1*Gbprq8CFtNDiWSdBOnRLBg.png" /><figcaption>Imagem da deusa Asherá (em português, às vezes, Aserá), por volta de 1300 a.C. A antiga entidade do politeísmo cananeu era parte do panteão que foi avô do monoteísmo judaico. Imagem daqui.</figcaption></figure><p>As primeiras cidades se desenvolveram. Quando foram se conectando (ou sendo dominadas) umas pelas outras, estruturaram os primeiros impérios.</p><p>No auge civilizatório da Idade do Bronze, havia uma diversidade embasbacante de tudo.</p><p>De povos, de línguas, de escritas, de cidades, de estilos de existir, de burocracias, de tecnologias nascentes, de mitologias, de culturas, de deuses e deusas, de mercadorias sendo trocadas, de versões das histórias, de tipos diferentes de arte, de alianças, de conflitos regionais.</p><p>Entre estes povos diversos todos, estes povos conflituosos e vinculados todos, você podia comercializar simpático junto a um de seus vizinhos de parede enquanto está invadindo militarmente o vizinho de parede do outro lado. E a parede das trocas e a da guerra poderiam inverter-se amanhã.</p><p>Ou os dois podiam unir forças pra invadir juntos tua casa…</p><p>Havia uma bacia particularmente efervescente de pessoas, culturas e conflitos que tomava boa parte do Oriente Médio e algumas regiões próximas.</p><p>Lá viviam os povos semíticos.</p><p>Todos eles parecidos em algumas coisas. Por isso todos “<em>semíticos</em>”.</p><p>Idiomas com vinculações e influências.</p><p>Escritas parecidas.</p><p>Mitologias parecidas. Isso quando não tornadas sincréticas sob um panteão mais vasto. Às vezes, elas se unificavam. Às vezes, elas eram uma que se dividia em duas, ou várias.</p><p>Os judeus eram um desses povos na região que correspondeu depois à Palestina. Na época, conseguiram estabilizar um punhado de cidades, depois um punhado de reinos.</p><p>Quando os textos bíblicos começaram a ser redigidos, dentro das cortes destes reinos a partir de tradições orais que provavelmente existiam antiquíssimas desde antes da passagem para a agricultura, ninguém tinha unificado ainda a região.</p><p>Os judeus eram donos desses reinos diferentes, em vez de um só grande reino, porque sentiam-se aproximados por língua e cultura, mas não se sentiam nisso idênticos.</p><p>A história das doze tribos, simbólica para os antigos textos bíblicos, parte dessa variedade com autonomia.</p><p>Os judeus, em seus ciclos de altas e baixas todos ainda na Antiguidade, foram variando seus papéis.</p><p>Nisso, desde o começo foram mais resilientes em relação a boa parte dos vizinhos. O mais comum de um povo conquistado não era que passasse um tempo marginalizado e depois realizasse um <em>comeback</em>. O mais comum era que sumissem pra sempre.</p><p>Os cartagineses, por exemplo, não fizeram um mito que sobreviveu ao fim de seu império, nem se mantiveram minimamente coesos em identidade cultural mesmo quando dispersos ao redor do mundo. Eles só sumiram, mesmo. Um dia, chamar qualquer um de “cartaginês” só deixou de fazer sentido.</p><p>Fazia tanto sentido chamar alguém de “judeu” na Idade do Bronze quanto faz sentido hoje. Entre os povos e identidades daquele tempo, são poucos que ainda existem em qualquer número hoje em dia para dizer o mesmo.</p><p>Os judeus, portanto, sobreviviam às mudanças. Carregavam rigidamente algumas coisas fundamentais que estruturavam seu pertencimento enquanto adaptavam e faziam concessões pragmáticas ao redor disso.</p><p>A depender do período, eram sempre uma coisa ou outra. Variavam de classe, com o sucesso ou o fracasso em conflitos e guerras, variavam entre ter cortes aristocráticas com escribas redigindo textos mitológicos e entre serem um povo de escravos dormindo empilhados no chão.</p><p>Ao longo da sequência histórica judeus poderiam ir de escribas a escravos, passando por serem militares, ou fazendeiros, pastores de ovelhas ou sacerdotes burocratas.</p><p>Culturalmente, pouco os diferenciava dos seus vizinhos. As religiões eram as mesmas. O sistema de cidades erguidas ao redor de templos, portanto vinculadas a uma divindade de seu templo principal, era semelhantes. As mesmas eram todas as relações dos tempos com a economia, a política e até o turismo.</p><p>O jeito de terem deuses no plural era o que variava só um pouquinho. Numa região de tantos politeísmos, os judeus antigos foram mais cedo para uma religião henoteísta, ao que parece.</p><p>É de se argumentar se foi isso mesmo, dado que toda cidade costumava ter mesmo seus deuses favoritos como mais importante.</p><p>Talvez os judeus só tenham aprendido a consolidar melhor certas franquias.</p><p>Diferente também era esta religião dos judeus porque seu sistema era mais rígido em hierarquias, mais vinculado à escrita como um mecanismo importante.</p><p>Todos os povos redigiam conteúdo religioso.</p><p>Aos judeus, porém o religioso não era só um endosso escrito aos poderes pragmáticos de um rei que seus escribas teriam medo de não elogiar.</p><p>Em certo momento, provavelmente depois de cair do cavalo com a queda do reino de Davi, o judaísmo fez com que sua escrita religiosa deixasse de ser só mero engodo às justificativas de divindade de um rei. Se fosse só isso, seria descartável e pouco útil quando o rei morresse.</p><p>Para os judeus, portanto, a religião era talvez mais frequente, mais útil, mais embrenhada nas burocracias do dia a dia. Servia não só aos momentos de poder, mas também para a manutenção de uma identidade cultural mesmo sob períodos de dominação.</p><p>Seus textos no geral e sua religião em particular (porque eram a mesma biblioteca, sem separação clara de rolos ou tábuas por gêneros) foram feitos para serem úteis não só aos líderes.</p><p>Foram pensados para resistir ao apagamento mesmo diante de pressões de povos conquistadores.</p><p>Para além das particularidades (questionáveis), é relativamente seguro assumir mais algumas coisas sobre os judeus daquele tempo.</p><p>Mesmo que fosse um panteão mais enxuto, no comecinho eram parecidos aos vizinhos enquanto um povo com mais de um deus. Eram parecidos ao contarem com uma mitologia que rimava bastante com aquela de todos os seus vizinhos de região.</p><p>Faz sentido. Vizinhos fofocam. Acabam influenciando as ideias uns dos outros. Intercâmbios religiosos acompanhavam as redes de trocas da economia de bens.</p><p>Cidades relevantes compunham variações de origens mitológicas que davam mais destaque e papel aos deuses dos templos de suas cidades.</p><p>Na cidade do templo de Baal, talvez o deus do trovão tivesse sido quem derrotou um grande monstro para salvar o mundo.</p><p>A mesma história podia ser contada com Baal enquanto secundário e Yahweh como protagonista se fosse contada na cidade onde ficava o templo de Yahweh.</p><p>Essas disputas ficavam em aberto por gerações e se fechavam como se nunca tivessem existido quando uma cidade caía e uma biblioteca queimava.</p><p>Para a posterioridade, ficava a história da cidade, e do templo, que durassem mais. E sobre os que não durassem, eventualmente era quase como se nunca tivessem existido.</p><p>No dia a dia, nessas disputas e variações sobre a “<em>lore</em>”, o paganismo era via de regra um sistema mais solto, em que diferentes interpretações podiam ser feitas sob uma mesma história mitológica por motivos políticos.</p><p>Com o passar do tempo e a depender do lugar, um deus poderia passar de herói a vilão, ou trocar de nome, ou misturar seu acervo de causos ao de um deus semelhante de um império próximo conquistado.</p><p>Essa dinâmica toda, essas trocas e fluxos, essas variações de quem é ou não parte da família “<em>oficial</em>”, não era diferente na mitologia anterior da qual surgiria logo mais o monoteísmo semítico.</p><p>Os mesmos panteões de famílias disfuncionais. As mesmas associações de deuses com elementos da natureza.</p><p>Os mesmos embricamentos com entidades de outros lugares, influências de outros deuses considerados suficientemente parecidos para sugerir um sincretismo no caso de uma aproximação cultural (ou de uma conquista), etc. Inanna, Astarte, Afrodite. Aquela coisa toda. Yahweh, Zeus e… Deus?</p><p>Sendo henoteístas, talvez por não gostarem de carregar mochilas tão pesadas, ou pra reduzir a quantidade de diferentes bonequinhos que precisariam manufaturar para vender na frente dos seus templos, os cananeus eram diferenciados mesmo só nisso que comentamos sobre terem menos deuses.</p><p>Pode ter sido por uma série de pequenos conflitos da região, talvez também por alguma preferência cultural mesmo, que os cananeus já daqui começavam a rumar a esse minimalismo.</p><p>Numa região de religiosidades compostas por panteões de muitos e muitos deuses, os deuses que os cananeus guardavam eram poucos, muito poucos.</p><p>E logo guardariam só um.</p><h4>Um monoteísmo babilônio de exilados</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*n2CBpPfmp8cQ72CJ4VPCng.jpeg" /><figcaption>Pintura de 1851 por John Martin de um Juízo Final associado, segundo ele mesmo, à destruição da Babilônia. A cidade em que o monoteísmo surgiu manteve importante lugar simbólico no imaginário da cultura de judeus que viveram ali como minoria entre os babilônios por tempo suficiente para assistirem ao império cair. <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/The_Great_Day_of_His_Wrath#/media/File:John_Martin_-_The_Great_Day_of_His_Wrath_-_Google_Art_Project.jpg">Imagem daqui</a>.</figcaption></figure><p>A versão mais provável da história diz que os judeus ainda eram politeístas quando tornaram-se povos conquistados, migrando na busca de lugares menos hostis entre impérios próximos.</p><p>Em relação ao império babilônio, os judeus ficavam numa situação bem parecida com aquela que teriam mais tarde junto aos romanos.</p><p>Ou seja, desproporção de poderio militar, dominação, hostilidades.</p><p>Mas uma troca que mesmo assim se estabilizou em dinâmicas de longo prazo.</p><p>Estável o suficiente para durar.</p><p>Foi enquanto estavam submissos aos babilônios, em um dos períodos de exílio depois da queda de um de seus reinos, que o politeísmo judeu transmutou-se num monoteísmo que foi origem daqueles que conhecemos hoje.</p><p>Situação influenciada sim por preferências culturais e religiosas mesmo. Mas também por circunstâncias históricas e burocracia.</p><p>Foi algo que se deu a partir de várias pequenas decisões feitas por várias pessoinhas ao longo de muitos e muitos anos.</p><p>Foi um processo caótico, longo e complexo.</p><p>Mas para simplificar, gosto de imaginar assim: num templo meio <em>underground </em>dos judeus num ermo cantinho babilônio, provavelmente existia algum sacerdote muito cínico e pragmático que via o monoteísmo como uma boa escolha porque simplificava a organização e a gestão da identidade cultural em exílio. E devia existir, no mesmo templo, um outro sacerdote totalmente descolado da realidade terrena que era apaixonado pela ideia do jeito mais poético e convicto possível. Os dois deviam discutir em tudo. Só nisso, concordavam.</p><p>Fosse por um motivo ou por outro, foi essa mesma homogenização padronizada do minimalismo monoteísta, erguida feito um cerco etéreo ao redor de textos tradicionais, forjada a ferro e fogo nas épocas e lugares em que viviam dominados, que permitiu que a identidade judaica continuasse viva durante tanto tempo.</p><p>Era assim que podia sobreviver a ideia “<em>ser judeu</em>” sem ser dissolvida, passando pra frente até escondida quando fosse necessário, em todos os impérios pelos quais os judeus se dispersaram.</p><p>E porque a pressão ao redor era grande e essa era a única ferramenta suficientemente forte para contê-la, os judeus que não foram assimilados e apagados pela história dos seus dominadores costumaram se tratar dos mais rigidamente apegados às suas identidades tradicionais.</p><p>(O que quer dizer, e essa é uma ironia à qual voltaremos, que eram também os mais resistentes às mudanças, inclusive e principalmente a qualquer postura de questionamento crítico e aberto com as bases tão antigas de sua identidade. Para preservarem tudo, mantinham o que seguia forte e o que era mambembe junto.)</p><p>Os judeus, teimosamente, insistiram em ser judeus mesmo quando foram jogados num pingue-pongue civilizacional de mudanças para lá e para cá pelo palco histórico dos impérios da região.</p><p>Impérios surgiram e sumiram.</p><p>Os judeus surgiram e não sumiram nunca…</p><h4>Ilíada, Antigo Testamento, Gilgamesh: como escrever best-sellers na Antiguidade</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*SZMxABsJSsrQ1WH8tNiy5Q.jpeg" /><figcaption>A fome em Samaria, pintura de Gustav Doré, 1866. O Antigo Testamento é um texto de sua época por excelência. Não perde em nada em violência, convicção e sucessão de desgraças a qualquer épico sumério ou grego. <a href="https://commons.wikimedia.org/wiki/File:096.A_Famine_in_Samaria.jpg">Imagem daqui.</a></figcaption></figure><p>Gerações sucessivas de editores enviesados e exigentes foram dando tapinhas em textos milenares para adequá-los às suas vontades.</p><p>Todo texto bíblico foi um Google Docs com liberdade de edição para centenas de pessoas ao longo de diferentes gerações.</p><p>Mais caótico ainda do que isso porque nem mesmo de um histórico de versões anteriores dispunha.</p><p>Textos foram editados para apagar deuses e deusas.</p><p>Histórias pagãs foram abandonadas.</p><p>Sumiu a deusa-consorte Aserá, por exemplo, que tinha um histórico rico de trocas culturais que a aproximavam da deusa próxima Astarte.</p><p>Até certo momento, antes desse abafado divórcio, foi ela a companheira daquele deus dos trovões (similar a um Zeus) que se tornaria logo mais o Deus único dos monoteístas.</p><p>Por que este deus especificamente?</p><p>A história envolve desentendimentos políticos e coincidências numa longa série de acasos culturais e históricos.</p><p>O panteão politeísta dos judeus foi o único entre aqueles da região que fez isso de tornar-se monoteísta de forma irreversível. O curto experimento egípcio é o único caso próximo de algo parecido, ainda assim bem menos significativo por ter sido revertido rápido.</p><p>Há uma série de teorias que tentam explicar quais foram as particularidades dos judeus que levaram a este estranho desenvolvimento que não se repetiu do mesmo jeito com o panteão de mais ninguém.</p><p>O panteão pequeno de partida que comentamos já é uma pista.</p><p>É mais fácil passar do plural para o singular quando seu plural já é reduzido.</p><p>E o exílio e a vida entre os babilônios costumam ser interpretados como fatos importantes, também.</p><p>Alguns dos textos mais antigos do que virou o Antigo Testamento foram escritos antes mesmo do monoteísmo.</p><p>Foram editados depois. Algumas dicas contextuais passaram. Versões mais antigas dos textos, de quando ainda eram politeístas, foram encontradas nos últimos poucos séculos.</p><p>Porque o desenvolvimento do mundo acadêmico viabilizou liberdade de pesquisa e pensamento suficientes, sabemos hoje muito mais sobre a transição do politeísmo para o monoteísmo do que soubemos em qualquer outro período da história.</p><p>Pesquisadores do mundo todo podem se debruçar sobre análise comparada para propor uma série vasta de influências entre diferentes textos antigos mais ou menos “aparentados” entre si.</p><p>A mitologia comparada faz o mesmo buscando possíveis associações mais simbólicas entre históricas e mitos de deuses próximos por características, espaço ou tempo. Recortes de estudos como todos os deuses na região do Levante. Ou todos os deuses do trovão na Idade do Bronze.</p><p>Há toda uma genealogia possível de se propor sobre os deuses e desenvolvimentos religiosos das religiões da Idade do Bronze.</p><p>E volta e meia, quando se desenterram novas histórias de alguma ruína, recuperamos contexto que fortalece algumas teorias enquanto enfraquece outras.</p><p>A região é particularmente propícia para isso, bem como os materiais mais antigos.</p><p>As coisas duram bem no deserto.</p><p>Ainda mais se forem tabuinhas de argila.</p><p>A história do mundo é normalmente escrita por apagamentos feitos por instituições que vencem.</p><p>Para instituições na história, inclusive, vencer significava controlar algum fluxo de informações e rescrever a história definindo o próprio papel.</p><p>Por isso, durante milênios tudo que pudemos ouvir sobre as religiões antigas era aquilo que tinha sobrevivido.</p><p>E o que tinha sobrevivido tinha sido curado e selecionado de forma enviesada por gerações de escolhas mais ou menos lúcidas, por parte da doutrina oficial dos monopólios religiosos instituídos.</p><p>Se algum bispo no ano 750 a.C. decidisse rescrever um manuscrito trocando de “<em>deuses</em>” para “<em>deus</em>”, isso afetaria todo o fluxo futuro de interpretações daquele texto.</p><p>Até todos esses esforços de milênios se tornarem fúteis diante da descoberta em ruínas do texto original por algum arqueólogo inconveniente.</p><p>Dois mil anos de instituições tentando editar e consolidar a versão “<em>certa</em>’ de um texto, ou de uma curadoria de textos.</p><p>E daí <em>boom</em>, alguém desenterra de algum cafundó algo como os Manuscritos do Mar Morto.</p><p>E você descobre bibliotecas inteiras dos textos apócrifos que, devido a um motivo ou outro, alguém em algum momento achou que eram melhores se deixados pra trás. Calados. Apagados dos registros.</p><p>A história dos perdedores de algum conflito por hegemonia e monopólio simbólico há milênios atrás. Apagada até os arqueólogos.</p><p>A incômoda história de variações diferentes de textos, às vezes no detalhe, às vezes drasticamente diferentes. Enterrada, por acidentes misturados a atos propositais, até ser desenterrada por arqueólogos.</p><p>E com isso, milênios de esforços de censura e controle da narrativa se esfarelam.</p><p>Graças à pentelhice de arqueólogos cavucando cavernas e ruínas.</p><p>Todos os principais textos bíblicos do Antigo Testamento possuem genealogias complicadas com uma infinidade de versões mudando de cadinho em cadinho.</p><p>Há hipóteses articuladas em denso academiquês para autorias prováveis em momentos históricos específicos. Para explicar versões diferentes a depender de qual cidade ou período.</p><p>Para dar um exemplo que acho divertido: uma teoria desacreditada hoje em dia correu à boca pequena nos corredores acadêmicos durante algumas gerações (por “culpa” principalmente de Harold Bloom, crítico literário que a popularizou).</p><p>Nela, argumentava-se que uma das primeiras pessoas a escrever o deus monoteísta poderia ter sido uma mulher, uma autora que a teoria nomeia enquanto J.</p><p>É difícil saber, até porque ela pode ter escrito um texto politeísta tornado monoteísta só mais tarde. Mas que há vários autores para certos livros bíblicos antigos, cada um desses autores anônimo representado por uma letrinha, isso é consenso acadêmico até hoje.</p><p>Às vezes, o que diferencia um autor de outro é chamar seu deus de El ou de Yahweh. A teoria é de que os textos foram redigidos quando estes talvez fossem ainda deuses diferentes. Os termos viraram sinônimos quando a divindade se tornou uma só.</p><p>Quando a teoria da autora J perdeu fôlego, a força da fofoca fez com que insistisse correndo mesmo assim. Só porque parecia legal.</p><p>Gosto da fofoca e não ligo se estiver errada.</p><p>Acho justo mencionar essa ideia simbólica, descrevendo esta possível sacerdotisa que viveu no palácio de algum dos reinos judeus. Como não dá pra saber com certeza, seja para um lado ou para outro, tudo pode ser.</p><p>O que se sabe é que, para um povo semítico hierárquico e patriarcal, há no Antigo Testamento mulheres demais. Míriam, Ester, Ruth. Para cada uma dessas que sobraram, outras muitas devem ter sido apagadas. A J da teoria pode não ser real, mas é real certamente alguma autora mulher de qualquer passagem bíblica que não foi devidamente creditada.</p><p>Um dos primeiros autores de Deus, portanto, pode ter sido uma mulher, uma sacerdotisa da corte de Salomão. Na corte, mulheres às vezes liam e escreviam.</p><p>Isso não impediria muita coisa na história dessa religião durante os séculos futuros.</p><p>Teorias, mais plausíveis ou mais estapafúrdias, só existem porque acadêmicos não param de cutucar os textos com todas as metodologias possíveis, de todos os lados possíveis.</p><p>Para cada parágrafo do Antigo Testamento, para cada cena e cada vírgula, uma interrogação sobre autoria, sobre edição, distorção, origem, influência, inspiração.</p><p>Quem lê o Antigo Testamento enquanto estudioso secular está caçando furos. Ou os ecos de mitos parecidos (a célebre semelhança entre o dilúvio dos judeus frente aos dilúvios das mitologias de diversos outros povos próximos).</p><p>Ou então os “<em>de/para</em>” entre a versão final de um texto e as versões primitivas que achamos em ruínas.</p><p>Os acadêmicos descobriram que textos do Antigo Testamento foram adaptados de politeísmos anteriores porque acharam indícios desses textos anteriores em ruínas.</p><p>Orações mais tarde sedimentadas como tradicionalmente monoteístas foram encontradas em amuletos politeístas mais antigos do que o Deus único.</p><p>Na época de Jesus, civilizações de judeus já tinham surgido, desenvolvido-se, alcançado seu apogeu e caído.</p><p>Mais de uma vez.</p><p>Mais de duas vezes.</p><p>Mais de três vezes.</p><p>E cada uma dessas tinha desenvolvido bibliotecas inteiras que foram levando adiante, como dava, para entregá-las aos próximos.</p><p>O povo judeu, agora sem seu próprio lugar, carregava esse legado de seus reinados por aí, enquanto serviente de novos impérios que os mantinham dominados.</p><p>Pelo menos uma vez devem ter pensado algo parecido ao que eu penso olhando todos os livros da minha estante toda vez que vou mudar de casa: <em>será que tem alguma coisa aqui que pode ficar pra trás na mudança?</em></p><p>O que sobrou de tantas mudanças, o que foi sempre considerado essencial de levar quando fizeram essa pergunta, esse legado dos reinados anteriores mantido em texto.</p><p>Esta é a biblioteca que com o tempo se consolidou na Torah.</p><p>O Antigo Testamento da Bíblia.</p><p>A biblioteca mitológica e cultural dos judeus, desenvolvida e adaptada a partir de uma mitologia politeísta anterior.</p><p>O que já tinha sido a religião de reinos. Ocupando bibliotecas inteiras em grandes templos.</p><p>Agora, a religião de um povo conquistado. Sendo carregada em versões de bolso para os lugares mais aleatórias nos quais judeus iam tentar viver e trabalhar.</p><p>Na ocasião do nascimento de Jesus, era a religião e a biblioteca de bolso de um povo conquistado pelos romanos.</p><p>A voz em texto de uma civilização da Idade do Bronze com toda fúria, intensidade, violência e convicção que a vida naquele mundo carregava.</p><p>O único tipo de intensidade capaz de sobreviver à queda de impérios (mais de um).</p><p>Uma resiliência teimosa inclusive nas suas promessas mais expansionistas e imperialistas, orgulhosas como a corte de príncipes militares, como os excessos de Salomão, mesmo nos momentos mais baixos de submissão.</p><p>O Antigo Testamento, portanto, está para os judeus mais ou menos como os textos mitológicos clássicos, talvez a Odisseia e a Ilíada em particular, ficam para os gregos. Como Gilgamesh, Enuma Elish e as poesias de Enheduanna ficam aos sumérios.</p><p>Com a diferença, talvez, de que esses outros povos com o tempo levaram suas mitologias para um lugar mais artístico de literatura.</p><p>E que nesses outros textos clássicos, mesmo quando havia leitura religiosa dos textos, esta sempre foi descentralizada.</p><p>Homero estabeleceu uma leitura de Zeus que deve ter norteado muito da religião grega. Mas não se estabeleceu uma casta dos sacerdotes homéricos instituindo e cobrando fidelidade religiosa à representação homérica de Zeus. Não era nem necessário, dado que esse era o Zeus do senso comum mesmo.</p><p>Mas para a sociedade hieráquica e diaspórica dos judeus, todo controle era pouco.</p><p>Só assim para não se dissolver. Para não sumir.</p><p>Uma tradição oral de milênios anteriores, convertida em texto quando a escrita se desenvolveu.</p><p>Um texto que sobreviveu às guerras, aos incêndios, à dominação, porque um grupo suficientemente grande de pessoas decidiu tornar-se minoria em qualquer lugar do mundo que fosse só para manterem-se, em identidade e em apreciação espiritual e poética, vinculados àquelas histórias e palavras.</p><p>Para mim, enquanto ateu, o que faz um texto sagrado não é um sopro caprichoso vindo de cima.</p><p>É uma inspiração milagrosa para alguém nos cafundós da história escrever algo lindo.</p><p>E a escolha milagrosa de leitores nos cafundós da história determinados a se inspirar por este algo lindo que foi escrito e fazer, às custas de tudo, com que esta beleza escrita persevere e prospere.</p><p>E nisso, o que chegou a Jesus já era uma tradição linda ao redor de textos sagrados.</p><p>Uma tradição que, como judeu de seu tempo, como indignado homem largado na periferia de um império, ele se engajaria apaixonada e criticamente.</p><p>E para a qual ele faria uma nova contribuição.</p><p>Uma contribuição que inspiraria uma nova biblioteca inteira.</p><h4>O mundo de milênios em que um Jesus gentil veio a nascer</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*JFR7-1aiYK7Vs_3aT00KVA.jpeg" /><figcaption>Montanhas galileias. Jesus nasceu e viveu na região da Galileia quando esta vivia conquistada e periférica diante do império romano. As paisagens que ele deve ter visto enquanto crescia era formada por desertos, montanhas, pastos, praias, cidades pequenas de pedra, plantações. Ele se acostumaria a ver ovelhas, cavalos, oliveiras, peixes. E romanos, e judeus, e escravos, e comerciantes de todo o Mediterrâneo que andavam para todos os lados do império. <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Upper_Galilee#/media/File:AmudHorses.JPG">Imagem daqui</a>.</figcaption></figure><p>Já sai de partida com suas contradições o Jesus pobre que nasceu nesse “terceiro mundo” da Antiguidade.</p><p>Este menino nasceu sob a sombra de um império gigante. Um império que, naquela época ainda poderoso, mesmo assim já carregava os indícios e as chagas de sua decadência.</p><p>A doença e a decadência já estavam lá. Só não tinham começado a manchar tanto a pele ainda. Que estava doente, era nítido. Não sabiam quanto tempo agonizaria antes de morrer.</p><p>O Jesus sob os romanos carrega as condições baixas de um povo dominado com memórias saudosas de já ter sido dominador.</p><p>À luz do sol, a humilhação e o jugo do chicote sob os romanos.</p><p>Nos armários e nos seus templos, nos cochichos dos sacerdotes em hebraico (a língua alta da tradição religiosa) ou nos cochichos em aramaico do povo pelas ruas: carregavam a herança antiga e que ninguém conseguiu matar.</p><p>Os romanos tentaram muito. Assimilavam religiosamente povos por abertura. Diziam que o panteão tinha se expandido para angariar os novos chegados. Os novos chegados se sintetizavam aos antigos mais populares e com maior endosso institucional. Fim do problema.</p><p>Qualquer medida de conciliação que parecesse compreensível no curto prazo teria sido desastrosa para a identidade do judeus a longo prazo. Quem se rendeu, apagou-se. Mas parte suficiente deles foi radical demais para conciliar.</p><p>Parte deles foi apegada demais a um livro/biblioteca cultural com a força convicta de um pulsante e visceral reino de Davi. E não estavam nem um pouco dispostos de dissolver esta força na rede com milhares de divindades dos romanos.</p><p>O Jesus que nasceu sob os romanos viveu também sob um mito cochichado de baixo com a promessa e as esperanças de, contra todas as circunstâncias, voltar a reinar de novo.</p><p>Um dia, antes das cidades existirem, antes dos judeus serem os judeus, ou dos hebreus serem hebreus, ou dos cananeus serem cananeus, houve um caçador-coletor e seu filho.</p><p>O caçador contou à sua criança uma história sobre a lua ser divina para explicar o mundo. Ele tinha escutado a mesma história de seu pai, que por sua vez tinha escutado uma versão parecida de seu avô.</p><p>Quinze gerações mais tarde, esta história era tradição oral entre fazendeiros e pastores de cabras. Das famílias que descendiam do que tinha sido o clã daquele caçador.</p><p>Algumas gerações depois, quando a chegou a escrita, inventaram de passar a limpo o telefone sem fio de tantas histórias.</p><p>E foram fazendo ajustes editorais no texto aqui e acolá dali em diante por motivos pragmáticos.</p><p>A ameaça de um rei.</p><p>O puxa-saquismo de um rei diferente.</p><p>A preferência estética de um escriba.</p><p>A queda de uma cidade.</p><p>O surgimento de uma cidade outra.</p><p>Um novo templo sendo erguido.</p><p>Mais um templo sendo derrubado.</p><p>O Jesus que nasceu já tinha, quando pela primeira vez ainda na infância foi apresentado ao seu contexto religioso, esta história toda.</p><p>Jesus nasceu já filho de alguns milênios.</p><p>E seria pai de uma nova história toda que duraria milênios mais.</p><p>(Talvez sem querer. Talvez só porque inspirou seguidores por demais inspirados, apaixonados, articulados e competentes.)</p><p>Entre todos os personagens desta história, entre os reis, líderes militares, escribas eruditos, poetas, milagreiros…</p><p>Foi Jesus, um qualquer, quem definiu tudo aquilo como tendo acontecido “<em>antes </em>”dele.</p><p>Nós, dos países marcados pela cristandade, não contamos o nosso calendário de acordo com o nascimento do rei. Ou a vitória de alguma grande guerra por algum líder militar.</p><p>Contamos os dias do mundo a partir do nascimento de um pobre.</p><p>O que é mais divertido ainda porque o mesmo contexto que gerou este homem pobre em particular também gerou vários praticamente idênticos.</p><p>Na época em que Jesus existiu, você podia levantar uma pedra em qualquer cidade da região dominada pelos romanos e encontraria debaixo dela uns quinze profetas apocalíticos rastejando e professando alucinações febris sobre o fim do mundo (e de Roma).</p><p>Há indícios sobre o Jesus histórico espalhados por registros de judeus e de romanos aos quais não dá para se ter certeza se falavam do mesmo cara. Porque podia só ser outro profeta apocalíptico parecido, pobre igual, inconsequente igual, que acabou na cruz também.</p><p>Não foram poucas as cruzes romanas que levantaram profetas, rebeldes, dissidentes ou só pessoas que iam passar uma mensagem ao serem crucificadas.</p><p>Entre todos, por que Jesus? Por que o cristianismo e não o “<em>outro-profeta-de-nome-parecido-crucificadismo”</em>?</p><p>Não se sabe ao certo.</p><p>Minha opinião é de que não deve ter sido só porque aquilo que Jesus fez ao chegar tornou tudo e todos antes meros prefácios do seu radicalismo reformador. Ele era mais um sintoma do seu tempo do que uma exceção tão revolucionária assim.</p><p>Mas talvez fosse um radicalismo de outra coisa que não exatamente de palavras. De visão de mundo. De primeira impressão a quem parava para ouvi-lo num mercado. De princípios. De timbre poético.</p><p>Talvez fosse só uma <em>vibe</em> que ele nem articulou direito.</p><p>Talvez ele só tenha sido desproporcionalmente “<em>gente boa</em>”.</p><p>Talvez bons mesmo fossem os dramáticos e exagerados escritores e poetas de uma geração posterior de judeus helênicos. Os apaixonados que perceberam o quanto tinham aí uma baita história com potencial para viralizar.</p><p>Ou talvez, em vez de só representativo, ou só reformador, ele fosse mesmo revolucionário. Tipo, revolucionário mesmo. De gerar confusão na rua. De atrapalhar o trânsito de pedestres que só queriam ir trabalhar.</p><p>Talvez ele tenha insuflado massas ao ponto de estar em vias de uma revolta de escravos, uma guerra civil, ou algo semelhante.</p><p>Talvez seja por esse risco de instabilidade política que os romanos se livraram tão rápido dele e de forma tão pública e cruel.</p><p>(Mas, que vale dizer, era a mesma forma pública e cruel de tratamento que davam pra qualquer zé ninguém que os incomodasse, o que dificulta até mesmo dizer que Jesus já fosse de qualquer forma excepcional no momento em que foi crucificado. Os romanos eram tão crueis nas suas torturas que eu já li uma teoria acadêmica sugerindo que a água que eles tomavam podia estar poluída de uma maneira que gerava redução da empatia. Sim, essa teoria existe, pode pesquisar).</p><p>Talvez, talvez, talvez.</p><p>É difícil dizer, é difícil dizer.</p><p>Difícil dizer porque gerações depois decidiram dificultar estas certezas.</p><p>Se Jesus era pacífico demais, na brisa boa do “<em>dar a outra face</em>”, alguém mais belicoso (provavelmente algum judeu apocalíptico revolucionário) achou que estava exagerado e resolveu editar o texto pra dar a ele um lado mais ativo com seu “<em>não trago a paz, mas a espada</em>”.</p><p>E se Jesus era bravo e insubmisso, alguém (provavelmente algum governante preocupado) resolveu deixá-lo mais “<em>paz e amor </em>”, dócil e domesticado, trazendo o lado do perdão, da parábola do filho pródigo, etc.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/490/1*NLP_Cm4hYBSd5LIt96X4jg.png" /><figcaption>Pintura do Mosteiro de Santa Catarina, no Egito. É a mais antiga (e mais famosa) representação de uma tradição de representação de Jesus conhecida como “Pantocrator”, grego para “em domínio de todas as coisas”. É célebre por tentar sintetizar num único semblante os lados ”<em>dar a outra face</em>” e “trago a espada” de Jesus. <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Christ_Pantocrator_(Sinai)#/media/File:Spas_vsederzhitel_sinay.jpg">Imagem daqui</a>.</figcaption></figure><p>É difícil conciliar o Jesus antipunitivista que diz que não pode julgar uma mulher e apedrejá-la, que convida só quem não pecou (ninguém) a puni-la…</p><p>… com este outro Jesus que está de forma muito aguda julgando os comerciantes das barraquinhas que ele sai arrebentando pela rua.</p><p>Mas o que é certo: aquilo que Jesus propunha se tratava de um projeto triplo entre política, religião e poesia.</p><p>Era um projeto dessas três coisas porque essas três coisas não eram em absoluto separadas na época.</p><p>Ninguém podia dizer “<em>vou fazer só política, sem me meter em cultura</em>”, ou “<em>vou fazer poesia bonita que não tem nada a ver com religião</em>”, ou “<em>vou ser um político laico</em>”.</p><p>Nada disso. Era tudo a mesma coisa.</p><p>Jesus foi <strong>político </strong>porque: propunha uma utopia pouco pragmática após a queda do decadente império romano.</p><p>E foi <strong>religioso</strong>: sugeria uma “<em>atualização nos termos de uso</em>” para a tradição dos textos sagrados judaicos que Jesus achava que, por mais impressionantes que já fossem, estavam necessitados de uma repaginada.</p><p>E ainda foi autor de um projeto <strong>poético</strong>: pois seu método consistia em existir e se comunicar via parábolas.</p><p>Parábolas produzidas da forma mais bonita possível, da maneira mais críptica e hermética possível.</p><p>Tanto quanto, paradoxalmente, da maneira mais compreensível e acessível possível.</p><p>Consistia em falar sobre as ideias de compaixão e de internalização das virtudes.</p><p>E ele falava sobre estas virtudes todas em contraste declarado à conformidade burocrática e acomodada, em voga na época pelos judeus “<em>fariseus</em>” e já sedimentada há séculos pelos romanos, de só performar rituais vazios para os outros verem.</p><p>(A verdade é que os fariseus já eram bastante moderninhos. A impaciência de Jesus com eles é mais uma consequência do radicalismo dele próprio. Frente aos fariseus, Jesus funciona mais ou menos como um radical anarquista de extrema esquerda frustrado com as concessões e hesitações de uma esquerda moderada. Os editores das gerações seguintes, especialmente quando entraram no meio os gentios, também gostavam de enfatizar injustamente os fariseus como antagonistas, então não sabemos o quanto da briga foi exagerado nas fofocas que vieram depois.)</p><p>O projeto defendia as ideias de compaixão mais alienígenas possíveis ao seu contexto, enquanto absolutamente possuído por uma visão (que pode ser classificada de forma anacrônica como talvez psicótica) de si mesmo como parte da última geração viva antes de um vindouro apocalipse.</p><p>Mas se era psicose, não era só dele. Era um delírio coletivo.</p><p>Jesus não foi o primeiro e nem o último a acreditar nisso. E fez gente que não acreditava sozinha passar a acreditar quando ao seu redor.</p><p>Mas o que ele tinha de talvez mais diferente, o que realmente era único seu para além de qualquer comparação, eu penso que pode ter sido sua proposta diante do fim.</p><p>Diante do apocalipse, para Jesus só restava a gentileza.</p><p>Era esta vírgula gentil que Jesus adicionaria à história sobre o mundo.</p><p>Esta vírgula viria a uma história que um de seus antepassados começou a bolar milênios mais cedo, antes mesmo de erguerem as primeiras cidades.</p><p>Os judeus ergueram e perderam cidades e civilizações antes deste adendo gentil chegar.</p><p>Levando a resiliência das ideias daquele povo a uma nova potência irrefreável, imortal e expansionista, este adendo gentil sobreviveria a qualquer incômodo. Tornou-se um marco geracional. O tom deste texto todo, em que temos alguma expectativa sobre o quanto de dignidade pessoas comuns merecem, não faria sentido antes de Jesus. Quem enfiou de vez na história que pessoas comuns merecem dignidade foi, sobretudo, ele.</p><p>Sobreviveu a todos os caprichos, vontades de apagá-lo, ou distorcê-lo, que possam ter acometido editores mais imperialistas e sem paciência ao longo da história toda dali em diante.</p><p>Apesar de todos eles, de tanta gente, e de tantas tentativas de neutralizá-lo, a essência da voz de Jesus resistiu e foi carregada com algo de si ainda intacto até os dias de hoje.</p><p>Una inovação tão resistente e insistente não ia ser logo de cara bem-recebida por todos.</p><p>Antes das estratégias mais refinadas que tantos tentariam mais tarde, a primeira aposta para apagar a vírgula gentil de Jesus seria a da violência.</p><h3>2. Durante Jesus</h3><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*PgnqubZMXwN_ZO1IWeBD3g.jpeg" /><figcaption>Esta é a representação visual de Jerusalém de acordo com o mapa de Madaba, um mosaico do século VI encontrado em uma igreja bizantina. Imagem <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Madaba_Map#/media/File:Madaba_map.jpg">daqui</a>.</figcaption></figure><p>Cidades pequenas e médias.</p><p>Galileia, uma província de pouca relevância.</p><p>Intensas redes de comércio.</p><p>Trabalhadores manuais em lojinhas.</p><p>Ovelhas, cavalos e camelos.</p><p>Areia. Mar. Oliveiras. Oásis aqui e ali com palmeiras.</p><p>Mendigos pedindo comida nas ruas.</p><p>Romanos passando esnobes entre multidões da patuleia.</p><p>Foi num mundo assim que Jesus nasceu e cresceu.</p><p>Agora, o que virá vai ser um chute educado tentando responder o seguinte:</p><p>O que pode ter sido para Jesus viver naquele mundo?</p><p>(Vai ser um pouco menos denso daqui em diante.)</p><h4>O currículo linguístico de um judeu antigo médio</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/580/1*jnSjTyeQWkyBMSqsWVoYiQ.jpeg" /><figcaption>Uma página em papiro do Novo Testamento, especificamente uma passagem de Coríntios, escrita em grego. Por volta de 175 a 225 DC. <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Koine_Greek#/media/File:P46.jpg">Imagem daqui</a>.</figcaption></figure><p>O Jesus que nasceu era parecido com um brasileiro médio.</p><p>Sério:</p><p>Um brasileiro tem a língua dele (o português brasileiro), um dialeto insular e periférico pouco relevante no palco global. Jesus tinha no aramaico, língua popular sem poder político, a mesma coisa.</p><p>Se Jesus nascesse no Brasil de hoje, ele nunca se daria ao trabalho de aprender inglês. Continuaria falando português. Os outros que se lascassem tentando traduzir depois.</p><p>O brasileiro, se for católico, está vinculado ainda a uma igreja que trata uma língua antiga, já fora de moda, como a base sagrada de sua religião. E apesar da maioria dos brasileiros serem católicos, pouquíssimos falam latim. Jesus tinha no hebraico, língua religiosa dos templos que quase não corria mais pelas ruas, a mesma coisa.</p><p>Se Jesus nascesse no Brasil de hoje, ele talvez aprendesse uma coisa ou outra de latim por ser muito católico, a sua religião como a da maioria das pessoas ao seu redor. Mas ele muito provavelmente não seria expert em latim, longe disso.</p><p>Então ele devia saber uma coisa ou outra de hebraico.</p><p>Eu acho que ele devia saber ler uma coisa ou outra, o que já é um diferencial para a época. Mas ele mesmo provavelmente não daria conta de ler a Torah sozinho. E esse ponto é contestado, não tem hipótese que se destaque. Ele podia ser letrado tanto quanto podia não ser…</p><p>No Brasil de hoje, o francês é uma língua franca decadente (que deixou como maior legado o termo “<em>língua franca</em>”). Jesus tinha no grego, língua do império anterior, ainda respeitada e vista como elegante, algo parecido.</p><p>Eu imagino que ele provavelmente não falasse grego, como um brasileiro médio dificilmente falaria francês, mas os ecos de uma época anterior de apogeu desta língua ainda estavam presentes na sua cultura.</p><p>Talvez falasse uma coisinha ou outra, se conviveu com algum judeu helênico…</p><p>Mas certamente Jesus não estava arrotando parábolas eruditas em grego para os pescadores analfabetos com quem convivia.</p><p>E se no Brasil de hoje um brasileiro teria alguma ciência de inglês, porque é a língua do império decadente que busca nos dominar e que projeta sua sombra sobre nossa realidade “<em>terceiro-mundista</em>” e “<em>periférica”…</em></p><p>Jesus teria a mesma coisa no latim. O latim era a língua do conquistador no mundo de Jesus. Se os pais dele tivessem sido ricos (não foram), talvez Jesus tivesse feito o cursinho em latim equivalente ao que seria hoje a Cultura Inglesa de um adolescente paulistano de classe média. Cultura Latina?</p><p>Jesus falava aramaico.</p><p>Tinha alguma vinculação, por razões culturais e religiosas, ao hebraico.</p><p>Os mais apaixonados dirão que ele era fluente em hebraico, que lia a Torah sozinho e discutia com mestres do templo sobre desafios teológicos.</p><p>Difícil saber se era o caso mesmo.</p><p>(Acho que não. Ele devia arranhar só uma coisa ou outra.)</p><p>Prefiro pensar que ele sabia ler a Torah, que era só um pouquinho melhor do que um camponês qualquer no hebraico.</p><p>O suficiente pra algum senhor dizer para Dona Maria que o filho dela era bastante inteligente, elogio que o menino Jesus ouviu de canto e pode ou não ter subido à cabeça o suficiente para fundamentar sua jornada rumo a se tornar um messias.</p><p>Há uma história no Novo Testamento em que Jesus aparece em cena escrevendo.</p><p>Não se diz o que ele escrevia.</p><p>Talvez algum editor cristão depois tenha julgado melhor jogar aquele texto fora. Talvez a escrita do texto em si, naquela cena como foi descrita, tenha sido invenção de um editor em cima da história original que ouviu no telefone sem fio.</p><p>Não dá pra saber.</p><p>Jesus não falava a língua em que seu Novo Testamento seria escrito.</p><p>A primeira vez que o mundo leu sua história, portanto, já foi traduzida (e distorcida) do aramaico para o grego.</p><p>E Jesus definitivamente não falava latim, a língua do império decadente que ele absolutamente desprezava.</p><p>No meio de todos os “<em>não se sabe</em>”, eu afirmo com certeza, com lastro de convicção poética somente, que Jesus detestava profundamente o Império Romano.</p><p>Preferiu acreditar que o mundo estava acabando naquela época mesmo.</p><p>Escolheu pensar assim porque achou que isso era mais bonito do que acreditar que aquele império decadente e cruel seguiria existindo por uma geração a mais.</p><p>E foi no umbigo imperial dos romanos, em latim, que o cristianismo se desenvolveu, sobreviveu e propagou.</p><p>A língua latina que nele deveria gerar arrepios na espinha (um oficial romano falando latim nunca estaria lhe dizendo “<em>judeu bonzinho, que homem fofo é você</em>”) é agora a língua que um brasileiro ouvirá dentro de uma missa tradicional numa igreja católica.</p><p>As ironias começam por aí.</p><h4>Uma vida simples antes da vida pública</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*El4_UO0QdVK5cmCHF2sAfw.jpeg" /><figcaption>Apesar de inventada, a história do Jesus criança no templo discute temas simbólicos reais à mitologia lírica de Jesus, como a diferença entre a confortável e cosmopolita vida de um fariseu responsável por um grande templo e a vida paupérrima de uma família comum tal qual a de Jesus. Essa pintura do motivo, de William Holman Hunt em 1854, foi toda feita para explorar este contraste. É uma fábula sobre desigualdade e marginalidade institucional. O Jesus histórico nunca recebeu formação oficial em templo nenhum e seu diálogo com textos sagrados veio por iniciativa própria, distante dos centros de poder religioso da época. Propenso aos diálogos, ele não deixou nada escrito. Estava mais para Sócrates gritando pelas ruas (em argumento, seria quase um Diógenes) do que para Platão confortável na escolinha. <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/The_Finding_of_the_Saviour_in_the_Temple#/media/File:William_Holman_Hunt_-_The_Finding_of_the_Saviour_in_the_Temple_-_Google_Art_Project.jpg">Imagem daqui</a>.</figcaption></figure><p>O Jesus da história provavelmente era de Nazaré.</p><p>Seu nascimento e sua infância foram distorcidos e editados de todos os jeitos possíveis depois de sua morte. Tudo só para tentar encaixá-lo melhor no papel que se esperava de um líder messiânico.</p><p>O cargo “<em>messias</em>” já vinha com requisitos. Quando os seguidores do cristianismo primitivo perceberam que Jesus não se encaixava em todos eles direito, eles mentiram no currículo e ganharam a vaga mesmo assim.</p><p>Então ele não era de Belém.</p><p>Não recebeu presentes de reis magos.</p><p>Sua mãe provavelmente não deu uma fugidinha pro Egito quando ele era bebê.</p><p>E sua mãe provavelmente não era virgem.</p><p>O fascínio com a infância de Jesus era tamanho que a própria Igreja teve que dar uma segurada nas fábulas.</p><p>Uma parte considerável dos textos apócrifos que foram desconsiderados na curadoria para o Novo Testamento era de causos do Jesus infantil, brincando de fazer milagres com seus amiguinhos pelas ruas de terra.</p><p>Na versão mais aceita hoje em dia, só sobrou a história dele criança discutindo em profundidade os textos religiosos com os sacerdotes de um templo.</p><p>A história é uma fábula que carrega alguma sementinha de verdade se levada em conta enquanto metáfora. Jesus realmente representava uma juventude que vinha tentar rediscutir e repaginar ideias antigas.</p><p>Mas antes disso tudo, ele era só criança.</p><p>Minha história não-canônica favorita é de uma ocasião em que Jesus teria matado sem querer uma criança que tocou nele pelas costas durante um jogo de rua.</p><p>Tocou, morreu.</p><p>E depois ele ressuscitou a criança como se fosse só parte do jogo. Outro dia normal para a infância dos nazarenos com milagrinhos do Jesusinho.</p><p>Os judeus do mundo em que Jesus foi criança eram oprimidos e infelizes sob o punho dos romanos, mas pelo menos não eram escravos.</p><p>Então imagino que pra eles a situação horrível poderia ser vista como já tendo sido pior.</p><p>Os romanos gostavam de impostos e de corrupção.</p><p>Nessa época, estavam menos preocupados do que já tinham estado em outros momentos com aquela ideia toda de assimilar cultualmente os judeus apagando-lhes sua religião.</p><p>Não que isso tivesse saído totalmente da cabeça dos romanos. Só tinha descido na lista de prioridades.</p><p>Depois de uma série de perseguições e massacres, eles tinham visto que o esforço não compensava. Seria difícil porque os judeus eram teimosos.</p><p>Outros desafios difíceis eram mais urgentes. Tipo tentar evitar que seu império decadente terminasse de colapsar. Prioridade número um, já meio bamba naquela época.</p><p>Os judeus sob este império romano viviam em profissões das mais diversas.</p><p>Pescadores, trabalhadores braçais e também uma série de profissões artesanais.</p><p>Como a dos carpinteiros.</p><p>José, marido de Maria, talvez fosse carpinteiro mesmo. Não se sabe ao certo. Acadêmicos discutem que talvez não, mas uma profissão artesanal média semelhante, algo muito comum para judeus da classe dele na região.</p><p>Dá na mesma, sendo semelhante. Então prefiro pensar nele carpinteiro.</p><p>Jesus deve ter exercido a profissão por um bom tempo na juventude antes de se encafifar com essa ideia poética de virar profeta.</p><p>A mãe de Jesus, Maria, provavelmente era de uma família de judeus de classe média. Certamente não era paupérrima como tradições posteriores a pintaram sendo, mas não era também rica.</p><p>A classe (e o casamento com José, que provavelmente casou por piedade) a protegeram do escândalo e do ostracismo devido a um filho sem pai.</p><p>(Jesus.)</p><p>O mistério sobre o pai de Jesus é um que nenhum acadêmico se atreve a tentar resolver.</p><p>Mas há teorias.</p><p>Uma delas diz que deve ter sido um soldado romano chamado Pantera.</p><p>Gosto demais dessa teoria e entendo o motivo dela ser popular.</p><p>Não por ser mais plausível (é tão impossível de corroborar quanto qualquer outra), mas pelo simbolismo da coisa toda.</p><p>É gostoso pensar que Jesus, com tudo que se tornou, possa ter sido o bastardo escondido de um romano. Que o judeu que viraria o centro religioso do império já carregava esse império no sangue de alguma maneira.</p><p>Mas isso é realmente fanfic acadêmica.</p><p>Não dá pra saber.</p><p>Sabemos que Jesus nasceu e cresceu com Maria e José. Que viveu a vida de um judeu da sua região da maneira que deve ter sido a mais banal possível.</p><p>Ele deve ter acompanhado a mãe às visitas religiosas no templo.</p><p>Deve ter conversado com moleques pelas praças da cidade.</p><p>Deve ter ficado nervoso com uma bronca que levou de seu pai adotivo depois de ter feito alguma merda na oficina.</p><p>Deve ter andado pulando pelas ruas conversando com seus amigos.</p><p>Deve ter ido ao mar em dias de calor.</p><p>Deve ter aprendido a pescar.</p><p>Deve ter se emocionado ouvindo histórias de seu povo.</p><p>Deve ter ficado entediado num casamento de família ao qual foi obrigado a comparecer.</p><p>Deve ter visto romanos humilhando judeus pelas ruas.</p><p>Deve ter visto os corpos de profetas e dissidentes expostos como avisos a apodrecer.</p><p>E deve ter ouvido de sua mãe, preocupadíssima, que sempre ficasse de cabeça baixa quando um romano o abordasse.</p><p>Deve ter ouvido a ordem de que não se metesse nessas discussões que davam problemas.</p><p>Deve ter aprendido e cantado melodias.</p><p>As religiosas, certamente, e provavelmente as populares que ouviria nas festas de rua.</p><p>A própria Bíblia diz que Jesus teve irmãos.</p><p>Editores tentaram apagar isso, mas sobraram algumas poucas menções, sem se aprofundar nem um pouco, resquícios da vida familiar de Jesus entre um Evangelho ou outro.</p><p>Ele deve ter tido brincadeiras e richas com seus irmãos.</p><p>Jesus namorou? Não sabemos.</p><p>Talvez sim. Eu penso que provavelmente.</p><p>O Jesus que gosto de imaginar é um que vivia uma vida simples e normal até lá por volta dos vinte e nove anos. Que era bem integrado em sua comunidade, conhecido pela tia da esquina, pelo padeiro da rua de baixo, pelo moleque na pracinha brincando com o cachorro.</p><p>Que cumprimentava os pescadores pelo nome quando passava por eles na praia e que ouvia de volta deles, sorridentes, algo do tipo “<em>opa, Jesus! E aí, como tá dona Maria?</em>”, ao que ele responderia que ela estava muito bem, sim. Talvez perguntasse se a esposa do pescador estava bem também.</p><p>Do Jesus histórico só sabemos: nasceu.</p><p>E aos trinta anos apareceu na vida pública.</p><p>Daí em diante sabemos bastante.</p><p>Quando apareceu na vida pública, José já sumiu da história.</p><p>Provavelmente morreu antes. Dada esta morte, Jesus provavelmente tinha uma relação de responsabilidade para com a mãe, junto aos irmãos.</p><p>Uma das referências remanescentes da família de Jesus no Novo Testamento conta de Maria indo com os irmãos dele tentar resgatá-lo, quando começou a dar-se de profeta, porque temiam que ele estava ficando maluco.</p><p>Estava Jesus ficando maluco? Apaixonando-se pela poesia? Pelo lirismo que ouvia nas frases cantadas por profetas nas ruas? Estava Jesus perdendo a noção do risco, do perigo?</p><p>Se Jesus tinha ambições mais cedo de vida pública, de fazer da boca a poesia espiritual e política do seu temo, de usar parábolas para jogar indiretas aos romanos e fariseus, tudo iss ele parece ter deixado de lado até os trinta anos.</p><p>Talvez por causa dos irmãos.</p><p>Talvez por causa da mãe.</p><p>Quem o mudou foi João Batista.</p><p>Isso é consenso dos estudiosos. A religião que viria a ser o cristianismo na verdade começa não em Jesus, mas em João.</p><p>Foi João o líder original do movimento que Jesus herdaria. Era amigo de dos parentes de Jesus e eles já tinham se visto algumas vezes ao longo da vida.</p><p>Jesus era o menino mais rural, da cidade pequena.</p><p>João Batista tinha todas aquelas ideias febris e efervescentes de quem vem da grande cidade.</p><p>De quem chega pro casamento da tia Ruth contando todas aquelas belezas loucas que estão sendo discutidas lá longe.</p><p>Em algum momento, Jesus decidiu se juntar ao movimento de João Batista.</p><p>O Jesus histórico, enquanto ser humano comum, enquanto um judeu médio de Nazaré vivendo uma vida simples de carpinteiro, morreu no dia em que foi batizado o Jesus, futuro messias, que seria parte do movimento apocalíptico de João.</p><p>João, ele mesmo, carregava todas as contradições da época.</p><p>Ao contrário da forma selvagem como se habituou representá-lo, era mais urbano do que Jesus. Apesar de sua retórica inflamada de profeta apocalítptico, o ritual que ele insistia em realizar era da beleza mais simples e modesta possível: um banho de purificação em águas abençoadas por palavras.</p><p>Momentos singelos de limpeza.</p><p>Os editores da Bíblia mais uma vez deixaram escapar outro desses acidentes da origem primitiva do cristianismo quando mantiveram a fala de Jesus garantindo que João era “<em>o maior dos homens filhos de mulheres”</em>.</p><p>Para um leitor religioso, dá pra pensar que isso exclui o próprio Jesus (apesar dele mesmo ter nascido de Maria, mas seria o deus um homem na mesma categoria para ser comparado)? Para mim, a leitura sem fé permite um caminho interpretativo ainda bonito.</p><p>Este caminho em que, sendo um homem e humano, também nascido de mãe, Jesus olha pro seu mentor e diz que o admira. Que o percebe como maior do que ele mesmo.</p><p>O Jesus batizado não voltou a fofocar com os pescadores na orla sobre como estavam filhas e esposas. Algo de cotidiano e humano foi perdido nele quando se rendeu à poesia intensa das parábolas que o levaria à fama e à morte. Se não era radical antes nas entranhas, nesse momento radicalizou-se.</p><p>Sem João, gosto de pensar que Jesus talvez teria seguido vivo para envelhecer como um judeu qualquer, trabalhando como carpinteiro, indo à padaria, cuidando da mãe na velhice, talvez tendo filhos, conversando na orla com os pescadores sobre um dia muito nublado que não estava, literalmente, para peixe.</p><p>Deixo para os leitores decidirem se este Jesus banal, que a história esqueceria no meio de tantos, teria sido mais ou menos feliz.</p><p>Mas garanto que ele teria sido menos poeta.</p><h4>Assumindo o manto de Batista</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*5-FDVePYY26e4nFxkEPOCg.jpeg" /><figcaption>Batismo de Cristo por Batista. É minha representação favorita por um brasileiro. Por José Ferraz de Almeida Júnior, 1895. <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Almeida_J%C3%BAnior#/media/File:El_bautismo_de_Jes%C3%BAs,_por_Jos%C3%A9_Ferraz_de_Almeida_J%C3%BAnior.jpg">Daqui</a>.</figcaption></figure><p>Jesus começou a ouvir palavras bonitas.</p><p>Nas ruas, nos batismos, nos encontros tarde da noite para beber vinho.</p><p>Talvez antes ele já soubesse antes de se envolver com Batista que tinha esse dom.</p><p>Ele pode ter algum dia deixado escapar algum insight particularmente bonito na mesa do almoço, conversando com sua mãe, com um dos seus irmãos. Talvez mandasse uma poesia dessas volte e meia, sem querer, a algum bom cliente da carpintaria.</p><p>Mas foi ao lado de João que ele parece ter se apaixonado de verdade pela poesia toda da coisa.</p><p>Por isso de falar às multidões.</p><p>De desenvolver poderosas e acessíveis parábolas.</p><p>De descrever sentimentos e sabedorias de jeitos tão simples e bonitos que eram capazes de levar pescadores a chorar.</p><p>Talvez essa paixão melódica tivesse também o lado bélico. Com Jesus, como já vimos, nunca dá pra saber onde está a linha entre a paz e a espada. O Jesus que descobriu seu dom de poeta talvez tenha sentido nisso algum poder. Aquele quentinho de quem pensa em escrever panfletos revolucionários.</p><p>Independente das intenções, é verdade que Jesus, como todo bom poeta de rua, estava provavelmente fazendo mesmo muita gente chorar e ter pensamentos revolucionários.</p><p>Talvez ao mesmo tempo…</p><p>No começo, Jesus deve ter sido mais ou menos um assistente de profeta para Batista.</p><p>Deve ter sentido admiração ao ver seu mentor batizar pessoas e dizer coisas bonitas.</p><p>Quanto das coisas bonitas ditas por Jesus foram influência ou referência direta a Batista, não sabemos.</p><p>(Isso não impede um monte de acadêmicos e teólogos de ficarem tentando descobrir.)</p><p>Talvez Batista tenha radicalizado em profecias apocalípticas um Jesus que chegou meigo e caloroso, com a aura de queridinho do bairro.</p><p>Talvez Jesus tenha chegado radicalizado com vontade quente de ser ativista e tenha sido Batista quem o humanizou e suavizou.</p><p>Talvez ele fosse as duas coisas de partida.</p><p>Talvez fosse só uma e nunca tenha sido a outra (e achemos que foi pela malandra edição de alguém posterior).</p><p>De novo, não sabemos.</p><p>Jesus foi em algum momento, de alguma maneira, seduzido para esse mundo das atividades de profeta de rua (uma classe em si mesma para a cultura dos judeus, os nabis, uma mistura entre “<em>doidinho da rua</em>”, ator de teatro popular, e profeta pregando aos gritos no centro da cidade).</p><p>Tenho para mim que a mãe dele não deve ter gostado nada dessa história de “<em>viver de poesia profética, parábolas e visões apocalípticas</em>”.</p><p>Ainda mais tendo em vista o grau de punição que os censores da ditadura romana impunham.</p><p>Deve ter sido um sentimento parecido ao que sentiria, durante a ditadura, uma mãe brasileira de um jovem de classe média, caso este jovem quisesseo abandonar um emprego perfeitamente estável como funcionário público para ao em vez disso ir fazer música política.</p><p>Talvez o próprio Jesus tenha sentido medo em algum momento.</p><p>Receio.</p><p>Vontade de voltar a ser só um carpinteiro antes que fosse tarde de mais.</p><p>Fico tentado a acreditar nesse Jesus mais receoso e melancólico que nunca se rendeu a um fanatismo febril forte o suficiente para cegá-lo dos riscos.</p><p>Parece ter sido um Jesus lúcido quem falou em metáforas muitas vezes como forma de agir “<em>feito sabonete</em>”, como sabe bem fazer o brasileiro. Era um malandro quem conseguia passar liso diante de seus censores.</p><p>O jogo duplo de sentido de Buarque na música brasileira Cálice, pra escapar da ditadura, não é muito diferente do jogo duplo das parábolas de Jesus para escapar dos romanos.</p><p>Há uma história famosa de Jesus realizando um milagre, curando um cego e pedindo pra ele manter a história toda à boca miúda. Não era sair espalhando por aí.</p><p>Como metáfora, faz todo sentido que um Jesus poeta lúcido, ciente do perigo romano, quisesse continuar voando abaixo do radar.</p><p>Esse Jesus jogava indiretas contra poderes que poderiam exterminá-lo se falasse abertamente demais. Falava contra os fariseus (os defensores que entendia como rígidos do texto judaico), sendo ele mesmo de certa maneira parte do grupo deles.</p><p>Enquanto os outros eram rígidos com palavras e com costumes, Jesus era radical ao sugerir uma rigidez interna, introspectiva.</p><p>Ele defendia a internalização da palavra, mais do que a performance dela.</p><p>Jesus defendia respeito autêntico e profundo, não conformidade superficial às leis sociais do que “<em>pega bem</em>”.</p><p>Jesus acreditava que o mundo estava prestes a acabar.</p><p>Não como um metáfora. Mais como literalmente acabar. Tipo, talvez já na semana seguinte. Ou na próxima depois dela.</p><p>E diante dessa eterna iminência do fim, diante do Julgamento que este fim traria, tornava-se fútil tudo que não fosse a gentileza e a internalização digna da verdade, da beleza e da poesia.</p><p>Jesus falava como se o mundo fosse acabar. Amava como se o mundo fosse acabar.</p><p>Porque acreditava que o mundo ia acabar mesmo.</p><p>Outros profetas faziam o mesmo. Há muitos semelhantes a Jesus no quesito da urgência.</p><p>O que parece ter sido dele especificamente foi essa ideia de que a urgência exigia gentileza.</p><p>Que o jeito urgente de lidar com o fim do mundo era dar a outra face, amar uns aos outros, superar o teatrinho corrupto das fofocas e das picuinhas dos templos.</p><p>O templo de Jesus não era um lugar físico.</p><p>O reino de Deus que ele propunha não era Jerusalém.</p><p>Era algo ao mesmo tempo interno, no fundo de nós e no fundamento de nossa vida nesse mundo, vinculado e sinônimo a algo transcendental, além das fronteiras da nossa realidade.</p><p>Jesus propunha isso, o vínculo e o sinônimo entre o fundo de nós e o transcendental “<em>lá fora</em>”.</p><p>Para ele, não existia esse dentro e fora.</p><p>Éramos todos, mesmo os mais banais, igualmente transcendentais.</p><p>Carregávamos todos a semente da beleza e da poesia divina.</p><p>Éramos todos filhos de Deus.</p><p>A vida pública de Jesus durou mais ou menos três anos, dos trinta aos trinta e três.</p><p>Tudo que temos de mais seguro sobre a vida dele, historicamente falando, é desse período de trinta e poucos meses.</p><p>Tudo antes é invisível, de quando Jesus era só outro dos comuns.</p><p>Tudo depois é saturado na potência do dogma e do mito.</p><p>Em trinta e poucos meses, Jesus caminhou com pobres, mendigos, prostitutas, comerciantes, cobradores de impostos, pescadores.</p><p>Fez multidões no meio da rua para cantar suas poesias em parábolas.</p><p>Imagino que ouvi-lo tenha sido inesquecível para qualquer um que teve a chance.</p><p>Em algum momento dessa carreira, seu mentor foi capturado e morto.</p><p>E ao que parece, segundo os acadêmicos, uma discussão rápida entre os seguidores resolveu passar o manto e o cargo a Jesus.</p><p>Este foi o ponto de não retorno.</p><p>E gosto de imaginar que Jesus assumiu o manto de seu líder estando muito lúcido sobre o que estava fazendo.</p><p>Talvez não estivesse. Alguns acadêmicos mais cínicos podem dizer que ele estava tão mergulhado no seu radicalismo apocalíptico febril que não tinha mais medo de morrer. Eu acho que não faz tanto sentido, não só porque prefiro esteticamente outra coisa, mas também pelo que sabemos sobre Jesus mesmo.</p><p>Mas eu prefiro o Jesus hesitante, melancólico e vulnerável.</p><p>Em comparação com outros profetas, por exemplo, ele sempre foi menos propenso a ter visões, epifanias, alucinações visuais intensas (coisas comuns aos nabis).</p><p>O que ele dizia, mesmo quando transcendental, nunca perdeu também o elemento “<em>pé no chão</em>”.</p><p>Portanto, prefiro e acho mais plausível o Jesus que olhou ao manto que lhe era oferecido sabendo que era algo perigoso, mas que aceitou vesti-lo mesmo assim.</p><p>Que aceitou vesti-lo não porque não tinha medo da morte, mas porque amava demais a poesia do que fazia, o efeito de esperança e dignidade que sua jornada trazia ao seu povo, e estava disposto a se arriscar e se sacrificar por isso.</p><p>O Jesus sozinho no deserto, introspectivo para decidir seu futuro, refletiu sobre a cabeça rolada de Batista. E sobre a sua própria, que seria a próxima na fila.</p><p>O Jesus sozinho no deserto, levantando para voltar aos seus apóstolos com sua próxima leva de palavras bonitas…</p><p>Palavras bonitas que ele esperava que pudessem acalentar o coração daquela gente sofrida.</p><p>Mesmo se ele tivesse que morrer por isso.</p><p>O Jesus que se rende à incerteza e à beleza de sua missão faz isso plenamente ciente que as lideranças seus rivais entre os fariseus, e ainda mais os romanos, não eram gente tão afeita à poesia assim.</p><p>Ao voltar do deserto e assumir o manto de seu líder, algo mais desse Jesus é perdido.</p><p>Fica mais resignado e intenso, ao que parece.</p><p>Se tem um Jesus que é mais do tudo ou nada, o Jesus que traz a espada, o Jesus que vira as mesinhas de comerciantes do templo, é este aqui.</p><p>O Jesus que, depois da morte de seu líder, depois de assumir o risco de terminar igual.</p><p>É uma voz poética que já não tem mais nada a perder, apaixonada pela promessa de dignidade para si e para todos. Todos mesmo. Sem exceção.</p><p>Poesia beleza e dignidade para todos!</p><p>Porque o mundo vai acabar, não temos mais nada a perder e no final só a poesia, a beleza e a dignidade importam.</p><p>É, Jesus saiu falando dessas coisas. Pra todo mundo. Bem alto. Com bastante gente ouvindo e batendo palmas.</p><p>Ou seja, a voz mais perigosa do mundo.</p><p>Exceto que uma voz ainda falando “<em>só</em>” em metáforas bonitas.</p><p>Falando sobre amor e gentileza intercalados com a promessa de um pós-apocalipse.</p><p>Esses romanos malditos vão cair, vão sim, mas vamos continuar sorrindo enquanto esse dia não chega.</p><p>A graça nos pertence mesmo no agora, pelo que somos dignos hoje e pelo quanto podemos sorrir pela queda dos injustos no amanhã.</p><p>Era essa a pegada dele.</p><p>Esta é a força incontornável de sua obra.</p><h4>Por que me abandonaste?</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*dYgL-mcEICsbxEj3Omgq9A.jpeg" /><figcaption>Pintura “Cristo no Deserto”, de 1872, do pintor russo Ivan Kramskoi. É minha representação favorita de Jesus entre todas as que já vi. <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Christ_in_the_Desert#/media/File:Christ_in_the_Wilderness_-_Ivan_Kramskoy_-_Google_Cultural_Institute.jpg">Imagem daqui</a>.</figcaption></figure><p>Não sabemos se Jesus se martirizava ou não.</p><p>Não sabemos se ele estava realmente disposto a se sacrificar pelos outros ou se isso meio que só aconteceu porque as circunstâncias o cercaram.</p><p>Eu gosto de pensar que a resignação foi um encontro ambivalente entre as duas coisas.</p><p>Entre sentir que se enfiou num beco sem saída por continuar falando tão bonito depois que a cabeça de Batista rolou…</p><p>Tanto quanto sentir que agora precisava ir até o fim para tentar impedir resultados piores para seus apaixonados seguidores.</p><p>Talvez o Jesus que prometeu aos seus conhecidos que, caso morto, iria aos céus… Talvez ele realmente acreditasse nisso. Literalmente.</p><p>Mas talvez ele só tenha inventado essa versão, e apresentado do jeito mais poético possível, para tentar consolar e acalmar sua preocupadíssima mãe.</p><p>Mais ou menos como fazendo quando dizemos algo tipo “<em>ele está num lugar melhor</em>”, ou “<em>calma, logo vai tudo melhorar</em>” para tentar consolar quem amamos em contextos em que absolutamente não sabemos se existe um lugar melhor, ou se tudo vai melhorar.</p><p>Os cínicos, e os acadêmicos rígidos, vão dizer que o Jesus de propósito insistiu em seguir a Jerusalém durante um feriado movimentado, ciente de que sua presença seria um evento político que desagradava aos fariseus, aos romanos e à “<em>ordem comum</em>”.</p><p>Vão dizer que ele foi para lá febril de convicção apocalíptica, já disposto a oferecer sua carne como cordeiro de sacrifício ao movimento. Torcendo para ser pego e tornado um mártir, se fosse astuto politicamente. Ou só crente de que ser pego desceria os céus na terra, se fosse radical e alucinadamente profético.</p><p>O Jesus da minha versão não é esse.</p><p>E a dúvida funda de Jesus na cruz é um indício que me direciona na versão que gosto e acredito mais.</p><p>Acredito que Jesus resolveu seguir radicalmente leal à sua dignidade, à promessa de dignidade aos seus seguidores, ao amor, à gentileza, e à poesia.</p><p>Acredito que qualquer febre apocalíptica que possa ter levado este homem de trinta e três anos a caminhar até sua cruz depois de torturado era febre que coexistia com a lúcida e humana insegurança da dúvida.</p><p>O Jesus vulnerável sendo torturado não é um Jesus convicto.</p><p>É isso que o faz triste. Seu inferno, não só físico, é um inferno de incerteza.</p><p>O Jesus crucificado não ri dos romanos dizendo “<em>ha-ha, cês tão lascados, meu Pai tá chegando logo, logo e vocês vão se ver com Ele!</em>”. Ele não é crucificado estoico e tranquilo, com um mover de ombros e dizendo “<em>pois é, né, é isso aí, apocalipse chegando logo… a gente se vê do lado de lá, vamos ver o que vem por aí</em>,<em> tá certo?</em>”.</p><p>Nada disso.</p><p>O Jesus crucificado grita em angústia uma dúvida.</p><p><em>“Meu Deus, por que me abandonaste?”</em></p><p>Acredito que esse foi o momento mais vulnerável da vida de Jesus, em que ele não estava falando para alguém, mas por si.</p><p>Seu momento mais humano.</p><p>Quando quem falava não era uma figura pública, nem um profeta, nem um Messias, mas o rapaz filho de carpinteiro.</p><p>Quem fala é quem até poucos anos antes caminhava pela orla trocando ideia com pescadores.</p><p>E que agora sofria torturas por ter se atrevido a sonhar alto demais.</p><p>Qualquer conforto com promessas de ressurreição que ele possa ter deixado aos seguidores e à família ficou lá embaixo, antes dele ser erguido crucificado.</p><p>Sozinho ali no alto, sangrando e agonizando, ele não perguntou isso querendo confortar a ninguém, nem pensando em como sua poesia ao dizer isso afetaria a saúde emocional daqueles que o amavam.</p><p>O momento de dúvida de Jesus é sua única passagem de poesia confessional.</p><p>De vulnerabilidade absoluta.</p><p>De estar rendido à dúvida.</p><p>Assombrado com as consequências e sentido toda dor delas na carne.</p><p>Jesus deve ter se sentido indignado.</p><p>Como poderia ser punido com tão indigno destino só por buscar dignidade e poesia?</p><p>O grito de dúvida e lamento incerto de Jesus selou sua obra histórica.</p><p>A questão do “<em>por que me abandonaste</em>?” é a última coisa que uma leitura secular do homem histórico pode considerar, sem uma ressurreição adiante.</p><p>O Jesus que vejo é um que cimentou seu legado por essa incerteza que gritou em agonia nos seus últimos momentos.</p><p>Sua dúvida infectou todos que ele conhecia. Instalou a intensidade do trauma dele na carne de todos que tinham o visto vivo.</p><p>Tornou insuportável, insustentável e inviável aceitar a concretude do fato, da morte e do abandono, sem poesia.</p><p>Obrigou o povo que o ouvia por conforto a começar a ecoá-lo para confortarem a si mesmos.</p><p>Os romanos subiram Jesus numa cruz para passar uma mensagem, do jeito mais pragmático e cruel possível, de que essa coisa toda de sonhar com dignidade e com poesia era besteira.</p><p>Que era melhor ficar de cabeça baixa, quietinho, obedecendo e se conformando sem reclamar.</p><p>Quem é submisso não acaba espetado no palito.</p><p>De Jesus, tanto a poesia digna imortal quanto a dor infectaram seus seguidores.</p><p>Tornaram-se incontornáveis.</p><p>Passaram a ser a poesia digna e imortal dos cristãos. O sofrer insuportável dos cristãos que só seria curado com a poesia. Um ciclo fechado e vicioso que não tinha lugar para a ameaça romana.</p><p>Ser um cristão era fazer a escolha de que era melhor morrer torturado num palito do que largar mão do sentido, da poesia, da beleza e da dignidade que Jesus mostrou.</p><p>Muitos outros cristãos morreram crucificados, e de outros jeitos terríveis, de acordo com essa escolha.</p><p>Ser cristão era viver tão assombrado pelo “<em>por que me abandonaste</em>?” de Jesus que deixá-lo sem responder “<em>não abandonei não!</em>” seria aterrorizante.</p><p>Mais aterrorizante do que qualquer coisa que qualquer romano pudesse imaginar em fazer.</p><p>Ser cristão era, diante desse assombro, viver motivado a criar poesia e comunidade.</p><p>A instaurar o delírio poético coletivo da ressurreição que preserva o sentido.</p><p>A dignidade de Jesus era tão forte, tão fundamental, tão necessária aos seus ouvintes, que ele não podia morrer. Não como símbolo. Não como metáfora.</p><p>Eles sacrificaram qualquer razão para mantê-lo vivo na ressurreição porque essa esperança era a única alternativa que restava ao desespero.</p><p>Jesus não foi especial ao ter sido profeta, por ter sido considerado pelos seus um messias, nem por ter sido crucificado. Vários profetas parecidos foram ditos messias e terminaram crucificados antes, durante e depois dele. As mesmas circunstâncias que o geraram estavam gerando muitos.</p><p>O que realmente diferencia Jesus de qualquer outro foi a reação indignada de seu público.</p><p>Um público que, de tão apaixonado pela poesia, simplesmente se negou a ceder.</p><p>O quanto isso é resultado de algo extraordinário no próprio Jesus, ou de algo extraordinário nesses seus seguidores, nunca saberemos.</p><p>Gosto de ver o extraordinário nesse vínculo, mais do que em qualquer uma das partes.</p><p>O que foi extraordinário foi o vínculo específico entre aquele Jesus e aqueles seguidores.</p><p>Os mesmos seguidores em algum profeta menos inspirador, talvez fossem ser só outra plateia dos profetas antigos da região.</p><p>O mesmo Jesus com outros seguidores menos inspirados, talvez fosse ser só outro dos profetas antigos da região diante de uma mera plateia.</p><p>Quando Jesus morreu na cruz, seus seguidores se recusaram a deixar que sua poesia digna morresse com ele. Arrastaram-no de volta dos mortos, contra tudo e contra todos, desconsiderando bom senso, razão, medo, riscos, ameaças.</p><p>E foram mortos aos montes protegendo a mesma esperança que Jesus primeiro prometeu.</p><p>Garantindo que, no que dependesse deles, Jesus não seria abandonado nunca.</p><p>Só a poesia mais bonita do mundo feita por alguém como Jesus poderia gerar um trauma tão insuportável quando seu artista fosse torturado e morto.</p><p>Só um trauma tão insuportável como aquele da morte de Jesus poderia gerar uma demanda tão visceral por poesias tão bonitas.</p><p>Uma parte inteira do mundo ficou tão assombrada pela dúvida de Jesus que se comprometeu inteiro num projeto de milênios para respondê-lo e confortá-lo. Os cristãos foram os primeiros que podemos criticar por “<em>romantizar o sofrimento</em>” ou “<em>tornar estético o trauma</em>”, mas fizeram isso na falta de psicólogos, escolhendo entre isso ou enlouquecer.</p><p>Precisaram dizer pela manutenção do próprio espírito, pela sanidade deles mesmos: <em>não, Jesus</em>. <em>Você </em><strong><em>não foi </em></strong><em>abandonado</em>. <strong><em>Nós </em></strong><em>estamos aqui</em>. <em>Olhe tudo que construímos por você e tua bonita poesia…</em></p><p>Esta foi a dinâmica que sedimentou os fundamentos cristãos.</p><p>Até hoje, não há um trauma na vida de um cristão para o qual não se ofereçam orações e palavras bonitas de conforto que são, essencialmente, poesias bonitas.</p><p>Alguém disse a Maria “<em>ele está num lugar melhor</em>”, dando-lhe um abraço ou palminhas em seu ombro, enquanto ela chorava aos berros vendo descerem seu filho morto da cruz.</p><p>Ela escolheu acreditar porque a alternativa era insuportável demais.</p><p>Sofrida demais.</p><p>E na poesia desta fé ela achou uma dignidade que romano nenhum poderia destruir.</p><p>Um desespero tão digno por poesia que cruz alguma seria capaz de calar.</p><h4>Histórias de pescador</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*oSN2ssynzkMpMKtk" /><figcaption>Photo by <a href="https://unsplash.com/@siva_thiruchandran?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">SIVA T</a> on <a href="https://unsplash.com?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">Unsplash</a></figcaption></figure><p>O filho da Maria, ali de baixo?</p><p>Pois é, homem. Os romanos pegaram. Foi feio o negócio, viu.</p><p>Mas sabia que eu tinha visto o menino antes disso?</p><p>É, filho da Maria mesmo. Tal de Jesus.</p><p>Desde moleque aparecia por aqui vez ou outra. Realmente era diferente. Fez uns negócios malucos. A gente subiu no barco pra sair e ir pescar, o cara veio andando pela água. Pela água! Coisa de doido.</p><p>O irmão do André, o tal do Simão, andava com ele pra cima e pra baixo.</p><p>O André mesmo, que antes era mais da turma do Batista, juntou com eles. Disse que teve uma vez que era pra todo mundo beber só água e Jesus deu um jeito de aparecer com vinho.</p><p>Ah, tão correndo vários desses boatos sobre o cara.</p><p>Fofoca, né?</p><p>Mas é tanta história que não tem como não ter alguma verdade no meio.</p><p>Essa de andar na água mesmo! Essa eu fui, eu vi!</p><p>A mãe dele tá andando por aí ainda. Dona Maria. Muito sofrida, coitada. Ela e os seguidores são quem mantém o grupo vivo. E eles tão jurando de pés juntos que Jesus não morreu coisa nenhuma. Na verdade, mais esquisito, tão dizendo que morreu e que voltou. E que daí foi embora de novo.</p><p>Vai saber, né?</p><p>O cara já anda na água, já faz água virar vinho, será que não deu um jeito também de não morrer?</p><p>Ah, e tem a fofoca do Judas.</p><p>Pois é, o Judas…</p><p>O cara traiu mesmo, parece. Um desgraçado, sabe. Foda saber que tem gente assim… Agora ele não anda mais com ninguém. Depois disso, é óbvio. Colocaram o menino Matias no lugar. Muito bom, menino Matias.</p><p>Esses dias, fui levar no mercado esses peixões grandes que tenho conseguido catar ali na encosta. Quem comprou um deles foi o tal do Lázaro. Estava com as irmãs junto.</p><p>Os três eram amigos demais do Jesus e ele falou todo apaixonado mesmo. A irmã disse que lavou os pés dele com óleo, secou no cabelo, o que me pareceu meio esquisito. Fez isso com o irmão do lado vendo? Sei lá, né. Cada família tem suas coisas.</p><p>O Lázaro mesmo parece meio amalucado também. Não só disse que Jesus voltou mesmo, como disse que uma vez ele mesmo tinha morrido e foi trazido de volta por Jesus. Fiquei sabendo depois da minha esposa que ele sempre conta essa mesma história maluca, há anos.</p><p>Coisa de doido, coisa de doido.</p><p>Mas vai saber, né? Vai saber?</p><p>Tomara que o tal do Jesus tenha voltado mesmo. É coisa assim que a gente merece. Os romanos é que não iam gostar… E bom, eles que se danem mesmo.</p><p>Mas que é estranha a história toda, isso é.</p><p>Eu vi o cara andar na água aqui mesmo, juro pra ti, então fica até mais fácil levar em consideração todo resto… Mas vai saber.</p><p>Tempos malucos mesmo, esses que a gente vive. Gente andando na água, morrendo e voltando, romanos fazendo romanices.</p><p>Coisa de fim de mundo, mesmo.</p><p>Se topar com Maria, diz que mandei meus sentimentos pelo filho dela e um abraço. Diz que pra ela que faço um preço mais em conta pra ela no peixe que ela quiser.</p><p>E pergunta quando é o encontro do grupo, por favor.</p><p>Se for dia que não tá pra peixe, vou aparecer por lá. Minha mulher tá querendo ir faz meses. Todo mundo tem falado bem dessas reuniões deles. Quero ir lá mesmo, ver qual é.</p><p>Vai levar esse aqui?</p><p>Ah, perfeito.</p><p>Fresquinho e graúdo, veio do mar agora.</p><p>O preço de sempre, sim, por favor. Ah, desconto não, aí você me quebra… Então beleza. Só um trocadinho mais barato, só porque é você.</p><p>Valeu, Alfeu. Um abraço pra família.</p><p>Um bom fim de semana!</p><p>Vai com Deus!</p><h3>3. Depois de Jesus</h3><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/476/1*qAcy38idi2PA2qWoJHGy3w.png" /><figcaption>Considero profundamente simbólico que esta pichação romana seja a mais antiga representação conhecida de Jesus. Nela, o pichador (provavelmente um pagão ressentido) tira sarro de um cristão ao representá-lo adorando um Jesus crucificado com cabeça de burro. O texto, em zombaria, diz “Alexamenos adora seu deus”. Num tempo em que cristãos representavam Jesus fazendo milagres ou carregando bezerros, a primeira imagem da crucificação parte de um romano. De um escravo romano, aliás, querendo ofender seu colega, que provavelmente era escravo também. A pichação foi feita em uma escola romana de escravos imperiais, por volta do ano 200 d.C. <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Alexamenos_graffito#/media/File:AlexGraffito.svg">Imagem daqui</a>.</figcaption></figure><p>Vamos brincar de história alternativa.</p><p>Imaginem que a decadente África do Sul, durante o momento mais conflituoso das disputas pelo fim do Apartheid, teve a indecência de matar Mandela.</p><p>Execução em praça pública.</p><p>Depois disso, o regime conseguiu segurar as pontas pra não cair.</p><p>Mas a indignação popular era tamanha, ainda mais quando reunida sob o símbolo do mártir Mandela, que a situação estava ficando insustentável.</p><p>Desesperada buscando por alguma solução para toda esta instabilidade política, mais tarde esta África do Sul “<em>promove</em>” Mandela a símbolo público.</p><p>A partir de então, ele está em quadros nos prédios do governo, na letra do hino nacional, em estátuas pra todos os lados.</p><p>Ele se torna o símbolo nacional de uma África do Sul “<em>reformulada</em>”, fazendo um “<em>mea culpa</em>” simbólico.</p><p>A apropriação de Mandela enquanto símbolo o distorce, mas o amplia.</p><p>O povo, desconfiado, mesmo assim sente nisso alguma vitória.</p><p>Mandela foi morto e agora está lá, vejam só, naquela estátua linda e gigante posta no centro da cidade.</p><p>A instabilidade política melhora minimamente por um tempo, o governo se consolida e aquela contradição simbólica do herói distorcido e apropriado continua viva no coração da nação.</p><p>Você pode distorcer, apropriar e ressignificar Mandela o quanto quiser, pode abstraí-lo e esvaziá-lo, mas nele resistirá ainda assim, durante todo esse tempo e diante de todo e qualquer esforço, o mesmo vínculo do povo àquela promessa de dignidade.</p><p>A dignidade que seu governo, usando do símbolo dele como uma promessa de futuro, segue negando no presente.</p><p>Esta África do Sul decadente não supera o Apartheid.</p><p>E o Mandela cristalizado no centro dela continua gritando: o fim desta ordem podre há de vir, há de vir.</p><p>Meio distópico, né? Parece absurdo?</p><p>Pois você já deve ter percebido que eu não comecei a falar sobre a África do Sul para pivotar este texto a uma análise sobre história alternativa do século vinte.</p><p>É uma analogia sobre Jesus.</p><p>Sobre os romanos.</p><p>Porque o que foi feito de Jesus pelos romanos foi exata e precisamente isso que descrevi.</p><p>O que foi feito do legado de Jesus, quando escapou as classes baixas, os escravos, os judeus, quando Jesus chegou aos palácios da aristocracia…</p><p>Foi apropriá-lo, distorcê-lo, expandi-lo e ampliá-lo como a última jogada de um império decadente tentando resolver instabilidade política.</p><p>Uma jogada de rebranding pensada para tentar evitar guerras civis e revoltas de escravos.</p><p>Funcionou?</p><p>Quem venceu no fim das contas, Jesus ou os romanos?</p><p>Os dois, um pouco.</p><p>E um pouco, nenhum.</p><p>É sobre essa tensão que se equilibra bamba toda a história do nosso mundo desde que o cristianismo surgiu.</p><p>O império da vez sempre estampa orgulhoso seu esvaziado Jesus inofensivo às atrocidades da realpolitik.</p><p>O império da vez sempre cai.</p><p>Algum Jesus sempre segue em frente para ser reapropriado pelo próximo.</p><h4>Um Jesus filósofo</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/726/1*zrWEYiOQkqHEaI7IQzYQMA.jpeg" /><figcaption>Um dos primeiros motivos da arte cristã primitiva foi o Jesus com roupinhas de grego (que ele nunca teria usado em vida) representado como “bom pastor”. É uma adaptação bastante direta de um motivo imagético pagão (ver esta estátua de <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Moschophoros">Moschophoros</a>). O Jesus grego (sem barba, como a maioria de suas representações iniciais) carrega o cordeiro do mesmo jeitinho que carregaria o pagão grego, mas a implicação não é a de que ele o carrega para um sacrifício animal. O sacrifício no cristianismo é do próprio homem e somente dele. O afresco é um dos mais antigos de Jesus, entre os anos 250 e 300, das Catacumbas de Priscila. Imagem <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Early_Christian_art_and_architecture#/media/File:Good_shepherd_01_small.jpg">daqui</a>.</figcaption></figure><p>O legado de Jesus é sempre ambivalente.</p><p>Cada vitória carrega também uma derrota.</p><p>A primeira vitória do legado de Jesus, por parte de Paulo, foi ter se expandido para tornar-se tesouro comum também dos gentios.</p><p>Jesus foi expandir sua carreira como poeta internacional e traduzido. Foi ser ouvido pelos que não eram judeus.</p><p>A primeira derrota do legado de Jesus foi ter, nesse processo, se desvinculado do judaísmo que prometia de alguma maneira reformar.</p><p>Isso quer dizer que o Jesus que seguiu em frente foi sempre reapropriado.</p><p>Sempre apátrida.</p><p>Feito importante em contextos alheios aos dele.</p><p>Por pessoas que não tinham como entender, intimamente, o que seria a experiência de Jesus com a Torah, ou sua frustração com os fariseus.</p><p>O Jesus da história é para o mundo um imigrante.</p><p>Sempre traduzido.</p><p>Nem sequer uma única palavra do que disse em aramaico sobreviveu na língua original.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*Kwj4cCGnC8uzZccWloWjgw.jpeg" /><figcaption>A mais antiga representação conhecida de Jesus para além da ofensiva pichação romana. Feita por volta de 235 d.C, ficou escondida nas ruínas de Dura-Europos, cidade/ruína preservada que tem muito de semelhante a Pompeia. Aqui, Jesus (de novo, ainda sem barba) aparece de pé, ao lado de um ex-paralítico, no episódio em que teria realizado o milagre de curá-lo. Reitero: no cristianismo primitivo, não o representavam crucificado. <a href="https://aleteia.org/2019/10/12/the-first-painting-of-any-of-jesus-miracles-dates-from-the-3rd-century/">Imagem daqui</a>. Aos curiosos que gostam de mergulhar em tangentes, vale dar uma olhada na página da Wikipédia sobre a igrejinha de Dura-Europos, a mais antiga igrejinha cristã de todo o mundo, <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Dura-Europos_church">aqui</a>.</figcaption></figure><p>Por outro lado, sinto que Jesus ficaria com a sensação, poeticamente exagerada, que o judaísmo ter abandonado suas palavras impediu a aqueles que Jesus criticava enquanto fariseus saíssem de sua zona de conforto.</p><p>Jesus teria visto, enviesado, no judaísmo do qual era filho ainda as mesmas burocracias, a mesma rigidez à conformidade, a mesma síndrome do sobrevivente (justificada pelo contexto) que se apega a uma identidade sólida, sem deixar que nela exista um muito espaço fluidez, porque qualquer reforma traz o risco de um apagamento.</p><p>Isso não é verdade de todos os judeus. Na sua tradição retórica, nos comentários adicionados em discussões dinâmicas sobre cada texto, nas evoluções e adaptações de pensamento de acordo com cada nação para a qual foram, na entrada da cultura judaica na esfera secular.</p><p>Mas parece ter sido o viés de Jesus a respeito das suas críticas à própria cultura enquanto estava vivo. Ele não viveu para ver todos os exemplos que estou mencionando de judeus fluídos, talvez tenha dado azar com aqueles específicos de seu tempo que conheceu.</p><p>Ou talvez ele fosse só meio rebelde mesmo. Pela alma de poeta, talvez tenha sido um adolescente rebelde. Intransigente.</p><p>O judaísmo, Jesus diria se soubesse que o deixaram de lado, seguiu rígido e sólido durante milênios.</p><p>Alcançou o século XXI com os fundamentos e ideias antigas que carregava desde a Idade do Bronze.</p><p>Em nenhum outro grupo do mundo atual persiste tão embricada esta ideia, que a nós hoje parece tão esquisita, de que uma identidade precisa ser nacional, étnica, religiosa, secular e política de uma só vez, ambivalente e misturada, sem aceitar separação.</p><p>(Ou melhor, parte deste grupo. Ser israelense ou sionista não é o mesmo que ser judeu. Mesmo assim, é uma identidade representativa, se por mais nada, pelo menos enquanto há um projeto inteiro por parte de um estado nacional a respeito. O que se busca nesse projeto é justamente estruturar um sinônimo entre este projeto nacional e a identidade “judeu”. Espero que não vençam na disputa dos significados. Se tem algo que a história ensinou é que a identidade judaica vai além de qualquer fronteira ou império…)</p><p>Porque são estes conservadores quem mais “preservam” estas raízes, o projeto de estado expansionista de Israel parte de quem vê com naturalidade agir hoje em dia do mesmo jeito que agiriam reinos em expansão (e extermínio de seus vizinhos) na Idade do Bronze.</p><p>Toda voz dissidente judaica que propôs mudar qualquer detalhe na doutrina foi apagada, ou tornada menor, ou se dissolveu ao ser assimilada pela maioria no grupo em que vivia dentro de um império.</p><p>O judaísmo só sobreviveu, mesmo sendo tantas vezes a cultura de uma frágil minoria, na sua variação de natureza mais rígida.</p><p>O cristianismo, a despeito do que possa parecer para alguns, nasceu com a proposta de ser o contrário. Fluído até demais. Leve feito água. Para ser apropriado, distorcido, retorcido e reinterpretado por qualquer um, de acordo com qualquer capricho, para justificar qualquer vontade.</p><p><em>(Sim, é uma metáfora. Judeus foram fluídos em contextos. Cristãos foram rígidos em contextos. Achei importante este adendo pro meu lirismo não me trair num estereótipo de generalização. O estado “líquido” do cristianismo deu em diversos becos sem saída teológicos sob a rigidez burocrática e dogmática do monopólio católico durante séculos.)</em></p><p>Jesus, que sempre foi esse estrangeiro, teve que se moldar para viajar.</p><p>Teve que ficar mais bonito em alguns lugares.</p><p>Mais branco, em outros.</p><p>Mais negro, em alguns.</p><p>Para agradar aos gentios, o primeiro lugar em que prosperou foi no mundo helênico, as rebarbas culturais da influência cultural grega.</p><p>As histórias dos pescadores informais sobre Jesus, seus causos populares, foram convertidas em palavra escrita por autores gregos afeitos aos filósofos clássicos.</p><p>Por preferência estética, tornaram Jesus mais filósofo também.</p><p>De repente, o homem simples que falava em parábolas começou a articular dilemas metafísicos abstratos.</p><p>Ganhei de presente recentemente um livro com as ilustrações de Gustav Doré para a Bíblia. É lindíssimo e simboliza muito bem este racha entre a pedra judaica e a água cristã.</p><p>As ilustrações do Antigo Testamento são via de regra viscerais. “<em>Então Deus matou quinze mil crianças porque eram da tribo errada</em>”, “<em>então Davi liderou militarmente um exército que expandiu as fronteiras de seu reino sagrado</em>” e, no geral, o tom belicoso de qualquer mitologia da Idade do Bronze.</p><p>Então chegam as ilustrações do Novo Testamento e elas são… Leves.</p><p>Uma história concentrada em poucos atos e poucas pessoas. Não aparecem reis, líderes militares, grandes batalhas. Só um judeu pobre conversando na praça do mercado com outros pobres.</p><p>Sendo francês, Doré ainda adapta e distorce como bom representante da maleabilidade cristã. Seus desenhos seguem a estética dos europeus. E seu Jesus leve é um filósofo. Um Sócrates, mais especificamente. Só que bonito.</p><p>O Jesus histórico, como o Sócrates histórico, provavelmente não era bonito.</p><p>Antigamente, tudo era junto e misturado. Religião, política, poesia, literatura, erudição.</p><p>O legado de Jesus pegou a rebarba dessa diversidade, mas já quando as coisas se separam em instituições diferentes.</p><p>Então houve diferentes versões suas que sobreviveram mais ou menos tempo, de acordo com a instituição que as projetou.</p><p>O Jesus filósofo dos helênicos não viveu muito tempo sozinho.</p><p>A filosofia, a erudição e o helenismo foram engolidos mais tarde pela instituição da igreja. No cristianismo primitivo, existiram algumas poucas tentativas antes disso de propor um Jesus filósofo mais secular. Só que não deram em muita coisa. A força secular ainda demoraria a engrenar.</p><p>O Jesus filósofo precisava existir para atender ao “<em>bom gosto</em>” de uma certa classe mais privilegiada que seria a ponte a conectar os pescadores aos imperadores.</p><p>Serviu como o Jesus transitório das classes educadas.</p><p>Mas se perdesse o elemento religioso e se rendesse a ser só poesia, ou só filosofia, perderia os pescadores no processo.</p><p>E nisso ficaria frágil e minguaria.</p><p>Zeus, e tudo que Homero fez, tinha aquela aura de algo partindo de cima pra baixo. Das classes altas impondo no porrete a poesia que gostavam mais, sobre a reinterpretação que prefiriam.</p><p>Jesus veio de baixo pra cima.</p><p>O povo sempre sentiu, como razão, que era dono o sufciente de Jesus para retrucar quando alguém de cima começava a se sentir confortável demais tentando monopolizar a história.</p><p>O Jesus primitivo, aquele que saiu dos círculos de judeus ao redor dos apóstolos e de Maria, até aprendeu a falar grego e a parecer com Sócrates.</p><p>Fez filosofia.</p><p>Na Bíblia mesmo, torna-se articulado daquele jeito elegante, especialmente em Lucas (mais tardio do que os relatos do Jesus “<em>pé no chão</em>” de antes).</p><p>Mas não rompe com a fé poética.</p><p>Com a história de pescador sobre andar nas águas.</p><p>Com a ideia de que voltou vivo depois de três dias.</p><p>Os helênicos aproveitaram-se da riqueza lírica e metafórica para refletirem introspectivos e filosofarem. O mesmo processo que faziam antes com as histórias pagãs, agora transitando para uma seleção de histórias novas.</p><p>Eles podiam fazer isso o quanto quisessem, mas não fizeram com os causos de Jesus o mesmo que tinham feito aos gregos: não foram capazes de torná-los mera estética e literatura. Pelo menos não ali. Não ainda.</p><p>Os pescadores não deixaram.</p><h4>Um Jesus expansionista</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*xfnVapuQgVHKmNTkOwUy5Q.jpeg" /><figcaption>Este Jesus em Ravena é a mais bonita (e talvez mais famosa) versão do Jesus romano, usando a vestimenta de um soldado (ainda sem barba). Pela primeira vez, é o Jesus militar que aparece nos estandartes de um império. Porque nunca deixou de haver um império expansionista semelhante ao romano, é até hoje o Jesus militar que caminha por guerras pelo mundo inteiro. Há neste momento (agora) superpotências imperialistas, expansionistas e ditas cristãs em conflitos bélicos de todas as naturezas. <a href="https://www.facebook.com/photo/?fbid=1374372901363452&amp;set=pcb.1374373111363431">Imagem daqui</a>. Mais sobre a bela Capela de Ravena, de 495 d.C., <a href="https://www.thebyzantinelegacy.com/archiepiscopal-ravenna">aqui</a>.</figcaption></figure><p>É comum que contem a história do cristianismo dando como um ponto de virada e de vitória o momento, mais de três seculos depois da morte de Jesus, em que imperadores como Constantino e Teodósio pararam de perseguir os cristãos e os “<em>promoveram</em>” a uma posição central no império.</p><p>Outra vez: no legado de Jesus, toda vitória é uma derrota.</p><p>A apropriação mais ridícula já feita de Jesus na história provavelmente foi a comandada pelo imperador Constantino.</p><p>Àquela altura, a religião originalmente do populacho já tinha subido culturalmente por todas as paredes do palácio.</p><p>Uma revolta cristã generalizada (com números) era eminente num império fragilizado.</p><p>A história não deixaria isto ser dito, mas posso ser enviesado enquanto poeta. Do fundo do coração, não tenho dúvida nenhuma de que a abertura aos cristãos feita por Constantino foi cínica. Uma manobra safada e acovardada para ganhar algum apoio político e se manter mais alguns meses em cima do muro.</p><p>(Os acadêmicos dizem que é ambivalente. Enfim. Vou ser caprichoso e me aproveitar da caricatura porque representa melhor e dá mais graça ao argumento.)</p><p>Conforme o cristianismo foi ganhando expressão, políticos foram começando a fazer concessões.</p><p>A primeira foi deixar de matá-los. Por um tempo.</p><p>A segunda foi permitir seus templos.</p><p>Depois, patrocinar alguns templos.</p><p>Repartir verba entre templos pagãos e cristãos.</p><p>Erguer alguns monumentos, primeiro lá longe.</p><p>Depois mais perto.</p><p>Daí mais perto.</p><p>Tiveram que fazer tudo isso para tentar conter a força popular de um poeta morto já há séculos.</p><p>Um poeta!</p><p>No mundo secular, segue o embate: um império contra a memória de um camponês periférico e poeta.</p><p>Resultado do jogo: meio que empate.</p><p>Aí você presta atenção nos termos do jogo e…</p><p>Epa. Um poeta empatou contra um império?</p><p>Que seja um empate, pela proporção da coisa toda, ao poeta já é bem impressionante.</p><p>E quando o time do império é diluído, o poeta segue ainda em campeonato. Contra outros impérios, é verdade, mas mesmo assim.</p><p>E continua sempre empatando.</p><p>Daí, como fundação dessas partidas todas, abertura do campeonato:</p><p>O Arco de Constantino.</p><p>É a obra símbolo do cristianismo romano inicial.</p><p>É também cínica, ridícula e estúpida.</p><p>(Muito bem feita, apesar disso.)</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*8VnOGUJelh8BrCm3" /><figcaption>Este é o Arco de Constantino, monumento que supostamente deveria simbolizar a adoção do cristianismo pelos romanos. Entre todo o texto enfiado nessa coluna exaltando um líder imperador, uma frasezinha ambígua só é relevante. Segundo a frase, o dito imperador, além de ser incrível por si mesmo, venceu com uma mãozinha ao ser “<em>inspirado pela divindade</em>”. Sem dar nome, só “divindade”, para não pegar mal demais com os pagãos. Photo by <a href="https://unsplash.com/@fabiofistarol?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">Fabio Fistarol</a> on <a href="https://unsplash.com?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">Unsplash</a></figcaption></figure><p>A começar pelo mito a ela associado.</p><p>A fábula conta de um Constantino que sonhou com Jesus em campo de batalha. Ergueu uma variação da cruz cristã como estandarte.</p><p>Venceu a batalha. Milagre!</p><p>(Exceto que ele perdeu sucessivas batalhas depois disso. E que precisou negociar tornando metade de seus batalhões pagos mercenários.)</p><p>É uma apropriação grosseira.</p><p>O jeito mais baixo de apresentar Jesus às estruturas de mitologia e credo do militarismo expansionista romano. Há versões em copiar e colar dessa história com batalhas e estandartes para cada deus de cada panteão.</p><p>A Ilíada inteira é uma variação mais refinada de uma estrutura narrativa do tipo.</p><p>Para a história de Constantino, chega a parecer que fizeram algo como dar Ctrl+F num texto em que “<em>Saturno apareceu num sonho</em>” e só substituíram todas as menções para “<em>Jesus apareceu</em>”.</p><p>Não consigo imaginar uma pessoa nesse mundo que um Jesus aparecendo em sonhos estaria menos disposto a ajudar.</p><p>Jesus daria vitória a um imperador do decadente império romano, aquele que matou Batista? Que o crucificou?</p><p>O Jesus dos romanos que subiu para os aristocratas e para os palácios precisou suavizar e esconder muito seu lado “<em>a César, o que é de César</em>”, seu lado “<em>é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus</em>”.</p><p>Até hoje, todos os impérios que se apropriam de Jesus tem dificuldades com este lado dele…</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*ircQ7PL931I46EgzHfAGYQ.jpeg" /><figcaption>Pintura do episódio sobre Jesus e o jovem rico. Heinrich Hofmann, 1889. <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Jesus#/media/Ficheiro:Hoffman-ChristAndTheRichYoungRuler.jpg">Daqui</a>.</figcaption></figure><p>Mas a apropriação distorcida, por mais incongruente e hipócrita que tenha sido, funcionou.</p><p>A história pegou, tanto que aqui estou a citá-la.</p><p>Tem quem veja nessa história do Jesus romano a vitória última do cristianismo.</p><p>Eu vejo o último escárnio dos romanos diante do cadáver já frio do Jesus que eles crucificaram.</p><p>Existiram, tenho certeza, muitos romanos que autenticamente se vincularam a Jesus. Que emocionaram-se com sua história.</p><p>Mas a visão do coração do império necessariamente carregava seus vieses.</p><p>E para além de indivíduos, por mais bem intencionados que fossem, o cinismo podre e decadente do império era estrutural, generalizado, cultural.</p><p>Sistêmico.</p><p>Faz sentido para mim que no cristianismo romano tenha florescido toda aquela questão da culpa.</p><p>Uma culpa enorme, de todo mundo, associada à hipocrisia de um projeto expansionista.</p><p>O império cristão continuava fazendo tudo do mesmo jeito com os povos conquistados. Do mesmo jeito que tinha feito antes. Do jeito que tinha feito com Jesus.</p><p>A única diferença era agora a religião repreendida.</p><p>O império não parou de torturar gente, matar pobres, ou entrar em guerras de expansão territorial porque virou cristão. Houveram impérios cristãos com escravos. Muitos escravos. Muito piores até em condição do que Jesus.</p><p>Também não deixou o império romano de ser decadente por tornar-se cristão.</p><p>O monumento de Constantino é um arco militar.</p><p>Feito para exaltar as conquistas bélicas do imperador.</p><p>O trecho que menciona Jesus e o sonho é vago. Feito propositalmente de forma a deixá-lo em cima do muro. Porque naquela época os pagãos ainda tinham lá sua relevância, seus templos e seu dinheiro, não dava para ser disruptivo demais.</p><p>Seguindo a tradição de não agradar a gregos e nem a troianos, o arco isentão não agradou em demasia nem cristãos, nem pagãos.</p><p>Hoje fica largado meio obscuro lá num canto de Roma. Atração turística classe B. Não é um marco religioso, é uma curiosidade para curiosos feito eu.</p><p>(Quero ir visitá-lo um dia.)</p><p>A instituição romana militar não durou muito.</p><p>O império cristão reformulou Jesus ao seu próprio modo mesmo assim.</p><p>A ênfase no “<em>Jesus da espada</em>” é uma provável contribuição romana.</p><p>A sensação de “<em>triunfo dos antes coitados</em>” foi instaurada com eles, apesar dos triunfos serem dos mesmos de antes, cada vez menos triunfais rumo à bancarrota, e os coitados serem também os mesmos ainda, seguindo humilhados sob a bota do império pelo tempo em que os romanos conseguiram ainda arrancar impostos.</p><p>Um Jesus nacional bélico e militarista morreu quando a Roma ocidental caiu.</p><p>Infelizmente, acho que deixou de legado a cruz como um símbolo de culpa.</p><p>Não gosto muito da cruz como símbolo, nem gosto muito de me referir a Jesus como Jesus Cristo. Sinto que se alguém morresse empalado, seria de pouco gosto tornar a empala um totem de culpa e a figura do fulano empalado como parte de sua lembrança. Andar com uma joia de prata com um empaladozinho…</p><p>Não há dignidade e nem justificativa no sofrimento que os impérios causam.</p><p>Não houve justificativa nos romanos ao crucificarem Jesus.</p><p>Não teria justificativa todos os seguidores do cristianismo mortos depois.</p><p>Nem teria justificativa todos os “pagãos” dos povos conquistados que o império romano cristão, seu expansionismo, matou também.</p><p>Caiu o Jesus militar, vestidinho em roupas de soldado.</p><p>Que bom.</p><p>Sem Jesus político, sem Jesus intelectual.</p><p>No coração da ruína deste império, seguia vivo o único Jesus que sobreviveria ao fim da Antiguidade, depois da morte literária-clássica do Jesus grego filósofo e erudito, depois da morte militar-pragmática do Jesus romano cínico e imperial.</p><p>Sem Jesus romano.</p><p>Os invasores bárbaros, as revoltas populares, os escravos, os pescadores, não deixaram.</p><p>Os novos reinos, quando surgiram, não se deram tanto ao trabalho de recuperar estas versões caídas de Jesus que circulavam pelo império que ruiu. Também não tinham a grandeza institucional do que tinha caído para tentarem repetir o projeto nacional.</p><p>Um Jesus guerreiro institucional continental daqueles só sobreviveria sob um império ocupando o Mediterrâneo inteiro.</p><p>Esvaziado das suas dimensões filosóficas e políticas, o Jesus que sobrou foi o religioso. Esse podia circular livremente, internacionalizar-se.</p><p>Este sim se tornou imortal.</p><p>Que tenha sido ele é, outra vez, uma vitória tanto quanto uma derrota.</p><h4>Um Jesus dogmático</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*yNBY9TfiypcTpjLoEaw85A.jpeg" /><figcaption>O Jesus católico por excelência, com suas grandezas e limitações, é este aqui representado. Da Vinci pintou sua versão da última ceia em 1495. <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Última_Ceia_(Leonardo_da_Vinci)#/media/Ficheiro:Leonardo_da_Vinci_(1452-1519)_-_The_Last_Supper_(1495-1498).jpg">Imagem daqui.</a></figcaption></figure><p>A Igreja cristã que se tornou a Igreja Católica não foi só a última das grandes instituições da Antiguidade a preservar Jesus.</p><p>Foi também uma das últimas instituições antigas a sobreviver.</p><p>Cresceu no vácuo de poder deixado pelas outras.</p><p>Reformou o continente europeu à sua própria imagem e capricho.</p><p>Embrenhou-se como fundamental para a estabilidade política de todo e qualquer reino.</p><p>Fez franquias da presença dela mesma, seguindo um padrão mais ou menos padronizado de consistência, em todas as direções.</p><p>Foi a mais vasta rede internacional interligada de seu tempo, a verdadeira estrutura cultural e comunicacional a orquestrar e organizar um mundo.</p><p>Havia nesta igreja gigantesca preocupações de todos os tipos.</p><p>Preocupações geopolíticas. Com pequenos poderes locais. Com a preservação de acervos. Com a continuidade da educação literária. Com a formação de monges letrados.</p><p>Foi esta a igreja que gestou a escolástica, depois as universidades, depois o renascimento, daí o iluminismo.</p><p>Fez isto tudo mais tarde e meio sem querer, quase contra sua própria vontade, porque queria preservar coisas cristãs, e coisas cristãs ocasionalmente eram dinâmicas, e quando estas coisas cristãs dinâmicas preservadas eram mantidas vivas por muito tempo, iam gerando novas filhas.</p><p>O ateísmo que hoje professo é um neto do iluminismo, tataraneto do renascimento, portanto vinculado às redes de preservação propostas pelos católicos desde meados fundos da Idade Média.</p><p>É claro que essa preservação toda também não passou gratuita.</p><p>Católicos se deram ao luxo de preservar “mais” suas leituras favoritas de Jesus. Guardaram com carinho ou assombro algumas outras nas prateleiras fundas das bibliotecas, sob o selo hesitante de “<em>blasfêmias</em>”. Distorceram muita coisa mais. Queimaram muito mais.</p><p>Tentaram dar rigidez absoluta a algo que iria se mover de novo uma hora ou outra. E que se moveu pra todos os lados quando os protestantismos prosperaram.</p><p>Eu gosto do Jesus dos cristãos. E dos católicos, burocrático que seja.</p><p>Com seu panteão de santos.</p><p>Seus tratados teológicos.</p><p>Com Santo Agostinho e Tomás de Aquino.</p><p>Com os iluminismos inseguros da cristandade dos primeiros pensadores da ciência.</p><p>Com as pinturas de Da Vinci.</p><p>Com a Virgem Maria.</p><p>E as catedrais.</p><p>E o Jesus de olhos azuis, austero ou doce, severo ou sorridente, feliz ou sofrido.</p><p>Este Jesus religioso seguiu se embricando nas variações de um Jesus político.</p><p>Cada feudo com suas picuinhas. Cada distorção dando a puxada de sardinha para alguma família rica.</p><p>Os Médici. Os bispos das cortes feudais. Os padres enviados em barcos dos conquistadores.</p><p>Acompanhando os bandeirantes nas suas aventuras espalhando pandemias mortais por novos continentes.</p><p>Em todas estas catástrofes, hipócrita ou oferecendo auxílio aos infelizes afetados pela desgraça ou guerra: sempre uma ambivalente cruz.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*0OvPCbkg7k8-udHJLS6BLA.jpeg" /><figcaption>Outra das minhas pinturas favoritas de Jesus. “Ecce Homo”, de Antonio Ciseri. Por volta de 1880. O renascimento foi onde primeiro se articulou nos europeus o olhar curioso que adquiriram. Foi onde testaram física, luz, perspectiva, pintando com realismo os antigos motivos católicos. O movimento de aperfeiçoamento técnico da pintura seguiu de perto o contexto religioso até meados do iluminismo. <a href="https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ecce_homo_by_Antonio_Ciseri_(1).jpg">Daqui</a>.</figcaption></figure><p>Um dia, um cristão teve uma ideia poética bonita.</p><p>Articulou sua ideia sem muito medo, protegido e preservado pela missão de sua igreja a garantir a tradição estudiosa das universidades.</p><p>Disse que Jesus e Deus não teriam criado um mundo tão bonito e complexo para que passássemos por ele com desonestidade.</p><p>Disse que a curiosidade legítima, a busca por uma verdade científica, mesmo quando desconfortável ou contraditória aos nossos dogmas, era uma maneira de homenagear e embelezar o plano de Deus.</p><p>Disse que a missão da humanidade não era se cegar com poesia antiga, mas se maravilhar poeticamente na busca eterna por novas e mais fundas verdades.</p><p>Esse posicionamento, ridículo de tão idealista, foi a base para o iluminismo que iria parir as mais sérias e frias das ciências ocidentais.</p><p>Inspirado por um amor de olhar.</p><p>A partir daí, foram cavucando as ruínas das histórias de todos os lados.</p><p>A ciência desenvolveu a tecnologia, que desenvolveu a imprensa, que desenvolveu a arena comunicacional em que brotariam os protestantismos.</p><p>A escolástica desenvolveu a ciência, que desenvolveu os arqueólogos e estudiosos da religião que hoje arrancam do deserto relíquias inconvenientes ao cânone. Coisas como os Manuscritos do Mar Morto, um evangelho apócrifo de um Judas bonzinho em vez de traidor, e todos aqueles evangelhos fabulosos das aventuras do Jesusinho criança.</p><p>É quase como se hackeassem continuamente os arquivos de desenvolvimento de um jogo de uma grande produtora. Achando versões betas de personagens, variações antigas de roteiro, mudanças no desenvolvimento da história, picuinhas entre a equipe de produção, cenas que foram cortadas inteiras…</p><p>Este Jesus meu, por exemplo, é um Jesus autodidata de um ateu. Construído com .pdfs, ensaios acadêmicos no Youtube e livros que esperei pra comprar em oferta numa Feira do Livro ou nas ofertas de fim de ano da Amazon.</p><p>Protestantismo progressista vinculado ao humor, sob uma leitura de campos religiosos de Bourdieu reunida a um estudo do fenômeno comunicacional da midiatização. Esta frase absurda, do nicho do nicho do nicho, foi a minha tese de mestrado em Comunicação.</p><p>(Não foi lá essas coisas e tirei um polido 9,5.)</p><p>O Jesus de hoje é diverso, múltiplo, vasto, personalizado, individual, nichado. A cada ambiciosa instituição religiosa que aparece com um Jesus radical prometendo força de hegemonia, surgem mais quinze variações e mais vinte cristãos “desingrejados”.</p><p>Ou seculares ateus apaixonados por Jesus, feito eu.</p><p>De quantos Jesus diferentes você já ouviu falar?</p><p>Já conhece o dos católicos? E dos luteranos? E o dos judeus? E o daquele séquito de judeus que acham que Jesus é Messias, mas não filho de Deus? E o Jesus dos muçulmanos? E dos japoneses? Já conhecia o Jesus histórico dos acadêmicos? O Jesus político das brigas em redes sociais? O Jesus imperial dos romanos? O Jesus dos jesuítas? O Jesus dos mexicanos? O Jesus do Leminski? O bonito Jesus negro das pinturas de Janet McKenzie? O Jesus dos memes?</p><p>Já conhecia este maluco Jesus dos poetas do qual eu gosto tanto?</p><p>Já ouviu sobre o Jesus dos brasileiros?</p><p>Hoje, Jesus é bastante popular na América Latina e na África.</p><p>Chegou ao Brasil pelas redes expansionistas de um império naval tentando brincar de ser grego num mundo novo.</p><p>Este Jesus é um dos que mais sofre. Tentam torná-lo paródia de mau gosto de todos os jeitos, todos os dias.</p><p>É lucrativo no curto prazo.</p><p>Não dura muito tempo.</p><p>O povo não gosta.</p><p>O Jesus romano de um império português decadente. O paradoxo: confunde-se ao Jesus do povo caminhando pelas calçadas sujas.</p><p>Quando tentam ridicularizá-lo, quando fazem sofrer demais a memória deste Jesus, o brasileiro não deixa.</p><h4>Alguns dos Jesus brasileiros</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*co3XFqAGXjRzVqrSHFtGHQ.jpeg" /><figcaption>O Cristo Redentor do Rio de Janeiro. Ao fundo, bairros de luxo misturados a favelas. Se Jesus fosse brasileiro, teria nascido, crescido e morrido na favela, não no Leblon. A comparação mais adequada ao jeito que foi morto por romanos seria caso, no Brasil, fosse morto por policiais. <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Cristo_Redentor#/media/Ficheiro:1_cristor_redentor_2014.jpg">Imagem daqui</a>.</figcaption></figure><p>O Brasil é um pouco o que Jesus teria gostado como um projeto nacional.</p><p>É diverso e não se esconde sobre a estrutura identitária da promessa de um etno-estado.</p><p>É um país de poesia e de autenticidade.</p><p>Para muita gente, o Jesus brasileiro é este em que rola interiorizar regras cristãs (o famoso “<em>cristão não praticante</em>” do brasileiro com preguiça de ir à igreja). O brasileiro frequentemente se vincula com Jesus em primeira pessoa, acima da conformidade performática.</p><p>O Jesus do brasileiro é personalizado pelo individualismo, pelo neoliberalismo, pelo capitalismo, pelo secularismo, pela desinstitucionalização religiosa, portanto pelos desingrejados. Ele é um fenômeno íntimo, tanto quanto é uma faceta social.</p><p>O papel de conforto que Jesus trouxe aos oprimidos judeus sob a bota dos romanos não é diferente do que traz aos favelados e ex-escravizados brasileiros sob a bota desigual destas ruínas do falido império português.</p><p>Também não é diferente de um Jesus vizinho que hoje toma força e esperança para confortar e acompanhar o <em>boom </em>populacional da África.</p><p>A África, continente do futuro dos cristãos.</p><p>Brasil, país com mais cristãos no mundo.</p><p>O Jesus dos brasileiros ao que fui apresentado primeiro foi o da escola luterana em que fui estudar aos oito anos de idade.</p><p>Antes, tinha algum mínimo contato com cristianismo em casa.</p><p>Minha avó, alemã, tinha me ensinado algumas cantigas cristãs em alemão. Orávamos antes da hora de dormir.</p><p>Os luteranos que conheci eram dogmáticos, rígidos e pouco preparados para lidar com o caos da minha família.</p><p>Eram moralistas diante de questões de sofrimento mental e foram pouco compreensivos quando eu decidi me desvincular da conformidade à sua fé.</p><p>Tornaram-me ostracizado no ambiente que continuei frequentado durante mais alguns anos letivos.</p><p>Não foi uma apresentação positiva aos cristãos.</p><p>Em todas as aulas de religião, nem sequer uma vez foi mencionada qualquer coisa sobre o Jesus dos arqueólogos que menciono aqui.</p><p>O discurso religioso parecia ser burocrático. Protocolar, mecânico, pouco inspirado.</p><p>Mesmo tão intolerantes a protegê-lo, ninguém parecia gostar tanto assim de Jesus. Pelo menos não o suficiente para engajarem diretamente com ele.</p><p>Tudo tinha que ser sempre mediado pela burocracia da Igreja que, por natureza, tornava a questão toda sempre muito densa e chata.</p><p>Quando minha família saiu do luteranismo, em uma fase de desespero se voltou para o neopentecostalismo mais milagreiro.</p><p>Passei a frequentar uma igreja evangélica de bairro, montada num galpão.</p><p>Um Jesus periférico do Campo Limpo.</p><p>Em relação ao seu lugar geopolítico frente aos tentáculos expansionistas de impérios decadentes, o Campo Limpo, e qualquer outra periferia brasileira similar, não devem muito ao que devia ser aquela Nazaré dos tempos de Jesus.</p><p>Minha família, numa crise de deixar em frangalhos, deixava-me frequentemente na Igreja. Fiquei amigo do pastor, que passou a me levar para lá e para cá. Ele tinha montado uma casa estilo ambiente cenográfico de novela. Ficava nos fundos da igreja, com um vidro transparente de loja para os fieis passarem na frente e espiarem dentro. Uma casinha humilde.</p><p>Apesar da performance cristã de morar ali, ele vivia numa casa num condomínio perto. Descobri quase sem querer na mesma época em que ele começou a me colocar no palco durante os cultos noturnos para fazer um teatrinho ridículo de possessão.</p><p>Comigo criança, quem tirava o diabo de mim e parava de me fazer falar “<em>shabarunarah</em>”, supostamente, era Jesus. Cobrava dízimo para isso. E semanas dos milagres. E domingos das curas. E aquela fézinha extra pra dar tudo certo na cirurgia da tia…</p><p>(Tudo que posso falar sobre ele parecerá caricato. Se fosse ficcional, eu suavizaria para deixar mais crível.)</p><p>Em algum momento, minha mãe em crise bipolar reparou que aquele Jesus não ia fazer milagre e que o melhor jeito de melhorar era buscando tratamento psiquiátrico, psicológico e medicação. A família estabilizou.</p><p>Sem o desespero para ir atrás de novas igrejas, com nossa família ostracizada das antigas, eu assumi o rumo da minha vida espiritual sozinho. Tornei-me ateu.</p><p>Assim foram meus primeiros contatos com alguns dos tipos de Jesus que caminham pelo Brasil.</p><p>Não foram lá muito positivos.</p><p>As instituições abutres que arrastam suas garras pelos cantos secos e miseráveis do Brasil devem muito em seu cinismo ao que deviam ser os templos corruptos tentando ludibriar os precários nos tempos do Jesus histórico.</p><p>O Jesus poeta provavelmente demoliria a igrejinha cenográfica, ou a tendinha vendendo carnês da semana dos milagres, com uma fúria parecida àquela que empregou quando ficou maluco destruindo as quinquilharias vendidas perto dos templos.</p><h4>Resgate do meu Jesus ateu</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*dOXSKf5IhgeQ8Vuy" /><figcaption>Photo by <a href="https://unsplash.com/@richardworks?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">Richard Burlton</a> on <a href="https://unsplash.com?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">Unsplash</a></figcaption></figure><p>A Internet dos adolescentes ateus em que eu cresci era bem hostil ao cristianismo.</p><p>Eu queria ser rebelde.</p><p>Ficava indignado com a exploração sofrida por minha vulnerável família em instituições religiosas.</p><p>Por isso, resolvi ser hostil também.</p><p>Foi mais ou menos aos onze anos que me declarei ateu. Este nível de liberdade a um adolescente brasileiro de classe média, vivendo numa periferia, seria impensável uma geração mais cedo para um Brasil de ditadura, extremamente religioso e sem Internet.</p><p>O Brasil de hoje ainda é extremamente religioso.</p><p>Agora há cada vez mais infinitas variações de Jesus neste país. Algumas cretinas, outras lindíssimas. As oportunistas e as caridosas. As que prometem curar a depressão com dízimos e aquelas que levam marmitas para os moradores de rua.</p><p>Na Internet, para contestar o cristianismo dos meus arredores, “<em>Rodlucifer666 </em>” era meu MSN, meu e-mail e meu nick no Habbo Hotel. Minhas camisetas eram de bandas de rock. No Orkut, achei graça de comunidades ofensivas, como aquela que declarava “<em>Jesus devia ter apanhado mais</em>”.</p><p>Na ignorância distorcida da paródia brasileira, a injustiça simbólica de equiparar Jesus aos romanos.</p><p>De achar que desrespeitar sua imagem era de alguma forma atacar as instituições que o distorceram, sem saber que o Jesus distorcido estava, de fato, distorcido.</p><p>A comunidade reunindo o humor “<em>irônico</em>” dos autoritarismos que crucificavam, tanto antes quanto agora.</p><p>Nada de rebelde ou esperto em comprar o lado deles… Em ecoar as pichações dos romanos…</p><p>Arrependo-me das visões bobas da época, mas sou compreensivo ao meu contexto do período.</p><p>Pensava assim sem ter ainda encontrado este Jesus poeta que, periférico como eu, poético como eu, está mais escondido, mas parece falar diretamente comigo.</p><p>Não foi fácil achá-lo, com poucos editores interessados entre o volume alto de tantas outras versões.</p><p>Mas sua sobrevida é fácil porque, sendo poética a única instituição à qual se encaixa, todo critério que precisa obedecer para continuar vivo é o do lirismo.</p><p>O encontro e a recuperação simbólica de Jesus é um projeto e um processo de gerações.</p><p>Qualquer um hostil a Jesus por cinismo está virando as costas ao legado de um pobre homem torturado e morto por não calar a boca diante de uma autoridade cínica.</p><p>Para qualquer um que busque dignidade material, ou política, o Jesus histórico é uma pedra fundamental de inspiração a todos os mártires que o seguiram ao serem perseguidos e/ou morrerem, ainda febril e convictamente apaixonados pelas suas próprias causas.</p><p>Todos na história do mundo que falaram algo porque era verdade, passando por cima do medo de morrer, estavam ecoando Jesus.</p><p>Este Jesus nosso, que por admiração tento escrever aqui no máximo e no limite das minhas capacidades… Este é só mais uma migalha.</p><p>Só um pontinho na longa linha tortuosa tentando recuperar a reputação daquele que teve suas palavras distorcidas para projetarem e justificarem impérios cruéis.</p><p>Impérios erguidos contra tudo aquilo que Jesus acreditava.</p><p>Amo profundamente o Jesus que conheço.</p><p>É uma das figuras mais inspiradoras que já passou por esse mundo.</p><p>Fico feliz que fui além da superficialidade cruel, mesquinha e medíocre das versões baratas de Jesus que mais cedo na vida me venderam. Que para além dos cristianismos oportunistas que me enganaram e traíram, encontrei na vida mais tarde pessoas cristãs decentes, tanto quanto encontrei por caminhos autodidatas este meu reencontro e reconexão com Jesus que aqui expliquei.</p><p>Conforme for se intensificando o arrocho que os impérios decadentes de hoje estão apertando mais e mais ao redor do pescoço de nós todos…</p><p>De nós todos, dos vulneráveis, dos periféricos, dos dissidentes…</p><p>Conforme for se intensificando, mais semelhantes ficarão as nossas circunstâncias àquelas que tentaram apagar toda dignidade daqueles sob a bota dos romanos.</p><p>Durante dois milênios, a ideia de dignidade para todos resistiu a todos os arrochos.</p><p>Resistiu, independentemente das maiores monstruosidades feitas de forma distorcida em nome do cristianismo, ou contrárias ao cristianismo.</p><p>Por uma das rimas mais amargas e cruéis, o arrocho dos romanos decadentes de hoje acontece, uma vez mais, na região da Palestina. E dessa vez, realizado numa máquina de moer gente construída por ditos judeus e ditos cristãos.</p><p>A bota tenta assumir de vez os nomes daqueles que já pisoteou tanto…</p><p>Em cada cadáver embaixo dos escombros, uma tentativa imperial de apagar, em nome de Jesus, a dignidade da vida humana.</p><p>A dignidade que Jesus defendia.</p><p>Algumas das coisas mais indignas do mundo foram perpetuadas por gente que se justificou com retóricas apropriadas e parodiadas, ditas cristãs.</p><p>E nada disso apagou a dignidade de Jesus.</p><p>E nem de apagar a dignidade de todos que antes, durante e depois dele foram, seguem sendo, e continuarão sendo massacrados por impérios.</p><p>Massacrados como ele foi.</p><p>Até o império da vez cair.</p><p>E a poesia continuar.</p><p>Não deixarei, enquanto for vivo, que distorçam ou deturpem de novo para mim este Jesus poeta que encontrei.</p><p>E que isto sirva para fortalecê-lo na instituição literária sob a paixão febril e forte do lirismo.</p><p>Comprometo sua dignidade à proteção sob minhas palavras e valores.</p><p>Semente de contradição no fundo das decadências de nossos impérios, encontrar seu próprio Jesus é descobrir em si vontade<br>para inventar<br>uma própria</p><p>e</p><p>coletiva,</p><p>íntima, antiga<br>e nova</p><blockquote><strong>ladainha de alento (missão, 15x)</strong></blockquote><blockquote>(ao Jesus secular<br>dos poetas)</blockquote><blockquote>diante<br>da tua crua<br>dúvida<br>na cruz, <br>Jesus,</blockquote><blockquote>diante<br>da cólera<br>no berro alto<br>do pranto<br>da Maria,</blockquote><blockquote>diante<br>de ambos,</blockquote><blockquote>nós</blockquote><blockquote>choramos,<br>lamentamos,<br>respondemos, aprendemos</blockquote><blockquote>e<br>confortamos;</blockquote><blockquote>mesmo<br>se nos matar,<br>a beleza<br>e a poesia<br>contra o poder da bota</blockquote><blockquote>protegeremos;</blockquote><blockquote>a dignidade de todos<br>foi interesse fundo<br>de Jesus</blockquote><blockquote>agora a dignidade de Jesus<br>é interesse fundo<br>de todos;</blockquote><blockquote>resgatá-lo <br>das distorções, <br>recuperá-lo<br>e fazer justiça<br>à força poética<br>de seu legado:</blockquote><blockquote><strong>missão de nós todos;</strong></blockquote><blockquote>seguir na vida buscando<br>(encontrando)<br>beleza, <br>mesmo diante<br>das ameaças<br>que erguem<br>cruzes<br>para nos ameaçar<br>a desistir:</blockquote><blockquote><strong>missão<br>de<br>nós todos;</strong></blockquote><blockquote>estar disposto<br>a carregar<br>o som da própria voz,<br>mesmo no caminho <br>em que isso puder levar<br>à censura,</blockquote><blockquote>insistir<br>pelo comprometimento<br>impenetrável<br>com a<br>verdade<br>mais lírica:</blockquote><blockquote><strong>missão<br>de nós todos;</strong></blockquote><blockquote>ter<br>empatia<br>pelos irmãos esmigalhados<br>sob o peso da bota,<br>recusar-se<br>a participar<br>de qualquer dinâmica<br>perversa<br>que repita a dor cruel<br>a terceiros,</blockquote><blockquote>acreditar<br>que arte pode resistir, <br>ou renascer,</blockquote><blockquote>falar<br>de poesia<br>com<br>modéstia humilde<br>&amp; paixão intensa,</blockquote><blockquote>sem medo,</blockquote><blockquote>com</blockquote><blockquote>urgente<br>gentileza,</blockquote><blockquote>(urgentileza)</blockquote><blockquote>como se o mundo estivesse acabando</blockquote><blockquote>(porque está):</blockquote><blockquote><strong>missão de nós todos,<br>missão de nós todos,</strong></blockquote><blockquote><strong>missão<br>de<br>nós<br>todos;</strong></blockquote><blockquote>professar<br>dúvidas<br>vulneráveis<br>para convocar<br>o conforto<br>coletivo<br>de quem nos puder<br>responder,</blockquote><blockquote>dar<br>retornos<br>com conforto<br>às dúvidas<br>professadas<br>pelo vulnerável<br>ao lado:</blockquote><blockquote><strong>missão de nós todos,<br>missão de nós todos;</strong></blockquote><blockquote>ouvir<br>e acreditar<br>nas esperanças do povo, <br>na promessa<br>de existir algum dia<br>dignidade<br>aos pobres:</blockquote><blockquote><strong>missão de nós todos;</strong></blockquote><blockquote>ouvir<br>o apocalíptico<br>fogo<br>no eco bonito,<br>mesmo escondido<br>pela suavização<br>de milênios:</blockquote><blockquote><strong>missão de nós todos;</strong></blockquote><blockquote>sonhar<br>alguma utopia, <br>alguma revolução<br>otimista<br>da qual se possa<br>versar,<br>para a qual se possa <br>caminhar,<br>levanto<br>junto<br>tanta gente<br>quanto for possível<br>da feira, da rua, <br>do ônibus, do mercado,<br>do bar;</blockquote><blockquote>quando<br>o próximo arrocho<br>vier</blockquote><blockquote>(hoje),</blockquote><blockquote>resistir ao apagamento<br>como Jesus resistiu;</blockquote><blockquote>sentir-se<br>digno o suficiente<br>para merecer<br>viver<br>&amp;<br>morrer<br>sendo quem é:</blockquote><blockquote><strong>missão de nós todos;</strong></blockquote><blockquote>legados de todos nós<br>por Jesus,</blockquote><blockquote>de Jesus<br>por nós todos,</blockquote><blockquote>insistir<br>no grito,<br>feito poeta<br>convicto,</blockquote><blockquote>cantar<br>“<em>no próximo apocalipse<br>Roma vai cair de novo!</em>”</blockquote><blockquote>(de vez!)</blockquote><blockquote>e<br>ouvir,<br>sentir,<br>acreditar<br>na verdade<br>funda<br>das histórias<br>fantásticas <br>dos pescadores:</blockquote><blockquote><strong>missão<br>de nós<br>todos;</strong></blockquote><blockquote>Jesus, não abandoná-lo na dúvida<br>é <strong>missão de nós todos</strong>;</blockquote><blockquote>virá terreno<br>a nós<br>o vosso<br>Reino!</blockquote><blockquote>é <strong>missão de nós todos</strong><br>retrucar<br>ao<br>amém.</blockquote><h3>‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎</h3><h3>‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎</h3><h3>‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎</h3><h3>‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎‎</h3><h3>LEITURAS COMPLEMENTARES</h3><p>Algumas das obras e autores que inspiraram este texto:</p><ul><li><strong>LEMINSKI, Paulo</strong>; <em>VIDA</em>. Companhia das Letras, 2013. Disponível em: <a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535923278/vida">https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535923278/vida</a>. Acesso em: 22 out. 2025.<br><strong>(Este ensaio deve tudo ao livro de Leminski e mais do que tudo à versão de Leminski para Jesus. A mini biografia de Jesus por Leminski é tão boa, e tão próxima do que gostaria que este ensaio fosse, que quase desisti de escrever qualquer coisa quando em minhas pesquisas topei com o texto dele. Se você quiser ler um outro texto sobre Jesus parecido com este, melhor do que este, leia o Jesus de Leminski.)</strong></li><li><strong>MEIER, John P.</strong> <em>A Marginal Jew: Rethinking the Historical Jesus</em>. Yale University Press, 2002. Disponível em: <a href="https://www.amazon.com/dp/0300140185?ref_=saga_ast_ss_dsk_dp">https://www.amazon.com/dp/030014018</a>5. Acesso em: 24 jul. 2025.<br><strong>(O grande e ambicioso livro de referência acadêmica sobre o Jesus histórico. É denso. Em volumes.)</strong></li><li><strong>DAY, John</strong>; <em>Yahweh and the Gods and Goddesses of Canaan</em>. Bloomsbury Publishing, 2002. Disponível em: <a href="https://www.bloomsbury.com/us/yahweh-and-the-gods-and-goddesses-of-canaan-9780826468307/">https://www.bloomsbury.com/us/yahweh-and-the-gods-and-goddesses-of-canaan-9780826468307/</a>. Acesso em: 24 jul. 2025.<br><strong>(Referência acadêmica séria explicando bem como o monoteísmo surgiu de panteões anteriores e passou a se relacionar com entidades “concorrentes”. Em inglês.)</strong></li><li><strong>SMITH, Mark S.</strong> <em>The Early History of God</em>. Eerdmans, 2002. Disponível em: <a href="https://www.amazon.com/Early-History-God-Biblical-Resource/dp/080283972X">https://www.amazon.com/Early-History-God-Biblical-Resource/dp/080283972X</a>. Acesso em: 24 jul. 2025.<br><strong>(Outro dos livros densos sobre o desenvolvimento do monoteísmo que informou o capítulo 1 deste ensaio. É tão importante enquanto referência para a área quanto o de Day.)</strong></li><li><strong>SANDERS, E. P;</strong> <em>Jesus and Judaism</em>. Fortress Press, 1985. Disponível em <a href="https://www.amazon.com/Jesus-Judaism-P-Sanders/dp/0800620615">https://www.amazon.com/Jesus-Judaism-P-Sanders/dp/0800620615</a>. Acesso em: 22 out. 2025.<br><strong>(Outra das grandes fontes acadêmicas. Esse é o melhor em localizar Jesus de acordo com o contexto cultural e religioso dos judeus de sua época.)</strong></li><li><strong>EHRMAN, Bart D;</strong> <em>Did Jesus Exist?: The Historical Argument for Jesus of Nazareth</em>. Harper One, 2013. Disponível em <a href="https://www.amazon.com/Did-Jesus-Exist-Historical-Argument/dp/0062206443">https://www.amazon.com/Did-Jesus-Exist-Historical-Argument/dp/0062206443</a>. Acesso em: 22 out. 2025.<br><strong>(Talvez o mais acessível dos divulgadores científicos sobre o tema. Um tom mais crítico e ensaístico, tipo isso, mas ainda muito melhor aparado academicamente do que eu.)</strong></li><li><strong>CROSSAN, John Dominic;</strong> <em>The Historical Jesus: The Life of a Mediterranean Jewish Peasant</em>. Harper Collins, 2010. Disponível em <a href="https://www.amazon.com.br/Historical-Jesus-Mediterranean-Jewish-Peasant/dp/0060616075">https://www.amazon.com.br/Historical-Jesus-Mediterranean-Jewish-Peasant/dp/0060616075</a>. Acesso em: 22 out. 2025.<br><strong>(Das fontes acadêmicas, esse é o mais ensaístico, o mais controverso e o meu favorito.)</strong></li><li><strong>LEMINSKI, Paulo. </strong><em>O “Jesus jacobino” de Paulo Leminski. </em>Jacobin, 2020. Disponível em <a href="https://jacobin.com.br/2020/12/o-jesus-jacobino-de-paulo-leminski/">https://jacobin.com.br/2020/12/o-jesus-jacobino-de-paulo-leminski/</a>. Acesso em: 22 out. 2025.<br><strong>(Um trecho gratuito do Jesus de Leminski disponível online para ler de graça.)</strong></li><li><strong>FERRAZ, Salma</strong>. <em>O Cristo de Paulo Leminski e José Saramago. </em>Universidade Federal de Santa Catarina, 2005. Disponível em <a href="https://periodicos.unb.br/index.php/cerrados/article/view/1194">https://periodicos.unb.br/index.php/cerrados/article/view/1194</a>. Acesso em: 22 out. 2025.<br><strong>(Artigo muito bem de uma professora brasileira realizando uma análise literária comparada entre o Jesus literário de Leminski e o de Saramago.)</strong></li><li><strong>SLEDGE, Justin</strong>. <em>Who was the Historical Jesus? </em>ESOTERICA, 2025. Disponível em: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=82vxOBbYSzk">https://www.youtube.com/watch?v=82vxOBbYSzk</a>. E também do mesmo canal, <em>Why the Historical Jesus Matters — Conversation with </em><a href="https://www.youtube.com/@JamesTaborVideos"><em>‪@JamesTaborVideos‬</em></a>, 2025. Disponível em: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=Mwr7tN4L8z8">https://www.youtube.com/watch?v=Mwr7tN4L8z8</a>. Acesso em: 22 out. 2025.<br><strong>(Sim, são vídeos no Youtube. Mas são por acadêmicos da área. O segundo em particular, com a conversa que aprofunda junto a James Tabor, é ótimo.</strong>)</li></ul><h3>SOBRE O AUTOR</h3><p>Rodrigo (1995) é escritor, redator, UX Writer, professor e mestre em Comunicação. Atualmente, atua como redator na Uá Uá. Antes disso, trabalhou por três anos como redator e UX Writer na PYXYS, após quatro anos como redator na CTRL+D. Também lecionou a disciplina de Redação Publicitária no programa de pós-graduação do Centro Universitário Belas Artes.</p><p>Graduou-se em Publicidade pela Faculdade Cásper Líbero em 2017, concluiu a pós-graduação em Escrita UX pelo Instituto de Desenho Instrucional em 2020 e obteve o título de mestre em Comunicação (também pela Cásper) em 2022.</p><p>Escreve de tudo um pouco: de artigos a poemas, de roteiros a interfaces de aplicativos, passando por livros de ficção, contos fantásticos, catálogos técnicos e apresentações em PowerPoint. Mantém publicações ocasionais no Medium. Como poeta, é um dos membros mais antigos do maior portal de poesia da plataforma, o Fazia Poesia.</p><p>Em junho de 2022, publicou seu primeiro livro pela Editora Casatrês, com o título inusitado “NFTs, influencers e a música ࿃ूੂ࿃ूੂੂ࿃ूੂOOOOOOOOOOOO ̟̞̝̜̙̘̗̖҉̵̴̨̧̢̡̼̻̺̹̳̲̱̰̯̮̭̬̫̪̩̦̥̤̣̠҈͈͇͉͍͎͓͔͕͖͙͚͜͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢ͅ ooooooooo do artista ⣎⡇ꉺლ༽இ•̛)ྀ◞ ༎ຶ ༽ৣৢ؞ৢ؞ؖ ꉺლ”, obra que investiga o processo de formação e saturação das tendências digitais e sua relação com a experiência do usuário — especialmente em situações em que essa experiência é propositalmente restringida, conceito que vem desenvolvendo sob o nome de “Anti-UX”.</p><p>Tem ainda três livros de ficção publicados pela Amazon. “Eu Só Existo às Terças-feiras”, lançado em 2022, foi finalista entre mais de mil inscritos no primeiro Prêmio Amazon de Literatura Jovem, o que lhe garantiu uma adaptação em audiobook pela Audible. Em 2023, lançou “Verde Verdade”, uma desconstrução dos romances de andarilhos. Já em 2024, publicou a ficção científica filosófica “Éramos Deuses”.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=a5f1bead73bf" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[tudos (33x)]]></title>
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            <category><![CDATA[vida]]></category>
            <category><![CDATA[literatura]]></category>
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            <dc:creator><![CDATA[Rodrigo Goldacker]]></dc:creator>
            <pubDate>Sun, 19 Oct 2025 12:06:58 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-10-20T13:27:59.919Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*u_C5NhZDNL3jK24a" /><figcaption>Photo by <a href="https://unsplash.com/@nasa?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">NASA</a> on <a href="https://unsplash.com?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">Unsplash</a></figcaption></figure><p>(por<br>nós)</p><p>quando velho terei feito tudo</p><p>tudo, tudo, tudo,<br>terei feito tudo do que quis;</p><p>quando lá<br>já terei feito<br>tudo</p><p>terei feito<br>tudo do que pude<br>do que quis</p><p>e tudo do que quis<br>do que pude</p><p>e tudo que,<br>impedido de não fazer,<br>pude, <br>tive que<br>e não quis, <br>mas fiz;</p><p>quando velho<br>terei feito tudo</p><p>terei feito<br>tudo<br>do que fiz,<br>terei feito, terei feito<br>tudo<br>que pude,<br>que quis,<br>tudo, tudo, tudo,</p><p>velho terei feito<br>tudo,<br>confie em mim,<br>prometo por mim<br>que será assim</p><p>sim, por mim,<br>prometo sim,</p><p>tudo, tudo, tudo,<br>prometo tudo,</p><p>tudo para nós<br>prometo por mim</p><p>e por mim para nós<br>prometo algum tudo</p><p>por<br>nós<br>só<br>tudo<br>deste tudo<br>que for<br>concreto, <br>possível,<br>suficiente,</p><p>esse sim, <br>prometo<br>para nós<br>só este<br>viável<br>tudo</p><p>do parque olhar todas as cores,<br>de ti ouvir cada sorrir,<br>tudo<br>tudo<br>tudo</p><p>quando<br>velhos<br>teremos<br>feito</p><p>tudos</p><p>que<br>pudemos,<br>quisemos,<br>fizemos;</p><p>tudos,<br>tudos feitos,<br>libertos<br>tanto<br>quanto<br>sujeitos,<br>estes poucos<br>tudos nossos<br>prometemos;</p><p>(e tudo do que for<br>por ato voto<br>que seja assim);</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/35/0*OogzyqWr6x-8zC-v.png" /><figcaption>Ei, gostou do poema?<br>Logo abaixo você pode interagir com nossa equipe de poetas<br>através de claps (que vão de 1 a 50) e comentários.<br>Continue lendo a <a href="http://faziapoesia.com.br/">Fazia Poesia</a>.</figcaption></figure><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=bdb56cfe3d6f" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://faziapoesia.com.br/tudos-33x-bdb56cfe3d6f">tudos (33x)</a> was originally published in <a href="https://faziapoesia.com.br">Fazia Poesia</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[que se saiba (15x)]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Rodrigo Goldacker]]></dc:creator>
            <pubDate>Wed, 08 Oct 2025 12:07:54 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-12-05T01:43:23.129Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*xIDXN0327n0aDr-_" /><figcaption>Photo by <a href="https://unsplash.com/@jacktaylorphotos?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">Jack Taylor</a> on <a href="https://unsplash.com?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">Unsplash</a></figcaption></figure><p>que se saiba, <br>Enheduana,<br>que você foi a primeira poeta com nome,</p><p>que se saiba<br>que foi mulher,<br>que cultuava uma deusa<br>e que foi a mãe da poesia autoral,</p><p>que se saiba<br>que você sozinha mostrou que o canto pode ser<br>num mesmo e único sopro,<br>sagrado, político e íntimo,<br>pessoal e coletivo,<br>momento frágil<br>e teimosamente eterno,</p><p>que se saiba<br>que vô Shakespeare foi órfão do que não fui,<br>de ti,<br>que teus filhos estão finalmente aprendendo<br>enquanto tuas filhas já cantam vozes lindas,<br>que se saiba;</p><p>e que se saiba<br>que você invocou a imortalidade com poesia,</p><p>que se saiba<br>que escreveu Nin-me-šar-ra<br>e que este poema por milênios ficou perdido<br>e que hoje é disseminado, lido e traduzido;</p><p>que se saiba <br>que você antes elevou, depois restaurou<br>a tua tão amada Inana<br>com a beleza de tuas próprias palavras,</p><p>que se saiba<br>que sua escrita fundou a escrita<br>de todo e qualquer posterior panteão</p><p>e que se saiba<br>que quando todo e qualquer deus morreu,<br>tua escrita sagrada se tornou em si,<br>dentre todas, <br>a última religião;</p><p>quatro mil anos depois, <br>por irmanar todos nós sob a poesia que pariu de teu ventre,<br>mãe nossa de todas as letras,<br>sou teu cantor do templo ao entardecer,<br>lamento melódico de gala pela voz de um brasileiro,</p><p>que se saiba<br>que você fez a coisa mais bonita da história do mundo</p><p>que se saiba<br>que você nunca será enterrada novamente</p><p>e que agora sua voz<br>está por toda parte;</p><p>𒂗 𒃶 𒌌 𒀭 𒈾,<br>Enheduana,<br>𒍝 𒃶 𒍪 𒀀𒀭,<br>que se saiba!</p><blockquote><strong>Publicar este poema em separado foi um grande dilema</strong>. Por um lado, sinto que é uma das coisas mais importantes que já escrevi. Por outro, fica incompleto sem o longo ensaio que o contextualiza e antecede. Decidi publicar porque nem todo mundo lê longos ensaios. O poema sozinho pode ser a partícula acessível da ideia e o que perco em profundidade, talvez ganhe em alcance. Mas para quem puder ler o ensaio, que isso possa ser também uma porta de entrada (leiam, por favor):</blockquote><p><a href="https://rodrigoldacker.medium.com/uma-ode-a-enheduanna-a66e01ca3d0a">Uma ode a Enheduana</a></p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/35/0*OogzyqWr6x-8zC-v.png" /><figcaption>Ei, gostou do poema?<br>Logo abaixo você pode interagir com nossa equipe de poetas<br>através de claps (que vão de 1 a 50) e comentários.<br>Continue lendo a <a href="http://faziapoesia.com.br/">Fazia Poesia</a>.</figcaption></figure><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=3ffc0bf68711" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://faziapoesia.com.br/que-se-saiba-15x-3ffc0bf68711">que se saiba (15x)</a> was originally published in <a href="https://faziapoesia.com.br">Fazia Poesia</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
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